João Delgado, cabeça de lista da Moção C e uma das vozes mais críticas da oposição interna, sai do Bloco de Esquerda.

Aderi ao Bloco desde que o Movimento foi dado a conhecer em Braga, ajudando, num colectivo escasso mas empenhado, a construir a organização distrital. Ao longo deste percurso, fui eleito para cargos de direcção a nível local e nacional, co-representei o partido na autarquia e no debate mediático, procurando sempre ser porta-voz das decisões maioritárias, independentemente de maiores ou menores discordâncias, que considero inerentes à militância partidária.

E é porque publicamente sou identificado como militante do Bloco, que penso ser minha obrigação no mesmo espaço deixar registada e justificada a minha demissão, que comuniquei a quem de direito em véspera de eleições, não tendo sido, portanto, condicionada pelos sortilégios do voto, que infelizmente foram os que conhecemos.

Não aderi ao Bloco de ânimo leve, antes pelo contrário, procurei perceber com clareza qual a estratégia política desta nova força, que em bom momento rompeu paradigmas na esquerda portuguesa. A proposta era a de “Começar de Novo”, e esse texto consubstanciava um projecto de programa suficientemente motivador para vencer as resistências de quem vinha de outra militância frustrada.

Três aspectos fundamentais contribuíram para a minha decisão de adesão.

Em primeiro lugar, a afirmação de que o Bloco não pretendia ser mais um partido, antes se assumia como Movimento, que apenas por imperativos legais assumia o estatuto partidário. Condição motivadora foi também a adopção de uma direcção colegial, factor absolutamente distintivo no panorama nacional e internacional. A afirmação, na primeira Convenção, de que o Bloco assumia a “perspectiva do socialismo como expressão da luta emancipatória da Humanidade contra a exploração e opressão”, não sendo embora enquadrável nos clássicos “ismos” da esquerda, era uma garantia de que não estava a gizar-se mais uma força política de cariz reformista e promotora do “bom” capitalismo.

O Bloco prometia, assim, “correr por fora”, recusando os parlamentarismos estéreis e os jogos centrados no crescimento próprio, não sacrificando causas à aritmética eleitoral.

Mas a verdade é que, com o correr dos dias, os sucessos eleitorais foram acompanhados de uma crescente institucionalização do partido, hoje absolutamente centrado nos parlamentos e refém da lógica do líder incontestado, própria de tradições que se pretendiam reequacionar.

Mas se estes aspectos podem parecer menores, e apenas de ordem organizativa, no plano político o Bloco teve dois momentos em que publicamente manifestei a minha total discordância, e que procurei contrariar, com muitos companheiros apoiantes das moções C das duas últimas convenções, mas também de outras correntes internas, incluindo a maioritária, como foi com centenas de bloquistas na reivindicação de uma convenção extraordinária, para debate e decisão da questão presidencial.

O primeiro desses momentos foi o famigerado acordo de Lisboa, em que o BE aceitou compromissos com a direcção do PS, sob pretexto de que se tratava de uma questão local, e não replicável. Mas, nesse debate interno ficaram claras as pulsões, creio que minoritárias, de convergência com o PS, invocando o eterno mito de um remoto PS de esquerda, que poderia ser um compagnon de route nas urgentes transformações sociais do país. Se…

O apoio a Manuel Alegre não foi mais do que o segundo andamento dessa cacofonia, que define uma tendência, do meu ponto de vista absolutamente oposta aos princípios fundadores. Participar em comícios com ministros de Sócrates, ouvindo-os vociferar hipocritamente pela defesa do estado social e dos serviços públicos, significa um efectivo abdicar pelo Bloco dos seus princípios ético-políticos, e uma entrada desastrosa no possibilitismo da acção inconsequente. Confunde os militantes e o povo de esquerda, coloca o Bloco em terrenos, no mínimo, dúbios. Acresce que todos sabíamos que o apoio precipitado a Alegre significava um golpe fatal nessa candidatura, só justificável por tacticismo partidário.

