Economicismos e revolta política

Os dados sobre os países magrebinos e árabes que são apresentados aqui justificam que sejamos cada vez mais cépticos quando nos cruzamos com a explicação preguiçosa que costuma aparecer a cada revolta ou motim em países pobres, fiquem eles no sul do mediterrâneo ou na África sub-sariana:
A de que “aquilo” aconteceu devido à pobreza e ao desemprego, que são revoltas mais económicas do que políticas.

Esta interpretação habitual tem subjacente, para além do desconhecimento, um preconceito: o de que os pobres pensam com a barriga e a sua política é o estômago.
Por sua vez, esse preconceito passa por “natural”, face ao economicocentrismo aparentemente tecnocrático do discurso político hoje dominante – enformado pelas visões económicas neo-clássicas e neo-liberais, mas que parece fazer sentido a quem partilhe uns fragmentos mal digeridos de marxismo de manual de divulgação.

Mas dizem-nos os tais dados que a actual onda de protestos árabes começou no país com, de longe, a menor taxa de pobres da região (3,8%) e que está a ter a maior visibilidade num país que, embora com 20% de pobres, tem a segunda menos alta taxa de desemprego (9,8%).

Convidando-nos a pensar – sem, para isso, termos que recorrer a coisas esquisitas como a teoria do caos – que a pobreza e os aumentos de preços podem ser um caldo de cultura, um catalisador ou uma faísca para a revolta (e, desta vez, a faísca até foi um acto simbólico), mas nem bastam para que ela ocorra, nem são a única coisa que ela expressa e contra a qual se insurge.

Podem variar muito as visões acerca do que é a dignidade, do que são os direitos, do que o poder político é e deveria ser. Mas só muito excepcionalmente (se é que tal pode acontecer) uma revolta popular ou amotinação pública poderá não ser, na sua génese, mobilização e desenvolvimento, uma expressão e reivindicação política.
Mesmo que, ao contrário de agora, só explicitamente se insurja contra questões económicas e não reivindique o afastamento dos detentores do poder estatal.

É assim nos países árabes (em cada caso diferentes), como foi assim nas revoltas de 2008 e 2010 em Moçambique, e assim foi um pouco por toda a África sub-sariana, nos últimos anos.

O que, por outro lado, nos obriga a conhecermos cada situação e cada caso, na complexidade dos muitos factores envolvidos, para o podermos compreender.
E nos “proíbe” generalizações simplistas, ou a redução das pessoas ao seu aparelho digestivo.

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged . Bookmark the permalink.

12 respostas a Economicismos e revolta política

  1. Leo diz:

    “E nos “proíbe” generalizações simplistas, ou a redução das pessoas ao seu aparelho digestivo.” ?????

    Nem sequer ainda entendeu que cerca de 40 milhões de egípcios vivem com menos de dois dólares por dia? Que calhau com dois olhos!

    • paulogranjo diz:

      Lá que vocelência seja um dos tais que acham que «os pobres pensam com a barriga e a sua política é o estômago», de braço dado com as Cinhas Jardim deste mundo, nem outra coisa seria de esperar.

      Mas que tenha o desplante de vir afixar comentários destes (mostrando, en passant, que não percebe um argumento nem que lhe façam um boneco), isso eleva o seu geológico intelecto a novos e insuspeitados níveis de cristalografia granítica.

      • Leo diz:

        Não só entendeu que cerca de 40 milhões de egípcios sobrevivem com menos de dois dólares por dia como até não entendeu que entretanto houve aumentos brutais dos preços dos alimentos e do petróleo e cortes nos subsídios estatais.

        • paulogranjo diz:

          Antes de escrever mais um comentário, a citar o próximo dado económico conhecido, sugiro-lhe que leia o post com um bocadinho de atenção e faça um esforço para perceber qual é o argumento nele apresentado.
          Com um bocadinho de esforço intelectual, verá que não é muito difícil nem complicado, e que está expresso de forma clara.
          Se o perceber e o quiser comentar ou discutir, faça favor.
          Se não o conseguir encontrar ou perceber, peça com jeitinho e eu prometo que amanhã lho tentarei explicar em 3 ou 4 frases simples (hoje não, que tenho muito que fazer).

  2. Anthony Charles Lynton Blair diz:

    Dear Mr. Paulo Granjo,

    I am writing this mail on behalf of the late labour government to thank you for your message of support against president Robert Mugabe in Zimbabwe.

    Your example has been greatly acknowledged. A path has been given towards true freedom and democracy.

    Sending you all the best from Great Britain.

    Yours faithfully,

    Anthony C. Lynton Blair

    • paulogranjo diz:

      Up yours, herr “Pedro the African”.

      E, já agora, reconverta-se para poluir lá a sua rua.
      Até posso arranjar paciência para discutir argumentos com imbecis, se eles forem capazes de os articular.
      Mas, doravante, começarei a apagar comentários meramente insultuosos e que não tenham a ver com o assunto do post.
      E não venha depois queixar-se que lhe andam a censurar o direito de ir a casa dos outros insultá-los quando lhe apetece. Isto é um blog, não é um caixote do lixo.

  3. Alexandre F. diz:

    É sempre bom esvaziar o conteudo e substitui-lo por umas palavras vistosas como reinvidicações politicas por democracia, liberdade..Vem sempre a calhar!
    Não! Não se trata da miséria, pobreza, exploração pura e dura, o problema é mesmo da falta de democracia, ao estilo ocidental como é obvio, uma bela e ocidental democracia.
    Retirar do contexto da revolução no Egipto e na Tunisia todo o contexto socio-economico, ou relativiza-lo é cair na vacuidade conveniente.

