O Francisco Assis que não é o santo e o “moralismo bacoco”

O líder parlamentar do PS afirmou que uma moção do BE a defender a revolta do povo egípcio era uma manifestação de “moralismo bacoco”. Já se sabia há muito que para o partido de Sócrates ter moralidade é ser bacoco. Renderam-se ao princípio da “realidade”. São a esquerda dos interesses e dos ajustes directos. Passeiam, com a mesma alegria, dos seus colegas dos bloco central, entre os corredores do poder e os assentos dos grandes negócios. A política realista não passa, para eles, de um trapolim para os gabinetes dos grandes grupos financeiros, das maiores construtoras ou das gigantescas empresas energéticas e de comunicação.
A sua análise internacional decorre da sua escolha nacional. Os émulos da Terceira Via que acolheram de braços abertos os ditadores tunisno e egípcio na Internacional Socialista renderam-se ao princípio do “realismo”. Argumenta Assis que ter princípios que condenem os ditadores “não tem nenhum efeito real”, tal como diz Toni Blair, qualquer mudança no Egito deve ser “estável” e, como tal, resultar de um acordo com os ditadores: uma espécie de alargamento da gamela da corrupção a mais uns tantos.
Os discursos de Louçã e do PCP são, segundo eles, coisas de padrecos, de um moralismo atroz. Entendamo-nos, ser honesto não é equivalente a ser de esquerda – há muitos e homens e mulheres de direita que são pessoalmente honestos -, é , no entanto, preciso dizer que o regime do bloco central instalou em Portugal um capitalismo que vive à conta dos contribuintes, em que os lucros são privados e os prejuízos são públicos. Todo o capitalismo, e este em particular, gera a desonestidade. A aceitação do princípio da “realidade” é o primeiro passo no sentido de deixar de ser de esquerda. Ao contrário do que julgam esses senhores, e os seus amigos da esquerda fofinha e responsável, ser de esquerda não passa por essa aceitação da política tal como ela é, mas pelo contrário da afirmação daquilo que parece hoje impossível. É esta irredutibilidade ao presente que caracteriza aqueles que querem uma política diferente. Impossível? Talvez. Mas é a única política que vale a pena. E certamente nos impede de ser cúmplices dos Mubarak de turno.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

17 respostas a O Francisco Assis que não é o santo e o “moralismo bacoco”

  1. miguel dias diz:

    Fosse ao menos baroco, o tal moralismo.

  2. A.Silva diz:

    Maravilha das maravilhas, o cidadão pode chegar ao dia de votar e ser impedido de votar por ineficiência do estado, mas as crianças mal dão o primeiro berro para o mundo vão passar a ter número de contribuinte. Bela metáfora para um sistema em que mais importante que os direitos de cidadania, são as obrigações (extorsão) de contribuinte!
    Puta que os pariu!

  3. Sabes uma coisa Nuno, tenho pena da condição a que o fulano do Pê Esse a que te referes está reduzido, ou escolheu reduzir-se.

    Eu estive lá na cidade de que ele foi presidente da câmara eleito aos vinte e tal anos, e aquilo era muitíssimo bom, comparando…

    Suponho que o problema é as pessoas se “orgulharem” de desconhecer os os seus limites (limiares ?) de competência e então dá javardice.

    Em relação ao conteúdo do teu post, o que eu espero é que com ou sem a Irmandade ‘Moslémica’ os tipos lá não destruam de vez e por completo um lugar que demorou milhares de anos a fazer.
    Em relação ao que a ‘assembleia local’ pensa, repensa ou deixa de pensar… irrelevante.
    🙁

  4. l'outre diz:

    Não se trata meramente de ser contra ou a favor da revolução do povo egípcio. O ponto 1 do artigo 7º da Constituição da República Portuguesa diz:
    “1. Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios […] da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados […]”

    O governo português não pode assumir uma posição sobre um assunto interno ao estado do Egipto. A constituição não o permite. Pode condenar os ataques a manifestantes (está previsto no mesmo número do mesmo artigo), mas não pode (nem deve) imiscuir-se naquilo que é um problema egípcio e que terá de ser resolvido pelos egípcios.

    Naturalmente que cada deputado pode ter a opinião que quiser sobre o assunto, mas o estado português não pode manifestar qualquer apoio quer à revolução quer ao ditador.

    Penso que seja por isso que Assis o chamou de moralismo bacoco (posso estar enganado, não sei o que se passa na cabeça do deputado). Não porque concorde com o regime de Mubarak, mas porque, por força da constituição, a proposta do BE nunca poderia ser aprovada.

