Domínio Financeiro

Depois de uma ausência em 2009, em pleno ascensão da crise financeira mundial, os grande bancos voltaram em força para participar no Fórum Económico Mundial em Davos, este ano. Representantes do JP Morgan, UBS, Credit Suisse, Barclays, Lloyd”s, Nomura, Lazard, Standard Chartered etc. foram com uma mensagem muito clara para os governantes das principais economias mundiais: não exagerem nessa conversa da regulação. Estes tenham introduzido a retórica da regulação financeira nos seus discursos (menos na implementação) e apontado os dedos aos Bancos (e depois oferecido fundos públicos aos bancos), mas a cimeira de Davos torna ainda mais evidente quem é que manda. O Bancos foram claramente ameaçar os governos a não regularem o sector bancário e financeiro, argumentando que sem os bancos não haverá financiamento para investimentos e recuperação da economia.

Citado no Público de hoje, as afirmações do presidente do banco italiano Intesa Sanpaolo, Corrado Passera, dá sustento a estas ameaças: “Neste momento, já atingimos um rácio de capital que, para muitos bancos, pode criar um obstáculo ao crescimento futuro”. Isto é «que detêm o capital para haver investimento e recuperação económica são os Bancos, meus senhores, não são os Estados. Os senhores já não têm capital para reanimar as economias; os governos, as empresas e os cidadãos estão em dívida para connosco. Somos nós que somos decisivos». A subjugação da política económica e social dos estados no sector financeiro não política não poderia ser mais clara. ()

A comissão oficial do governo federal do EUA para investigar as causas da crise financeira nacional (Financial Crisis Inquiry Commission) emitiu, a semana passada, o seu relatório. Mesmo as conclusões deste painel, que não é propriamente crítico do sistema capitalistas, conclui que a crise não tive teve como causa todo um sistema, em que responsabilidade foi repartida entre os governos neo-liberais que desregularam o sector, os administradores dos bancos e os mega-milionários que navegam as águas da especulação mundial.

[O seguinte são traduções de reportagem do programa Democracy Now!]

{O presidente da comissão, Phil Angelides, afirmou:

“A crise financeira poderia ter sido evitada. (…) Os capitães das finanças e os fiscalizadores públicos dos nosso sistema financeiro ignoraram alertas e, importante, não questionaram, não procuraram compreender e gerir a evolução dos riscos que num sistema financeiro é tão essencial para o bem-estar no nosso país. Foi uma grande falhanço no alvo, não um tropeção.”

A Comissão afirmou que referiu ao Departamento de Justiça e Procurador-Geral potenciais violações da lei por pessoas e corporações. O membro da comissão John Thompson lançou as culpas numa combinação de desregulação e inacção ao nível federal:

“[A crise foi] menos culpa de um indivíduo em particular e mais uma responsabilidade sistémica de desregulação e inacção por aqueles que estavam em posição de poder para tomar acção”.

Olhando para a frente, o membro da comissão Byron Georgiou alertou que as estruturas principais do sistema financeiro que levou ao colapso continuam em pé:

“O nosso sistema financeiro não é hoje, 2011, muito diferente daquele que conduziu à crise em 2007 e 2007. Na verdade, a concentração de bens financeiros nos maiores bancos comerciais e de investimento é maior hoje que na escalada para a crise, fruto da evisceração de certas instituições e consolidações e concentrações de outras em instituições maiores.”}

Isto é, estamos piores agora, do que antes da crise. Destas afirmações discordo com sobretudo com a implicação que alguns agentes, bancários, reguladores ou governamentais, não tomaram acção por desleixe. O virar de costas e inacção só pode ser interpretada com cumplicidade e concórdia. (…) Não há dedos nas mãos e nos pés suficiente para apontar. O que precisa de ser julgado é todo o sistema. O veredicto é culpado. E a sentença deveria ser a sua substituição por um sistema alternativo, em que os bancos e o sector financeiro está ao serviço dos interesses políticos e económicos, e não o inverso. Mas a comissão não foi tão longe.

Extracto de texto maior no Jangada de Pedra

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
Este artigo foi publicado em André Levy, Sistema Económico e Financeiro. Bookmark o permalink.

5 respostas a Domínio Financeiro

  1. O discurso dos liberais ortodoxos é desconcertante e míope, mas as críticas esquerdistas ao capitalismo valem zero. Entre os dois extremos é raro ouvir-se alguma coisa de jeito e entretanto vamo-nos todos lixando.

  2. “Esquerdista”? Tomo ofensa. Mas essa do “valem zero” havia de ser explorada. A esquerda não tem apenas críticas, tem propostas, e texto aponta uma. O seu comentário é meramente exposição de cinismo. Isso que vale?

  3. Essa coisa de Davos são cerimónias, vénias, enorme aborrecimento, tipos que nunca mais se calam, e depoishá uns funkionários por outros que escrevem (e imprimem e las distribuem) umas “conclusões” que ninguém lê ou tenciona.
    Vá lá que se pode esquiar por ali…
    Deve ser essa a ideia.
    Turismo, pretensão, «água-benta» e circunstância.
    Disparate sequer ligar, quem lá vai não o faz.
    🙁

    • Eu não acho que seja um disparate acompanhar o que sucede nestas reuniões. Há a parte cerimonial que parece ter pouco interesse, mas há também muita conversa bilateral que não é inconsequente. Certamente, não há que exagerar o significado da cimeira, que terá a sua componente meramente lúdica e de palco para verborreias. Mas nos interstícios há informação que importa acompanhar.

  4. xatoo diz:

    a “crise” de 2008 foi deliberadamente provocada pelos bancos i.e. poder financeiro numa clara opção pela concentração capitalista (vem nos livros, que esse bronco aí acima, J.Piedade Valente nunca leu, porque para os betos das meias tintas sociais democrtas não existem monopólios nem teoria que os explique). Isto quer dizer que a multidiversidade de bancos que se dedicavam à especulação a retalho, ou deixaram ou vão deixar de existir. Menos que esses que ainda falaram em Davos, os beneficiários da “crise” são a Goldman Sachs, JPMorgan, Citigroup, Bank of America, (e avulso o investidor Georg Soros) como mega-entidades bancárias que se propõem especular (legalmente) com Estados inteiros. Os nossos bancos com balcão para a rua, mesmo que “grandes”, não passam de meras mercearias (filiais) quando comparados com os distribuidores do negócio comandado a partir da Reserva Federal norte americana.
    Se antes nas periferias havia evasão e economia paralela como forma de escape ao saque, a partir de agora, com a alata supervisão dos Estados, não haverá cão nem gato no mundo que se escape a pagar royalties aos bonzos do american way-of-life

Os comentários estão fechados.