Onde andam as feministas quando mais precisamos delas?

Há dias um leitor alertou para esta reveladora publicidade. O movimento feminista burn the bra, entretido em discutir véus e em ostracizar as mulheres muçulmanas, entretido em levar o patriarca Alegre à presidência, entretido na defesa da paridade e na subida das mulheres na hierarquia das empresas, entretida com a inserção de @ na escrita e na linguagem, tem-lhe faltado alguma atenção aos problemas que se passam mesmo debaixo do seu nariz.

Enquanto as “obscuras” mulheres árabes e magrebinas estão na vanguarda da luta contra o despotismo, as “livres” mulheres ocidentais continuam, na maior parte dos casos, presas à maternidade, à cozinha, ao salão de beleza, ou na melhor das hipóteses, à carreira.

Sempre com a boca cheia de verve para atirar ao primeiro machista que lhe aparece na esquina sem dizer todos e todas e eles e elas, melhor seria que o movimento se preocupasse em acabar primeiro com o sexismo de género que mantém as mulheres ocidentais presas ao grilhões da sua própria condição.

Para ser livre não basta ter os cabelos ao vento e os mamilos despontados com orgulho e sem espartilhos. É preciso, antes de tudo mais, arejar as ideias que, como é bom de ver, andam demasiado distraídas em festas.

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55 respostas a Onde andam as feministas quando mais precisamos delas?

  1. l'outre diz:

    Não acredito que esteja a reduzir a questão feminista a um mero véu. Esperava mais de si…

    • Renato Teixeira diz:

      l’outre, já percebi que quando vê uma posta minha saliva primeiro e lê depois. É precisamente essa a crítica do texto. Há mais vida para além do véu e problemas bem maiores que o assunto que tem monopolizado o debate feminista.

  2. Leitor Costumeiro diz:

    Nem mais Renato…

    Ia eu a dizer que, antes do véu(literal) há outros véus(grilhões ficam mal às senhoras eheheh), a serem levantados e esses bem mais básicos…
    Aliás, vê-se pelo discurso do Cavaco, demonstrando o seu ideal de mulher…
    Não podemos sair por aí, a querer libertar os povos todos, se em casa isto tá neste estado…

  3. a anarca diz:

    As feministas estão velhas:)
    gastaram-se ao não utilizar a melhor arma : o charme de se saber mulher 🙂
    com véu ou sem véu o importante é o que lá está dentro da cabeça 🙂
    a mim choca-me mais uma barriga de fora num escritório 🙂
    que a solenidade de um lenço 🙂

  4. a anarca diz:

    sou uma machista convicta
    sorry
    as minhas ideias são chocantes …
    não tenho pachorra para falsas feministas 🙂

  5. Ho Chi Mihn diz:

    Muito bom Renato!

  6. Ora aqui está um assunto sobre o qual temo escrever. Entretanto subscrevo o teu post, embora o ache um pouco moderado…

    • Renato Teixeira diz:

      Dá-lhe então para continuarmos a descer à raiz da “coisa” feminista.

      • A raiz deve estar na arroba. O verbo antecede a coisa, o que é um conceito inovador. Pior: mudando o verbo a coisa passava a ser coiso e coisa.
        Paro aqui. Mas já concordaria se todas as intervenções começassem por “Caras conas, caros caralhos”.
        A estória do véu é magnifica: entre uma mulher com véu na rua mas uma sexualidade em busca do prazer, como é tradição muçulmana, e uma mulher sem véu na cara mas com véu na cama, qual a mais “liberta”?

        • Renato Teixeira diz:

          É mais livre a mulher que se liberta. Acho que isso responde à tua pergunta. 😉

        • adilia diz:

          Essa dicotomia que v. estabelece a proposito do véu na cara e do véu na cama é tão absurda que só comento por isso mesmo.
          Quer dizer então v. agora defende, com forte evidência empírica: «como é tradição muçulmana», que as mulheres desta cultura são sexualmente liberadas?!!
          Há muito tempo que não ouvia um contrasenso dito com tanta convicção.
          De resto, também gostava de saber o que é que você entende de sexualidade feminina para falar com tanta pompa e circunstância.

          • Renato Teixeira diz:

            Adilia, sem ter trocado ideias com o João José sobre o assunto, acho que ele falava em contraste com. Do ponto de vista societário, eles e elas por as bandas da Persia, de África, do Sudeste Asiático e das Américas, são todos e todas mais livres que agente aqui ao pé do Vaticano.

            Faz sentido @ paralelo. Não o tome como um ataque de género.

