Que mundo tão parvo

Enquanto a vida vai sendo adiada e a próxima greve geral ameaça o Verão, umas poucas frases colocaram-nos em tensão. “Parva que sou” dos Deolinda ainda não passa na rádio (será que passará?), mas é um fantástico motor de revolta. Sem qualquer registo oficial, em poucos dias, os vídeos do concerto no qual foi cantado pela primeira vez têm sido replicados na Internet, num movimento nunca visto. Mais do que a reacção do público que o Nuno sublinha, valorizo a tensão que colocou no ar. Ainda que, ao contrário do que o Rui Tavares enuncia, não me sinta inscrito na “geração sem remuneração”, a falta de comparência da nossa geração (a minha e do Rui) é um dos factores determinantes no rolo compressor que adia a vida e o futuro de quem tem menos de trinta anos.
Momentos como os que os Deolinda nos proporcionam são muito importantes para aumentar a tensão, embora esteja em crer que os dias mais decisivos para a luta dos povos sucedam a partir de acontecimentos inesperados (importa não esquecer que na Tunísia a revolta se inicia a partir de uma disputa de espaço no mercado).
Se podemos continuar a viver assim por muito mais tempo, não sei. O que me parece é que temos cada vez menos tempo. Se não tomarmos rapidamente conta do nosso futuro, corremos o risco de deixar aos nossos filhos uma vida muito pior do que aquela em que vivemos.

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4 respostas a Que mundo tão parvo

  1. susana diz:

    a propósito de tudo isto que tem vindo a ser escrito, mais especificamente sobre a precariedade dos arquitectos, ocorre-me a necessidade de reflexão sobre o próprio enquadramento profissional. acontece que a arquitectura é um meio altamente politizado e corporativo. como na política, o jovem aspirante cheio de sonhos, com vontade de mudar o mundo, acredita que há um ritual de iniciação. crê que só terá de dar a outra face por pouco tempo, só até ‘entrar’. depois iniciará a mudança, mas só quando envernizado pelo prestígio do patrão explorador.

    a meia dúzia de histórias que eu, periférica ao meio, conheço, chegadas iguais por diversas fontes, acerca de arquitectos que exploram outros mais jovens, deve estar incluída nas muitas mais que todos os arquitectos conhecem. denunciam-se? não, só cochicham, mas continuam todos amigos no facebook, e até se divulgam mutuamente as belas realizações.

  2. Filipe Gomes diz:

    «fantástico motor de revolta»???

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