A divisão do eleitorado do PS

Segundo análise do Jornal Sol sobre onde votaram os habituais eleitores no PS, 80% do votantes do PS não votaram Alegre. A maior parte votou ou Cavaco ou Nobre. O autor do artigo, José António Lima, conclui que:

Manuel Alegre era o candidato oficial do PS, mas a contragosto de muitos socialistas, que não lhe perdoam a colagem dos últimos anos à esquerda radical e às teses do Bloco de Esquerda, a rebeldia antipartido do seu avanço contra Mário Soares em 2006 ou as críticas recorrentes à governação de Sócrates. (…) Fernando Nobre era o candidato alternativo de recurso, capaz de congregar muitos socialistas descontentes com a escolha de Alegre e de representar, nestas presidenciais, um papel semelhante ao do movimento cívico de Alegre nas eleições de 2006.

Se JAL está correcto, não é apenas a liderança do PS que está vendida à política de direita, como a sua base eleitoral.

É correcta a análise de JAL que Alegre não era um “efectivo” candidato do PS. Mas descrever o seu posicionamento como “colagem à esquerda radical” é uma visão muito preconceituosa e redutora. Primeiro porque Alegre nunca assumiu posições claramente anti-capitalistas, quando muito fez críticas reformistas, de um capitalismo reformável, de um capitalismo mais fiscalizado, mais regulado, com maior ênfase social-democrata. Nem o actual BE pode ser caracterizado como “esquerda radical”. O próprio apoio do BE a Alegre prova o contrário. O BE é um aglomerado de personalidades viradas para a intervenção institucional. A derrota de Alegre prova que a sua candidatura e suas tentativa de criação de uma “frente de esquerda” não convence o eleitorado efectivamente de esquerda. Tal frente nunca será possível se promovida por forças reformistas que há partida excluem a força de esquerda mais enraizada em Portugal, o PCP e movimento sindical de classe.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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14 respostas a A divisão do eleitorado do PS

  1. Renato Teixeira diz:

    Claro como água, mas não pelo PCP, (apesar de não ter bebido, desta feita, a pesada derrota do Altis) não estar demasiado centrado na luta institucional ou por ter abdicado da esmagadora maioria do programa da social democracia. Mais, por não ter perdido a esperança no PS ou por não achar, no limite, que estamos menos mal com o PS do que com o PSD. Se assim não fosse porque é que não garantiram que não apoiavam Alegre em qualquer dos cenários, ou porque é que não exigem a demissão do governo Sócrates?

    • Renato Teixeira diz:

      Sem falar de uma nova greve geral, que com a Europa a arder, com o Magrebe em chamas e com Portugal no pior governo desde o cavaquismo, é mais que justificável. Ou a candidatura do Francisco Lopes não “reforçou a luta” para querermos dar mais passos em frente?

    • Ho Chi Mihn diz:

      Se a palavra de ordem “governo rua” é perfeitamente justificável pela actuação do mesmo, não deixa de colocar em cima da mesa o seguinte:

      NESTE MOMENTO, fazer cair o governo maioritário PS, provavelmente, apenas iria contribuir para a constituição dum governo de maioria absoluta PSD/CDS. E tal governo, longe de ser um passo em frente, objectivamente, colocaria a classe trabalhadora numa pior posição …

  2. Dédé diz:

    Há uma sondagem da Aximage que diz que em relação às Legislativas de 2009 o eleitorado do PS se dividiu assim:
    Abstenção: 49%, Cavaco 20%, Alegre 21%, Nobre 7%, etc. aqui:
    http://docsdapolvora.blogspot.com/2011/01/presidenciais-2011-transferencia-de.html

  3. Augusto diz:

    Como explicar então, o resultado francamente mediocre de Francisco Lopes, 300.000 votos.

  4. AA diz:

    Seria interessante saber em quem votaram os eleitores habituais do BE. Eu que o sou, votei Francisco Lopes. Não pela convicção do discurso em qualquer valor patriótico, mas por enquadrá-lo no voto “útil”.

