A “esquerda” ignorante e arrogante que emprenha pelos ouvidos

Nos comentários a este post, sobre um relatório apresentado ao parlamento zimbabuéano acerca dos peculiares cadernos eleitorais do país, um Herr Alberto Carvalho clamava «shame on you, Mr. Granjo», porque «Essa campanha contra Robert Mugabe, só porque decidiu fazer a reforma agrária no Zimbabwe é uma campanha antiga e até pró-americana» (por acaso, o Mugabe diz é que é pró-britânica e colonialista, mas adiante), devendo eu ter vergonha de escrever sobre o assunto num «blog dito de esquerda».

Ora eu – que já por aqui li várias coisas que me envergonharam mas continuo a vir beber um copo à tasca por considerar que esta nossa diversidade, num sítio onde cada um(a) só é responsável pelo que ele(a) próprio(a) escreve, tem piada e potencial – não acho grande graça a arrogantes puxões de orelhas de quem não sabe do que fala mas quer comissariar o que é falar “à esquerda”.

Pelo que transcrevo aqui a minha resposta.

«Herr Carrvalho:

Embora não devesse, estou-me basicamente nas tintas para os ex-”farmeiros” de origem britânica. Não para o “cidadão comum” zimbabuéano.

A ocupação de terras não é a origem do forte movimento de oposição a Mugabe, nem da calamitosa situação económica (embora a tenha ajudado a agravar, já que na quase totalidade dos casos as terras não ficaram para os ocupantes cultivarem, mas rapidamente passaram para o nome de familiares de Mugabe e da oligarquia de generais e coroneis, ficando os ocupantes – ex-militares – como guardas).
Foi uma tentativa de mobilização das próprias hostes e de justificação da repressão contra o já bem forte descontentamento e protesto da população pobre, face a décadas de repressão e a uma situação de desemprego e inflação galopantes.

O que me interessa não é essa poeira para os olhos.

O que me interessa são os assassinatos, mutilações, torturas e agressões sitemática e organizadamente perpretadas por milícias para-militares, forças militares e policiais nos meses anteriores às eleições, a par da expulsão massiva de populações rurais, pela violência e intimidação, das regiões de maior votação na oposição.
Interessam-me a violência e repetida prisão do líder da oposição durante a campanha eleitoral.

Interessa-me que, apesar disso, do total controle do processo eleitoral e mesmo com os mortos a votarem, o partido de Mugabe tenha perdido as eleições parlamentares e ele (pressionado pela oligarquia militar) tenha forçado uma 2ª volta das presidenciais, com imediato recrudescimento da violência sobre as populações que não votaram nele e com ameaças de morte ao vencedor da 1ª volta, que obrigaram à sua desistência e asilo na África do Sul.

Interessa-me o êxodo de mais de 1 milhão de zimbabuéanos para a África do Sul e Moçambique, quer devido ao clima de violência quer, mais prosaicamente, para poderem subsistir.

Interessa-me a envergonhada pseuso-neutralidade dos países vizinhos («Um presidente da independência não pode ser assim demitido, só porque perde eleições, tem que haver uma partilha do poder», ouvi explicarem-me), só quebrada pela clara condenação da central sindical  COSATU, pelo Zuma quando precisava do apoio da esquerda para apear o Mbeki, pelo Desmond Tutu e, mais cuidadosamente (para não pôr abertamente em causa o então presidente), pelo Mandela.
Tudo gente, suponho, muito à direita do Herr Carrvalho e todos eles fantoches dos Estados Unidos.

Pelo que lhe sugiro:

Se quer ser ignorante e continuar a sê-lo, emprenhando chavões pelos ouvidos, está no seu direito.
Se curte tiranos sanguinários sobre o seu próprio povo (ou a tal dissolução do povo e eleição de outro novo, que o Nuno citava do Brecht), quem sou eu para o mandar calar…
Mas não venha para aqui puxar as orelhas ou dar lições “de esquerda”, de cima da sua ignorância ou má-fé.»

E tenho dito.

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22 respostas a A “esquerda” ignorante e arrogante que emprenha pelos ouvidos

  1. Leo diz:

    Coitado, este new kid (não tão new quanto isso) nem sequer ainda percebeu que o tempo das indignações selectivas e dos apelos às intervenções “humanitárias” já foi e não volta. E que até o Koutchner já foi dispensado. Deixe mas é em paz a África em geral e o Zimbabwe em particular. E actualize-se, homem. Já tem idade para ter juízo e deixar-se de histerismos.