    • Não. Conforme sugere, parece que a questão é reduzir o assunto à mera existência pura e dura da miséria ou da exploração (sendo que esta última, em termos marxistas, não existe no capitalismo excepto no quadro da expolição de mais-valias, o que implica, antes de mais, que se tenha trabalho assalariado e se produza), para que, com mais miséria (mesmo que sem exploração, porque a malta mais miserável é a desempregada), daí floresçam, não apenas revoltas, mas revoluções em catadupa.
      E eis como, contra Marx e os posteriores aprofundamentos do marxismo, chegamos à tese de que basta o agravamento da miséria (vulgo – ou não tanto assim – das “condições objectivas”) para que a revolta e a revolução aconteçam. E, portanto, “quanto pior melhor”, pois o lumpén traz em si a chave do futuro.
      Deixando de lado tudo o que de real o último século nos deixou para pensar, é de facto chato que, enquanto ferramentas mentais (e, diria eu, contra o sentido que Marx dá à palavra, “ideológicas”), só se tenha a vulgata pseudo-marxista simplista que se engorgitou à pressa, e nem sequer aquilo que os bacanos efectivamente pensaram e escreveram.
      Coisa que, de facto, daria muito mais trabalho a ler e a pensar – já para não falar da trabalheira de ler e pensar no que os outros pensaram e escreveram depois, a partir do que nos deixaram os tais “pais fundadores”.
      Mas, de facto, é talvez melhor ignorar uma outra coisa, já que dá um trabalheira do caraças: que o que de, provavelmente, mais esencial há a retirar das tais de Teses Sobre Feueubach não é nada que lá esteja explicitamente escrito, mas o que dali resulta, e é um bocado perturbador. Que o materialismo sem dialética é um extremo de idealismo.
      Mais fácil, de facto, pensar que os pobres pensam só com o estômago. O que, aliás, nos põe de acordo com os estereotipos vigentes. O que, por sua vez, só dá razão ao Gramsci e à tal invenção da “hegemonia”.
      Embora seja um bocado deprimente quanto ao futuro.

      E, é claro, quem tem dificuldades económicas estar-se-á nas tintas para essas mariquices de ricos das dignidades, direitos e democracias. Que lhes dêem de comer e estão bem e gratos.
      Desculpe o desabafo, mas que mundo triste em que você vive…
      E, já agora, que merda de gente, essa por quem e ao lado de quem eu tenho lutado.

  4. Tiago Mota Saraiva diz:

    Paulo partilho das tuas inquietações, não tanto no que toca ao motivo, mas mais no que despoleta a revolta. Será que um problema de espaço num mercado pode provocar uma vaga de revoluções?
    Logo hoje, que é dia de feira de Carcavelos!

  5. Caro Tiago:

    Penso que a coisa anda mesmo em torno do que está subjacente à tua bem humorada pergunta.

    Não tanto do “bater de asas da borboleta” (uma imagem forte mas pouco exacta para o que pretende retratar, já que nos faz pensar num factor isolado e em efeitos dominó – em vez de em interacções entre factores mutáveis em resultado das interacções anteriores, e cuja mutação altera as características das interacções subsequentes), mas mais da tal de “dependência sensível das condições iniciais”, com duas consequências:
    Por um lado, que de conjugações muito parecidas de condições possam resultar desenvolvimentos muito diferentes, devido a pequenas diferenças quer nos factores, quer nas interacções entre eles. E que de diferentes conjugações de condições possam também resultar desenvolvimentos bastante semelhantes.
    Por outro lado, que tipos diferentes de factores (económicos, simbólicos, políticos, cognitivos, colectivos, individuais, estruturais, conjunturais, de constrangimento ou de volição), e não apenas alguns deles e sempre, possam ser os determinantes para o desencadear e direccionamento de cada processo particular, e que possam ser diferentes em diferentes fases desse processo.

    Voltando ao economicismo, é óbvio que ele não tem lugar numa análise marxista séria, desde a conceptualização da dialética entre condições objectivas e condições subjectivas.
    (O que não quer, claro, dizer que não se tenha tornado a vulgata, em resultado das versões simplificadas e “de divulgação do marxismo”.)
    Mas creio que há um problema maior do que o pouco aprofundamento que as “condições subjectivas” mereceram, no património teórico e analítico marxista.
    Creio que é a lógica (subjacente ao binómio condições objectivas/condições subjectivas) de “condições determinantes” e de “condições necessárias” quase fixas e universais que deve ser questionada e, temo bem, descartada.

    Digamos que mais dialética e mais reconhecimento e compreensão da complexidade e menos (ou nenhum) esquematismo e simplificação.

  6. miguel serras pereira diz:

    Excelente post – e excelentes respostas aos comentários dignos desse nome. Sublinho: “Mas creio que há um problema maior do que o pouco aprofundamento que as “condições subjectivas” mereceram, no património teórico e analítico marxista.
    Creio que é a lógica (subjacente ao binómio condições objectivas/condições subjectivas) de “condições determinantes” e de “condições necessárias” quase fixas e universais que deve ser questionada e, temo bem, descartada”.

    À espera da continuação.

    Saudações democráticas

    msp

Os comentários estão fechados.