    Contudo, compreendo a lógica de ruptura que esteve por detrás do apoio (antes do apoio do PS, note-se) a Alegre, que poderia dar origem a uma cisão, mesmo que pequena, dentro do PS. Compreendo e até certo ponto apoio, mas depois do apoio do PS, penso que o BE teria feito uma jogada de mestre ao demarcar-se de Alegre por essa razão, apelando ao voto no tovarich Lopes, ou em última instância, no voto nulo ou branco.

  5. Só tenho uma objeçãozinha (mas é uma das de fundo…) a esse encadeado de frases, e é a seguinte:
    Desde quando é que os «eleitores» passaram a pertencer aki ou ali ?
    E como é, não lhes é permitido no escurinho, clarinho e segredinho da cabina mudar de ensejo/opinião ??

    Essas ‘opiniões’ equivalem-se a astrologia, são suposições, valem… o que valem, perto, muito perto de nada.

    • Nisso JCA dou-lhe toda a razão. Os «eleitores» não pertencem a nenhum partido. Eu limitei-me a transmitir a linguagem do jornal (que depois até condicionei, com “habituais eleitores”), mas faz muito bem em chamar a atenção. O eleitor, o cidadão com direito a voto, é livre de votar onde quiser, deixar o boletim em branco, anulá-lo, ou não ir votar (isto em PT). Embora a linguagem possa dar ideia que há votos que pertencem a determinados partidos, outros que são móveis, e assim transmita uma ideia incorrecta sobre a natureza do voto livre; não deixa de ser interessante fazer análise de resultados e tentar entender, por exemplo, que classes sociais, etárias votam neste ou naquele partido; se nas anteriores votou neste partido porque desta vez votou noutro; porque este eleitor vota sempre no mesmo partido; porque este eleitor nunca vota.

  6. lingrinhas diz:

    Venha de la a terra queimada” perdão a revolução”que o renato é o primeiro……………a fugir.

  7. Dédé diz:

    AA
    No link que indiquei acima está quadro com os resultados da Aximagem com números das transferências de votos por partido. Claro que não será coisa para levar à letra mas dá uma ideia.

    Augusto
    Como explicar? Parece que a culpa é do “povo que temos”. Ver por exemplo:

    ISTO DAS ELEIÇÕES É COMO FAZER AMOR
    http://aessenciadapolvora.blogspot.com/2011/01/isto-das-eleicoes-e-como-fazer-amor.html

    PARECE QUE O POVO…
    http://aessenciadapolvora.blogspot.com/2011/01/parece-que-o-povo-nao-se-empolgou-com-o.html

  8. rui david diz:

    Quanto ao PS que não hajam dúvidas:
    – o seu eleitorado estilhaçou-se por diversas candidaturas;
    – consequência da incompetência e indigência política da sua direcção relativamente às presidenciais, com consequências que ainda estarão por avaliar;
    – consequência da situação politica penalizadora do partido no governo;
    – Para além disso é inegável que o eleitorado do PS não é “anti-capitalista”.

    Mas lê-se o post e fica-se a pensar em quem é, afinal, o eleitorado “efectivamente à esquerda”, uma vez que Alegre nunca tomou posições claramente anti-capitalistas e o Bloco não é elegível… ( e na realidade, o Bloco é hoje um partido social democrata, apenas mais “honesto” do que o PS demasiado comprometido com a venalidade do regime).
    Segundo os resultados eleitorais, resta um, o do Francisco Lopes, 7,2% dos votos, 3,5% da população, para fazer a “frente” ( não ser que FL seja já “a frente”…) d’a “Intifada”….
    UM eleitorado, o da “frente” incluindo o PC, que se tem “reforçado” ao longo das décadas e chega aos 7,2% numas eleições que decorreram em acentuada “agudização” da crise do capitalismo (abstraindo do facto de para o PC é impensável falar de “capitalismo” sem falar de “crise aguda”…).
    E é o comentador que fala da votação no Lopes que é o “demente”?

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