    • paulogranjo diz:

      Actualize-se você, psodonomístico/a homem ou mulher, que ainda imagina os velhinhos dos ex-movimentos de libertação praticantes de políticas emancipatórias e de esquerda (ou então, como uma vez lhe perguntei e nunca aceitou esclarecer, membro do secreta moçambicana ou pessoa com interesses económicos pouco claros por essas bandas).

      Foi a UEA (e não sem “A”) quem considerou as eleições zimbabuéanas uma farsa.
      Foi a COSATU quem apelou à solidariedade dos trabalhadores de todo o mundo contra Mugabe e em defesa dos trabalhadores e do povo zimbabuéano, e quem impediu a atracagem na África do Sul de um navio chinês com armamento para o regime do Zimbabue, durante a repressão eleitoral.
      Foi o Jacob Zuma quem disse que o governo sul-africano não podia continuar a sustentar diplomática e mlitarmente um regime ilegítimo e repressivo.
      Foi o Desmond Tutu quem disse que Mugabe devia ser apeado após o que fez em 2008 e julgado no tribunal de Haia.
      Foi o Mandela que disse, por comunicado da sua fundação, que Mugabe não tinha legitimidade para governar, e apelou ao fim da violência sobre a população.
      Foi um governante moçambicano que me disse que «o Mugabe é um canalha louco, mas não o podemos deixar cair agora, se não pode acontecer-nos o mesmo qualquer dia».

      E, já que o assunto está justamente na moda, só os magrebinos é que têm direito de estar fartos de serem lixados até ao tutano pelos seus presidentes vitalícios e respectivas oligarquias?
      Os africanos deixam do ter esse direito se a sua pele for mais escura? A indignação e a revolta não são “coisa para pretos”?

      Vá-se armar em defensor da soberania africana para a sua rua, seu fascistoide armado em progressista!

    • António Figueira diz:

      Leia isto http://www.sacp.org.za/main.php?include=pubs/umsebenzi/2007/vol6-05.html e não venha dar lições ao partido do Joe Slovo.

      • Leo diz:

        Este texto de 2007 – antes portanto das últimas eleições no Zimbabwe – acaba desta forma que devia levar o kid malcriado a reflectir:

        “Unfortunately in such instances, such as the case of Zimbabwe, the opposition that emerges becomes largely reactive and unable to provide a more superior alternative vision in such conditions. That alternative and superior vision can, in our circumstances, only be that of the completion of the national liberation struggle and its vision; that national liberation without full social and economic emancipation shall always remain incomplete and liable to serious reversals. One without the other is a foundation for future regressions. This is the only full meaning of human rights, and it is for this reason that during this South Africa human rights month we are escalating our campaigns to highlight that there can be no human rights without socio-economic rights.

        In short, the building of independent working class formations in society as vehicles for socialist oriented national democratic revolutions remain as relevant as ever in our post-colonial realities. This is the only basis for addressing the challenge of underdevelopment as part of a struggle for socialism!”

  2. Obrigado pelo link, Tó.
    Devia, como se vê por ele, acrescentar-se ao meu desabafo com meia dúzia de gralhas que «Foi o PCAS que, mais de um ano antes das eleições, condenou veementemente a escalada repressiva que se tinha vindo a instaurar desde as anteriores.»

  3. Leo diz:

    “Foi o Desmond Tutu quem disse que Mugabe devia ser apeado após o que fez em 2008 e julgado no tribunal de Haia.”

    Só ele? Lembro-me que o Brown (e antes Blair) já desde há muito berravam o mesmo. Bush também.

    Não foi isso que o povo do Zimbabwe decidiu. É ele que mais ordena. Também no Zimbabwe é o povo que mais ordena. Por isso a distribuição das terras continuou e consolidou-se. E acabará por ser feita na África do Sul. Mais dia menos dia. Seguindo o exemplo do Zimbabwe.

    • paulogranjo diz:

      Não houve mais ocupações de terras após aquela vaga e praticamente não houve “distribuição” das antes ocupadas, excepto para a oligarquia do poder.
      O povo, violentado, assassinado, expulso das suas terras comunitárias, preso na véspera, entrando em assembleias de voto entre milícias armadas, venceu Mugabe e os militares em eleições aldrabadas, re-aldrabadas em gabinete quanto aos resultados da 1ª volta das presidenciais.
      Excuso-me de qualificar a sua conversa.