          • Ao contrário do cristianismo puritano, e para quem o acto sexual apenas visa a reprodução da espécie, o islamismo nunca negou os prazeres da carne, para usar uma expressão de talho. O “Jardim Perfumado” nunca poderia existir na literatura medieval europeia, mas foi escrito numa cultura islâmica, e basta lê-lo para entender que o prazer da mulher não foi descurado por aqueles lado.
            Os véus servem outros objectivos, abjectos, por paranóia do adultério, e nascem com um fundamentalismo que se não erro surgiu pelos sécs. XV, XVI.
            Quanto ao que eu percebo de sexualidade feminina? nada. Sei umas coisas de sexualidade, mas não gosto da exclusão de géneros. Não tenho é por hábito questionar a ignorância dos outros em matérias nas quais sou ignorante.

          • E já agora alguma informação útil, para quem não queira tapar os seus olhos com a burqa do preconceito:
            “A sexualidade é abordada pelo Islão como algo de natural, como uma dádiva de Deus que une homem e mulher e que não tem como fim único a procriação, mas antes assume um papel central na vida conjugal.
            Os gozos do corpo são uma espécie de fonte de prova da existência do poder divino de Allah.
            Quando os muçulmanos se casam, têm a responsabilidade de se satisfazerem sexualmente um ao outro, e tendo o homem a responsabilidade de prolongar o acto até proporcionar o orgasmo à mulher.
            Os métodos contraceptivos são aceites de forma natural.”
            retirado daqui:
            http://www.aventar.eu/2010/04/02/hijab-niqab-e-burqa-sexualidade-no-islao-e-no-cristianismo/

  7. Ho Chi Mihn diz:

    Convém, quiça, acrescentar que lá em casa sou eu que cozinho. E aqui entre nós, sinto que isto dá-me uma certa superioridade moral para gozar com o feminismo mais empedernido.

    Para quem gostar, fica a sugestão:

    Cortar as batatas “aos gomos” como se fossem maçãs e sem tirar a casca! Untar um tabuleiro com azeite, temperar as batatas com sal, pimenta e tomilho, “regando” com polpa de tomate. Levar ao forno e servir quente.

    • Renato Teixeira diz:

      E vão dois. Fora de casa os melhores cozinheiros são quase sempre homens, mas é bom dizer que na maior parte das casas enquanto eles tratam do petisco na glória das festas, são elas que estão presas aos tachos no pouco gabado dia-a-dia.

      • Ho Chi Mihn diz:

        Pois… normalmente o machista gaba-se de fazer aquele petisco “que mais ninguém consegue fazer”… tipo… sei lá: o “caril de gambas” – e mesmo isto é capaz de ser demasiado sofisticado.

        não dou pra esses clássicos.

  8. António Lopes diz:

    Hum, vai haver sangue.
    Tem 2 tópicos então….
    Acha mesmo que as “livres” (assim mesmo entre aspas) mulheres ocidentais continuam, na maior parte dos casos, presas à maternidade, à cozinha, ao salão de beleza, ou na melhor das hipóteses, à carreira?
    E os mamilos despontados ao vento será talvez mais no verão, ou em todas as estações?

    A propósito, já ouviu falar na problemática das generalizações?

  9. Von diz:

    Continuo sem conseguir assimilar uma coisa: às mulheres magrebinas deve-se respeitar as suas convicções religiosas e os seus símbolos. As outras, não. As católicas, não. As libertárias, não. E o meu foda-se, também me é permitido?

    • Renato Teixeira diz:

      Foda-se prá-y que esse direito ninguém lhe tira nesta tasca. Fogueiras é que não, Von. Nem caça às bruxas.

  10. Justiniano diz:

    Caro Renato,
    O que significa esta abominação “…ou na melhor das hipóteses, à carreira.” O que, verdadeiramente, é isto!!??Porquê!!??
    Já agora, não seria, o post, melhor ilustrado com os tais mamilos despontados, sem espartilho, como referencial da tal condição feminina!!?? Para que servem então esses despontados!!?? Para que carreira!!??
    Depois há o enorme pormenor da cozinha, lugar sagrado!!

    • Renato Teixeira diz:

      Na melhor das hipóteses a carreira porque no marco da sociedade que temos me parece uma ambição mais complexa do que os tachos, a maternidade ou o rímel.