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Meu caro, se isso assim fosse nunca teria sido aprovado nenhuma moção sobre a situação em qualquer país. Só sobre Cuba, o PS já deve ter apresentado e votados umas largas duzias. Para além disso, o ponto 3 do artigo 7, da mesma constituição reza o seguinte: “Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão”.

    • l'outre diz:

      Desconheço as moções aprovadas pelo PS sobre cuba, gostaria que pudesse apresentar exemplos concretos, mas tem toda a razão no que diz. Portugal não deveria ter-se imiscuído em assuntos internos cubanos, tal como agora não se deve meter em assuntos internos egípcios.

      Repare que, segundo o ponto 3 do artigo 7º, Portugal deve reconhecer que o que os revoltosos estão a fazer é um direito seu. O ponto 3 não diz em algum momento que Portugal deve apoiar a insurreição, seja de que forma for. Apenas diz que reconhece como legítima (que é diferente de dizer que apoia) a luta do povo egípcio.

      O ponto 1 do artigo 7º é muito mais forte do isto. O ponto 1 diz que as nossas relações externas REGEM-SE pelo princípio da não ingerência em assuntos internos. O ponto 3 apenas diz que Portugal reconhece um direito, o ponto 1 impõe limites à nossa política externa.

      Por isso considero que a posição mais correcta é o país não se pronunciar a favor ou contra a revolução (ou Mubarak). Já em relação à violência que se vive no Egipto, acredito que, ao abrigo do artigo 7º da constituição, é um dever do estado português denunciar e condenar esses actos de violência.

  6. Ah e a minha homenagem aki, mas absolutamente ao lado disto, faleceu hoje uma pessoa de bem de quem eu gostava, aos 87 anos, pai ou tio (já não me lembro bem…) do meu colega Chico P. do meu amigo António P. e da Isabel P. Sentimentos, se lerem.
    Este senhor: António Borges Coutinho. Um senhor, ponto.

    • a anarca diz:

      Que bem relacionado 🙂
      intrigas de ratos no palacio Praia

    • António Figueira diz:

      Durante alguns anos, de cada vez que alguém vestia um casaco aos quadrados (certo tipo de casacos aos quadrados), dizia-se que ele vestia um casaco à Borges Coutinho (aí por 72, 73).

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Meu caro,
    Desculpe mas não estou nada de acordo com o que diz. Creio que tem um conceito de ingerência demasiado lato. Os portugueses e o parlamento tem o direito e o dever de opinar sobre os direitos humanos em todo o mundo. Seja na China ou no Egito. Mais, a comunidade internacional deve pressionar para que determinadas mudanças aconteçam. Veja-se o caso de Timor Leste ou do apartheid na África do Sul. Diferente é o direito de ingerência, coisa que Portugal já patrocinou, quando concordou que a Nato bombardeasse a Sérvia. É sobre isso que o texto constitucional fala. Distingue o apoio político e de pressão internacional sobre as ditaduras da participação em actos militares, supostamente feitos a coberto de um suposto “direito de ingerência humanitária” .
    A questão que o PS levantou foi que condenar o amigo Mubarak não servia para nada. É essa venda aos princípios da real politik que eu contesto.

    • l'outre diz:

      Caro Nuno Almeida,
      Concordamos nos pontos essenciais. Nomeadamente na pressão que o governo português deve fazer caso existam violações de direitos humanos (algo que está previsto no ponto 1 do artigo 7º da constituição, o tal ponto “forte”. Daí afirmar que Portugal tem o DEVER de denunciar e condenar as acções violentas que decorrem no Egipto.

      No entanto, e aqui é que está o busílis da questão, o movimento revolucionário egípcio tem um carácter político de alteração do regime vigente. Isto é uma alteração interna ao Egipto, coisa sobre o qual Portugal não se deve pronunciar. Resumindo e de forma muito simplificada: Denunciar e condenar actos de violência e limitação da liberdade SIM, apoiar um movimento que tem objectivos políticos de reestruturação do poder NÃO (o que também não quer dizer que se condene o referido movimento, tal também seria ingerência num assunto interno).

      O bombardeamento da Sérvia que Portugal apoiou, não me parece grande exemplo de ingerência Portuguesa em assuntos internos de outro país. Existiam na altura fortes indícios de graves crimes contra a humanidade e violações dos direitos humanos, que exigiam acção imediata, sob o risco de serem irreversíveis. Diversos líderes sérvios tiveram que responder em tribunal por estes crimes.

      E voltando ao PS, reafirmo que não posso ter a certeza que essa tenha sido a intenção de Assis. Ele podia perfeitamente estar a referir-se à inconstitucionalidade (como eu defendo) da medida do BE, e que por isso a proposta não serviria para nada, pois nem seria válida à luz da constituição. Se a proposta do BE fosse apenas condenar a violência no Egipto, seria o primeiro a apoiar a medida.

