Simón Trinidad: o homem de ferro


Simón Trinidad depõe no julgamento através de video-conferência

O livro fez sucesso na Venezuela. Milhares de pessoas compraram a obra de Jorge Enrique Botero. O jornalista colombiano havia escrito uma “mistura de biografia e reportagem” sobre Ricardo Palmera, conhecido como Simón Trinidad. Palmera fora um destacado gerente bancário e candidato da União Patriótica. Quando se dá o genocídio daquele partido de esquerda, alvo do ódio da oligarquia e do Estado colombiano, Palmera decide pegar em armas e adere às FARC. Passa a ser Simón Trinidad. A vida excepcional de um homem que preferiu perder tudo o que tinha a ser um vassalo do sistema. Preso e extraditado para os Estados Unidos, Simón Trinidad foi condenado a 60 anos numa cadeia de alta segurança. Longe do seu país e da sua Lucero, o comandante das FARC acredita que o socialismo é a única opção para fazer frente à barbárie capitalista.

«Eu também tinha razões pessoais e inevitáveis para lançar-me nestas páginas pois havia conhecido Trinidad durante os diálogos entre o governo de Andrés Pastrana e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Vi-o a dar cursos tumultuosos a 200 candidatos a comandantes guerrilheiros nas selvas de Caguán. Esvaziei com ele várias garrafas de Old Parr discutindo o passado, o presente e o destino da Colômbia e conheci-o no seu invejável mundo afectivo amando sem tréguas a sua Lucero, a jovem que conquistou sendo já um quarentão. Também o vi no papel de pai afectuoso com a sua pequena filha Alix Farella, então com sete anos, ao mesmo tempo que me confessava a sua admiração por José Stáline.

Foi conversando com Trinidad que obtive uma das pistas chave para decifrar essa guerrilha enigmática a que chegou empurrado por factores externos mas também por decisões da sua alma rebelde. “As FARC – disse-me numa tarde, no meio de uma chuva apocalíptica no acampamento de Las Cachamas – têm dois nuncas: nunca esquecerão o genocídio contra a União Patriótica e nunca deixarão as armas”.
Durante as minhas viagens frequentes como repórter à zona desmilitarizada de 42 mil quilómetros onde dialogavam os porta-vozes do governo e da guerrilha sempre procurei formas de passar algum tempo com o protagonista destas páginas. Falávamos durante horas percorrendo as estradas construídas pela guerrilha na profundidade da selva com ele ao volante da camioneta que lhe havia atribuído Mono Jojoy [comandante das FARC].

Passei dias e noites nos seus acampamentos onde comíamos cancharina e bebíamos café nas aprazíveis e incríveis aldeias móveis que a guerrilha vai construindo durante as suas deslocações por montanhas e selvas. Levou-me às emissoras de rádio, aos hospitais de guerra e às escolas onde se formavam militar e politicamente centenas de adolescentes. E, como não, discutimos amigavelmente sobre política (a sua paixão obsessiva) mas também sobre futebol, mulheres, música, guerra, literatura, cinema e…mais política.

No dia 12 de Fevereiro de 2002, o presidente Andrés Pastrana rompeu oficialmente os diálogos com as FARC e deu a ordem de bombardear nessa mesma noite várias localidades de Caguán. Segundo as FARC, a ordem de Pastrana foi uma cobarde violação dos acordos assinados no inicio dos diálogos pois o governo comprometeu-se a dar um intervalo de dois dias antes de atacar no caso de que o processo se rompesse. O próprio Pastrana confirma-o no seu livro La palabra bajo fuego, memórias do fracassado processo de paz com as FARC quando relata que depois de chegar a um acordo com a guerrilha sobre os limites geográficos da zona desmilitarizada e o funcionamento dos diálogos. “Disse a Marulanda que, se terminasse a zona, as FARC teriam 48 horas para sair dela antes do reingresso da Força Pública”.
– Não ficou escrito mas foi um pacto de honra que fizemos com Pastrana e o presidente faltou à sua palavra – assegurou Mono Jojoy durante uma entrevista que lhe fiz há quase dois anos depois do fim do processo de paz.