      • Justiniano diz:

        Nada disso, Renato!! Não há nada, fora do vazio antropológico, mais complexo que a maternidade ou a química doméstica (isto para não falar da social democracia, da equipa do Sporting e das despontadas espartilhadas)!! E o rímel é, sem dúvida, instrumento de um ritual de sublimação (e não há nada tão sublime como a profunda e genuína superficialidade feminina)!! A carreira, tirando a grandiosa que vai de Carregal a Tábua ou a do Vouga ou a do Soajo, é apenas mais um conceito mercantilista que visa descontextualizar a relação laboral!!
        É um conceito que não gosto, uma coisa vazia ou ôca, nem sei bem, mas valha-lhe a utilidade, como disse, da salvaguarda mercantilista que até o Renato pacificamente apreendeu!!
        Um bem haja para si e para o boa fé que vi por aqui!! (sempre muito interessante e pertinente, o boa fé)

  11. susana diz:

    renato, fica-lhe mal: fora de casa os homens não são melhores cozinheiros. são, como em todos os empregos, quem tem mais oportunidades e visibilidade. onde há uma esfera de poder temos homem. tal como na história da ciência e da genialidade temos parelhas de homens e mulheres, casados ou irmãos, em que elas eram ‘meras assistentes’. certamente preferiam essa condição, ou deixariam de actuar: a sombra continua a ser o ‘espaço natural’ de actuação das mulheres. mas nas enfermarias das maternidades públicas já se ouvem histórias de ‘quando chego a casa ele já tem tudo pronto.’ tudo muda, mas devagarinho.

  12. Ho Chi Mihn diz:

    Oh Von! Esse teu nick é uma beca pro facho, não achas?

  13. Ho Chi Mihn diz:

    Von… de Von Paulus? Estalinegrado está ao viar duma esquina…

  14. Marota diz:

    De manhã, antes de ir para o trabalho, uso e abuso de todos os truques e triques para que ainda fique mais mordaz do que aquilo que já sou. Eu não quero ser como um homem, quero ser mulher, atraente para que eles gostem de mim. Vivo num país que, em relação aos demais, usou e abusou do femininismo. As mulheres aqui são hoje fortes e os homens andam muito assustados. Tão assustados que à noite, no conforto da clareira, não sabem o que fazer com a parceira. As grandes vencedoras desta batalha, preferem hoje, depois de muitos anos de luta, passar férias em regiões onde o sol aquece a cubata e a Chiquitita dilata, do que ficarem em casa com os maridos espantados a discutirem os direitos de uns e abusos de outros, tornou-se tudo muito insípido. Eu não luto pelos meus direitos, porque aquilo que é meu, é meu. E aquele que pense que me os pode tirar, que tente porque eu mostro-lhe logo o dente…

    • Renato Teixeira diz:

      E faz muito bem. À noite, com ou sem clareira e à falta de eles saberem o que fazer, faz falta serem elas a escolher alguma coisa.

    • catarina diz:

      Claro como a água. paternalismos é que não.

    • Marota diz:

      É lógico que o mordaz lá de cima é um exagero, serviu só para arredondar o meu texto. Sou zarolha, na ponta do nariz uma grande bolha, a perna direita é mais curta e a outra mais estreita. Assim e por concequencias de efeitos, coxeio o dia inteiro.

  15. Ho Chi Mihn diz:

    Von Facho é muita bom. Espero que passes a assinar assim.

  16. Pedro Costa diz:

    Olá Renato

    A questão é que as mulheres ocidentais podem dar-se ao luxo de lutar pela “superficialidade” porque o essencial, a sua liberdade e reconhecimentos está praticamente conquistada.
    As mulheres muçulmanas, pelo contrário, estão a ainda a lutar pelo essencial. Têm que ser corajosas. Muito corajosas mesmo.

    • Renato Teixeira diz:

      A questão não é lutar pela superficialidade. Acho muito bem que a existir seja de todos. A questão é esquecer a luta pelo essencial que está longe das preocupações que tem pautado o discurso feminista principalmente desde a conquista da despenalização do aborto.

      Quanto à coragem das muçulmanas é bem verdade, e encontra tão pouca solidariedade na esquerda ocidental, em especial na do género feminino. Veja-se o link da posta.

  17. o da boa-fé diz:

    Vi 4 gajas no meio dos 328 espectadores do vibrante Bri-o-sa/Vitórrrrrria (2 foram apalpadas ao intervalo). Mas não tinham nem os cabelos ao vento (fazia um frio de rachar) nem os mamilos despontados com orgulho e sem espartilhos (sempre que vou a qualquer lado elas tapam-nos: será coincidência? Serei feio? Terei mau hálito? Já me disseram que sim…).

    Entretanto, as gajas deste rectângulo à beira mar perdido, e dos outros rectângulos, sentem-se libertas da “dominação masculina” (Bourdieu). Ah, ah, ah, ah, ah, ah!!!! Livres são as minhas gatas…

    • Renato Teixeira diz:

      Viu bem porque o forte de Coimbra nunca foram as gajas. Agora fosse o jogo em Setúbal estaria prá-y a babar. Espere pela final do Jamor e vai ver como as benfiquistas ficam o máximo com a lágrima no canto do olho. 🙂

      • Renato Teixeira diz:

        Quanto às gatas, venha ver o que sofrem as do subúrbio alfacinha e vai ver o que é penar. Elas e eu com o seu fado nocturno.
        BRIOSA!!!

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