  8. Osarsif diz:

    Ser honesto não é realmente equivalente a nada mais nem nada menos que isso mesmo, ser honesto. Para mim, não tem rigorosamente nada a ver com esquerda ou direita. E para si, tem?

    O que eu não entendo no seu texto é: se chega ao ponto de admitir que há muitos homens e mulheres de direita que são honestos, por que é que acrescenta o “pessoalmente”? Creio que seja porque, em sua opinião, o ser de direita em si não é lá muito honesto ou equivale a defender coisas tão injustas que são praticamente desonestas… mas isso já é o tal reino moral… mas que essa seja a sua opinião é só uma presunção minha.

    E também, mais simplesmente: o que é que lhe travou o raciocínio a ponto de o impedir de reconhecer que também existem homens e mulheres de esquerda que não são honestos? Essa é que eu não entendo mesmo.

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Faça um esforço em ler o que está escrito. A honestidade como atitude pessoal não é de esquerda nem de direita. Um sistema que funciona com lucros privados e prejuizos suportados por todos, em que o capitalismo vive à mama do Estado é estruturalmente desonesto.
    Finalmente, o pragmatismo, “o realismo” e a cumplicidade com os ditadores devido a negócios, não é de esquerda e não me parece ser alimentada pela honestidade.

    • maradona diz:

      mas oh nuno, quer dizer, a “única que vale e pena” não é um bocadinho exagerado? eu admito que a retórica da rendição sistemática à realidade e ao presente pode ser utilizada para justificar a esclerose e a amoralidade, mas a politica que arrisca pensar o impossível, a partir de determinado grau de desprezo pela realidade, também, caramba. a política da realidade pode ser decente (como é obvio, não o é sempre, e se calhar não é a maioria das vezes, mas adiante), e mesmo a política do presente pode justificar-se, se se sinceramente considerar que as alternativas são piores (e muitas vezes são). não me choca que a pessoas como vocês dê nojo viver numa sociedade organizada assim, mas não se exclua automaticamente da responsabilidade de existir por aí quem, partilhando do mesmo asco, não o veja a si ou aos seus sonhos e ideias como uma possibilidade real, ou seja, que não considere que a derrota do sonho do nuno é, não só certa, como nos levará para um sitio pior. rejeitar as alternativas, reais ou impossiveis, pode não ser um movimento de aceitação do presente. em politica, o que vale ou não vale “a pena” é tão subjectivo e complexo que pessoas quase tão espertas como eu até desistiram de o encontrar por métodos cientificos, arranjando antes um método estatístico para separar as politicas que valem a pena das politicas que não valem a pena. não basta a “afirmação do que é hoje impossivel” para determinada politica “valer a pena” que diabo. a politica que combate certas ideias de possibilidade, mesmo que lindas na sua aparencia final (como o comunismo), também podem se-lo. além disso, a derrota de um sonho (possivel ou impossivel)pode ser mais dolorosa que ambas as alternativas: a sua vitória, ou a sua derrota. isto é tudo demasiado complicado (para mim não há nada que não seja demasiado complicado, mas, novamente, adiante), entendo por isso que o que não vale mesmo nada a pena é arranjar fórmulas que definam e classifiquem automaticamente a politica alheia. mesmo que vote no professor doutor anibal antonio cavaco e silva. (mas quando à parte inicial, a cena concreta, acho que concordo totalmente, muito embora considere que a vossa energia contra os ditadores está quase sempre sujeita a demasiados cálculos sobre o custo-beneficio na luta maior contra o capitalismo e o imperialismo americano)

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    maradona, a aceitação daquilo que temos como único horizonte do possível levou-nos alegremente à situação actual. Sinceramente, ao contrário de Leibniz, não creio que estejamos no melhor dos mundos possíveis. Citando outro autor que tu não vais gostar de ler traduzido em inglês (Rancière) há uma diferença entre a política entendida como mera gestão das coisas (la police) e a política entendida como processo processo de emancipação pressupondo a igualdade (la politique). Limitar o pensamento político a aquilo que parece possível num determinado momento é condená-lo à impotência daquilo que existe.

  11. Bolota diz:

    Quando se fala em Francisco Assis, só me vem á memoria a sua imagem com os oculos dependurados numa orelha quando do empurrões em Felgueiras quando se armou em heroi.

    Será que esta gente não se enxerga??? A continuar assim, um destes dias e num qualquer lugar, vai andar oculos dependurados outra vez.

    O homem não é BACOCO, o homem é uma figurinha que só num pais de merda como o nosso continua a falar grosso.

  12. Pingback: A revolução a quem a trabalha! | cinco dias

Os comentários estão fechados.