O capítulo final daqueles três anos de aproximações e desconfianças apanhou-me numa aldeia chamada La Tunia que fica no caminho entre San Vicente e La Macarena onde esperava uma resposta a um pedido para entrevistar Marulanda. Na véspera do rompimento, um comando guerrilheiro da coluna Teófilo Forero havia sequestrado em pleno vôo um avião da Aires que fazia a rota Neiva-Bogotá, obrigando os pilotos da aeronave a aterrar numa estrada próxima para levar como “preso de guerra” o senador Jorge Eduardo Gechen, numa operação tão cinematográfica como bem sucedida que teve grande destaque na imprensa nacional e internacional.

Num relato do seu sequestro que consegui gravar com ele em meados de 2003, quando realizava o documentário Bacano salir en deciembre, Gechen disse-me que aquela havia sido uma operação muito bem planeada. Guerrilheiros da Teófilo Forero tinham cortado nessa mesma manhã as árvores que se levantavam nas bermas da estrada que une Hobo e Campoalegre enquanto um comando de combatentes vestidos de civil conseguiam entrar armados no avião para desvia-lo rumo à pista improvisada.

Recordo que vi as imagens daquele episódio na única televisão de La Tunia, cercado por dezenas de camponeses da zona. Ao terminar o noticiário, um deles levantou a voz e gritou a plenos pulmões que o melhor que podiam fazer todos os camponeses era empacotar rapidamente as suas coisas e fugir para o mais longe possível da zona desmilitarizada. A sua intuição, apurada pelos anos e pelos golpes, advertia-o de que o processo de paz estava a agonizar e que o exército não tardaria em chegar à região.
– E quando não encontrarem guerrilheiros somos nós que pagamos – avisou. Pagou a cerveja que havia tomado e partiu.

O prognóstico do camponês não falhou. A partir das primeiras horas do dia seguinte, caravanas de camionetas e camiões atestados de guerrilheiras e guerrilheiros das FARC desfilaram sem descanso pela estrada rumo à profundidade da selva deixando a pequena aldeia envolto numa nuvem de poeira que lhe dava a aparência desolada daqueles povoados do distante oeste norte-americano, abandonados pelos homens e habitados apenas pelo vento.

A gente do povo também iniciou a sua fuga no meio de uma grande desordem. Homens, mulheres, crianças e idosos disputavam aos encontrões um lugar nas camionetas da linha. Dito lugar podia ser um banco mas também no corredor, no tecto ou nas escadas; de tal forma que muitos passageiros acabavam literalmente colados ao autocarro.

Nisso andava La Tunia quando passou o comandante Simón Trinidad.
Conduzia uma camioneta azul onde se apertavam pelo menos 20 guerrilheiros. Ao seu lado estava Lucero. Trinidad viu-me e parou a marcha. Perguntou-me que diabo fazia eu ali e recomendou-me que tratasse de sair imediatamente da área.
– A corda não aguentou mais – concluiu.
E acrescentou que Pastrana anunciaria pela televisão o fim dos diálogos. “Pela noite, vêm os bombardeamentos”.
– Eu estou à espera de uma entrevista com Marulanda mas acho que perdi a viagem – disse-lhe, explicando a minha presença na aldeia.
A Trinidad fez-lhe rir o meu comentário mas não me respondeu. Tinha pressa e demos um forte aperto de mãos enquanto Lucero se despedia com a sua frase de sempre: “Por favor, cuide-se muito, jornalista”.»

Também aqui.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

3 respostas a Simón Trinidad: o homem de ferro

  1. cuba.si diz:

    longa vida às FARC- Ejercito del Pueblo!!!!!

  2. Nada contra o post, e tudo contra avaliações precipitadas sobre as FARC, induzidas pelos media dominantes (como aquela de as chamar de “terroristas”). Apenas uma ressalva, dizer “o genocídio” da União Patriótica não é de todo correcto. “”Genocídio” refere-se ao extermínio de todo um grupo étnico, religioso, etc. e não a massacres por razões políticas. Porque não dizer apenas “o massacre”, ou mesmo “o extermínio”?

Os comentários estão fechados.