Mas o Bloco tomou as decisões que entendeu democraticamente, ressalvando alguns episódios menos recomendáveis, e saberão os seus militantes e dirigentes onde os levará este caminho, que considero tortuoso. Como cidadão, tomo eu a decisão de interromper esta jornada comum, enquanto militante. Sem dramas, continuarei a minha participação política, com toda a certeza reencontrando muitas vezes os camaradas e amigos que estes anos trouxeram.

Sair do Bloco não me transforma num anti-bloquista, como nunca fui, nem serei, adversário de qualquer movimento que lute pela transformação social. Assumindo todos os defeitos e erros cometidos, inevitáveis na praxis política, o sectarismo é uma maleita de que nunca padeci e, ao contrário, sempre procurei ultrapassar, dando o primeiro passo na procura de convergências, nos diversos níveis em que a minha voz contou.

Julgo serem estas palavras suficientes e, não pretendendo entrar nas comuns catarses acusatórias, veremos então onde nos levam os passos seguintes.

Até breve.

João Delgado.

Via Vermelhos

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , . Bookmark the permalink.

27 respostas a João Delgado, cabeça de lista da Moção C e uma das vozes mais críticas da oposição interna, sai do Bloco de Esquerda.

  1. Antónimo "Augusto" diz:

    E quantos militantes do PCP sairam por causa do apoio ao Francisco Lopes?

  2. Antónimo "Rui F." diz:

    E o PCP que é uma força que perde eleitores eleição após eleição, que perdeu a câmara do Cartaxo e que há-de desaparecer do mapa já nas próximas eleições deputais?

    • Marco diz:

      Cartaxo ?

      • antónimo diz:

        sim pá. Como o nosso Augusto, o Rui F. é outro vírus que sempre que há por aqui qualquer post desata a disparar – contra os dados da CNE dos últimos anos – que o PCP tem perdido eleitores, eleição após eleição.

        Regra geral ele remonta aos idos da constituinte para estabelecer as perdas e o decréscimo do PCP. E depois ajunta sempre umas câmarazinhas perdidas. E eu tenho a noção que o Cartaxo já foi PCP para aí na década de 1970. Era uma ajuda, para ver se eles não se instalavam vendo o bicho já por cá. Mas fui mal sucedido.

  3. Pingback: Tweets that mention João Delgado, cabeça de lista da Moção C e uma das vozes mais críticas da oposição interna, sai do Bloco de Esquerda. | cinco dias -- Topsy.com

  4. Quantas vezes em desacordo, mas, o BE existe pela pluralidade de pontos de vista anti/capitalistas (socialistas). Uma demissão, uma perda.

  5. Portela Menos 1 diz:

    A oeste nada de novo e na Soeiro Pereira Gomes reina a calma.

  6. Bolota diz:

    Se calhar chegou a hora da debandada geral…

  7. gualter diz:

    Só contaram pra vocês os votos de um hipotético candidato do BE que obrigaria a uma segunda volta e expantem-se a uma união da esquerda……….

  8. xatoo diz:

    “em bom momento rompeu com paradigmas” rompeu com quê?
    que “paradigmas”? arre porra que esta malta nunca mais aprende a utilizar o termo no sentido cientifico de mudança estrutural que Thomas Kuhn lhe deu
    que raio de porcaria veio o BE a maila a sua almejada aliança com o P”S” introduzir?

    • Rompeu com paradigmas de uma esquerda que tinha esquecido a possibilidade de uma direcção colegial, de unir o que é diferente, do direito de tendência, do admitir o erro para seguir em frente. O Bloco de Esquerda fez tudo isso e alterou o modus operandi da política portuguesa, contagiando os restantes partidos. Mas rendeu-se depressa à comodidade da política de alcatifa, o que não implica que esqueçamos o passado, que diabo, foi há pouco mais de uma década.