      • Leo diz:

        E foi com o Desmond Tutu que aprendeu tudo isso certo? Ou talvez com o seu amigo Carlos Serra? Por binóculo?

        Há gente que se dispõe sempre a papaguear as cassetes encomendadas. Deve estar a ver se chama a atenção para conseguir mais umas prestações mediáticas. Calculo que ajudam bastante a chegar ao fim do mês.

        • António Figueira diz:

          O Paulo é grande que chegue para lhe responder sozinho, mas não há-de importar-se se eu lhe disser o que penso da sua conversa: intelectualmente estúpida, moralmente repugnante.

      • Justiniano diz:

        Caríssimo Granjo, louvo a sua enorme paciencia ao tentar polir o enrugado tegumento ali dos Leos!! Mas inútil, caro Granjo!! A questão, para os Leos, não é metafísica mas metalurgica e à qual há apenas uma resposta possível – Zinco, a duas de mão!!
        Um bem haja para si!!

        • Leo diz:

          Nem se deu ao trabalho de reflectir também – seguindo o exemplo do kid malcriado – no que o PC da África do Sul escreveu em 2007 sobre a situação no Zimbabwe, pois não?

          Eu traduzo. Diz isto:

          “A libertação nacional sem a total emancipação social e económica permanecerá sempre incompleta e susceptível a sérias reversões. Uma sem a outra é a base para regressões futuras. Este é o significado total de direitos humanos e é por essa razão que durante este mês de direitos humanos na África do Sul reforçamos as nossas campanhas para sublinhar que não pode haver direitos humanos sem direitos sócio-económicos.”

          Parece-me que a distribuição das terras é boa base para começar. Nisto, o Zimbabwe vai à frente e é um caso raro de sucesso. Oxalá Zuma os tenha no sítio para que tal processo se inicie na África do Sul.

          • Justiniano diz:

            Leo, se a tradução era para mim foi pura perda de tempo!! Nada sei sobre essa reflexão, e tão pouco me ocupo das razões do Granjo ou do PC SA!! É coisa que, consabidamente, não perfilho!! Mas gostaria de poder explicar-lhe, Leo, onde fica hoje o Zimbabue! Onde fica a África e tudo mais!!
            Mas não consigo!!! Porque não quero!!

          • Leo diz:

            Tanto quanto todos sabemos o Zimbabwe continua onde sempre esteve. E a África também, Justiniano. E sempre com gente muito sábia. E muito dinâmica.

  4. José diz:

    “Vá-se armar em defensor da soberania africana para a sua rua, seu fascistoide armado em progressista!”
    Brilhante!
    É que há tantos fascistóides armados em progressistas por aí…

  5. amigos de Alberto Carvalho diz:

    O Paulinho não percebe mesmo nada da situação.

    Estar ao lado dos que difamam Robert Mugabe, é estar ao lado dos proprietários belgas, ingleses, dos exploradores miseráveis, dos amigos e nostálgicos do imperador Leopoldo. Sabe quem era?

    Além disso, o Paulinho das Granjas é um queixinhas que tal como muitos, usa o seu tempo aqui para brincar à política e ao “ser de esquerda”…

    Shame on you!

    • paulogranjo diz:

      A si já respondi.
      Estou é ao lado do PCAS, da COSATU, do Mandela, do Tutu, do Zuma (duas vezes na vida) e, sobretudo, da maioria do povo (pobre e negro) zimbabuéano.
      A resposta serve para o “Pedro o Africano”.

      • Leo diz:

        E esqueceu-se do Joe Slovo? O grande Joe Slovo que o seu amigo Tó teve a lata de ressuscitar para malhar nos patriotas do Zimbabwe?

    • Leo diz:

      “Além disso, o Paulinho das Granjas é um queixinhas que tal como muitos, usa o seu tempo aqui para brincar à política e ao “ser de esquerda”…

      Shame on you!”

      Permitam-me que rectifique:

      Além disso, o Paulinho das Granjas é um queixinhas que tal como muitos, usa o seu tempo aqui para brincar à política e ao “ser do bloco de esquerda”…

      Shame on you!

  6. Pedro, o Africano diz:

    Ó Paulo Granjo, tu tresandas a Tim Marshall da «Sky News».

    Ai, não sabes quem é o Tim Marshall?

    Go and figure!

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