    • Renato Teixeira diz:

      Xatoo, esclareça-me se estou enganado, não apoiou a candidatura do Alegre? Não fez a mesma aliança da qual acusa o BE? Que lições tira disso se está visto que não sobra nenhum “S” ao PS?

  9. Augusto diz:

    Ao contrário do que disse há tempos Jeronimo de Sousa, sobre aqueles que abandonam o PCP, de serem folhas mortas….

    Para mim, cada vez que alguem abandona a miliância no Bloco de Esquerda, é sempre motivo de alguma tristeza.

    Mas tal como a adesão a um projecto politico, é livre , a desistência tambem o é.

    E como diz o João Delgado, não abandona a luta, e por isso, havemos certamente de muitas vezes nos encontrar por aí.

    Talvez nalguma manifestação anti-Nato, na parte não controlada pelos serviços de ordem ditos de esquerda, com o apoio da policia de choque….

  10. LAM diz:

    Misturam-se aqui dois aspectos que (sem entrar em pormenores se um decorre do outro), me parecem merecer abordagens diferentes. Uma coisa será a a política seguida por conveniências estritamente parlamentares, a tal “política da alcatifa”, que terá implicado um desligamento das massas do partido (isto para quem, como eu, vê de fora). Outra terá sido a escolha do candidato presidencial. E aí, se a personagem Manuel Alegre foi muito mal escolhido por todas as razões já muito debatidas e, quanto mais não seja, pela sua muito próxima ligação e suporte ao partido que mais à direita tem governado; por outro lado continuo a achar que o caminho da maior união possível à esquerda tem de ser por aí… ou nunca será. Da estratégia da esquerda em banho-maria, como a apresentada pelo PCP nestas eleições, os anos provaram que não sai nada.

    • Leo diz:

      “Da estratégia da esquerda em banho-maria, como a apresentada pelo PCP nestas eleições, os anos provaram que não sai nada.” ????

      Que me lembre, a “estratégia” em eleições presidenciais apresentada pelo BE, em duas das vezes foi igual à do PCP, apresentando candidaturas próprias. Só agora alterou a estratégia, colando-se à candidatura do governo PS. Desta alteração o que saiu? A derrota da candidatura.

      • LAM diz:

        Sim é verdade, mas ainda bem que foi abandonada. Fazer das presidenciais uns jogos florais sem quaisquer perspectivas de acrescentar alguma coisa à “clientela” habitual, como foram as anteriores candidaturas de figuras do partido, não levou a lado nenhum. (claro que haverá também aqui a considerar a oportunidade e os momentos políticos que são diferentes, isto porque não sei, ou ponho as minhas dúvidas, de que o BE há 5 anos atrás estivesse em condições de patrocinar uma candidatura mais alargada).
        O mal agora (não há meio destas merdas baterem certo!), foi a personagem escolhida, mas continuo a achar que o caminho tem de ser por aí.

        (isso de “colando-se à candidatura do governo PS” é uma bocarra atirada para o ar sem qualquer sentido senão a da mera provocação. Por aí não vamos lá. Se houve inevitabilidade no apoio à candidatura do Alegre foi exactamente do PS e não ao contrário)

        • Leo diz:

          “Fazer das presidenciais uns jogos florais sem quaisquer perspectivas de acrescentar alguma coisa à “clientela” habitual” ????

          Está esquecido que há precisamente 15 anos os tais “jogos florais” de que fala levaram à eleição de Jorge Sampaio com 54% e à derrota de Cavaco com 46%?

          • Insisto em que a questão não é a de o Bloco ter apoiado Alegre, mas o modo desse apoio. Tudo seria diferente se o Bloco tivesse manifestado um apoio crítico a Alegre, sublinhando essas criticas, ou mesmo, preferencialmente, apresentando um candidato à primeira volta. Ma a opção do BE foi a de subir aos palcos com os ministros de Sócrates, e isso é a decisão para mim insuportável. Outros suportam-na, terão as suas razões, cá estarei para observar.
            Penso que é sabido ter eu defendido publicamente uma candidatura anti-capitalista apoiada pelo BE, PCP e movimentos sociais. Mas para essa via “ninguém” se mostrou pronto sequer para a discussão.

  11. Teixo diz:

    Esta demissãovem provar que, na actual situação política, não é fácil resistir ao desgaste.
    O desincentivo à intervenção política, de que falava J.M. Pureza no “Socialismo 2010”, vai dando os seus frutos.
    Pode, o J. Delgado, invocar os motivos que quiser e nalguns até terá razão mas, se alguem quer pegar o touro pelos cornos, não o conseguirá virando-lhe as costas.
    O Bloco de Eaquerda, único na pluralidade e liberdade de opinião, não diz “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. É um movimento/partido constituido por mulheres e homens “normais” e, portanto, sujeitos a meter o pé na pôça.
    Erros cometem-se e corrigem-se. Maior é o erro, maior será a corrigenda e quanto mais tempo levar a corrigir, maior será o preço a pagar, mas não se corrige abandonando o barco.
    Como já disse noutro local: Bons caminhos encontres, porque a luta continua e, mais do que nunca, é preciso juntar forças.

    • Renato Teixeira diz:

      A direcção do BE não assume erro nenhum. Leia o que escrevem e adivinhe para onde vão continuar a “juntar forças”.

  12. xatoo diz:

    logo à partida Alegre foi diminuido pelo apoio prematuro do BE, mas mais que isso, a candidatura de Alegre foi destruida pelo abraço de urso que lhe deu o P”S” depois da prolongada “reflexão”, com os Soaristas a manobrarem na sombra a favor da ultima fraude possivel para salvarem o capitalismo “em liberdade”: a “democracia participativa”
    O que é certo é que, na m/ interpretação, fazendo as contas aos cacos, BE e P”S” somados os dois scores eleitorais habituais obtêm 19% – mais ou menos o que a esquerda seria suposto obter (se estivesse coligada) BE+PCP… ora, subtraindo os 7% do PCP restam 12%
    que é o residuo dos votos BE+PS+factor Alegre
    Conclusão: Manuel Alegre não tem culpa no fiasco – se tivesse rasgado o cartão acontecer-lhe-ia o mesmo que ao Oscar LaFontaine do Die Link: convertia-se num residuo eleitoral.
    Feitas as contas, que já vão largas e tortuosas, tanto eu como o Renato e muitos mais, sabemos que estas coisas, a resolver-se, não se resolvem apenas com votos

  13. Para encerrar esta pequena troca de impressões, permitam-me a pretensão de citar o Zé Mário Branco quando disse que não sai dos partidos, são os partidos que saem dele. Não creio que a minha tomada de posição seja contrária ao que subscrevi quando aderi ao Bloco, antes pelo contrário, é um reafirmar dessa ideia de correr por fora para construir uma esquerda alternativa, e que saiba não poder ter o PS como parceiro, mesmo que conjuntural, das batalhas políticas fundamentais.
    O Bloco falhou, e trata-se de uma falha que se acumula a outras, traçando uma estrutura evolucional que não levará ao sítio designado com a fundação do partido. Mas como eu não fundei o partido, – e quem o fundou se auto proclama como depositário do santo graal que conduzirá à tal esquerda grande – , então passei para outro terreno, que é o do activista de esquerda sem militância partidária, livre para pressionar quem tem essa missão, ingrata, mas necessariamente séria nos propósitos, objectivos e reflexões. Não se sai de um partido por dor de dentes. Mas saio considerando camaradas todos aqueles que no BE, no PCP, dentro ou fora de qualquer outro local se sintam herdeiros de uma tradição multissecular contra a dominação do capital sobre o trabalho. Admitindo sempre que o erro de análise possa estar do meu lado, obviamente.

Os comentários estão fechados.