Na morte de DENNIS OPPENHEIM: Still Dancing meu caro…

 Dennis Oppenheim, Untitled (Deer)

DENNIS OPPENHEIM, 1990.

 
DENNIS OPPENHEIM, 2002.

Soube pela SIC/Lusa e confirmei no site de ARTFORUM que morreu o artista Dennis Oppenheim (o Portugal dos Pequeninos também o cita) – do mundo mais do que fascinente, problemático e polémico das neovanguardas internacionais (onde são protagonistas vários artista afirmados desde os anos 60 e 70), vão restando – desculpem, não é a palavra correcta (mas fica assim) – vão restanto activamente gente como o Dan Graham, o Carl Andre, o Long e o Fulton, o Morris e o enorme Richard Serra, entre outros, felizmente muitos outros (aqui o tempo não passa facilmente, os grandes artistas têm poderes reais). O Dennis Oppenheim não era um artista qualquer: dessa geração, era um expoente: bizarro, transgressivo, transgredia o próprio conceptualismo e o earth work de onde partiu. Expôs em Portugal entre 1996 e 1997, em Serralves, numa exposição comissariada pelo meu colega e amigo Bernardo Pinto de Almeida que teve a visão certa de escolher praticamente material inédito e recente. À mesma exposição, tive a oportunidade de organizar uma visita guiada. Não vou falar muito sobre um artista que muito admiro, por isso mais não farei do que transcrever e republicar um texto crítico que na altura publiquei em Lisboa (A Capital, 5 de Dezembro, 1996):

Reading Position for second degree burn. 1970 (acto performativo com a duração de 5 horas).

(2004)

 Barnett Newman: Broken Obelisk.

BARNETT NEWMAN, Broken Obelisk. 1966.

METÁFORA E REALIDADE

Dennis Oppenheim (n. 1938), nome histórico das neovanguardas americanas dos anos 60 e 70, participante activo das convulsões estéticas iniciadas nessas décadas (refiram-se as suas presenças em várias das exposições de ruptura de 1969, como «When Attitudes Become Form» ou «Propect 69»), expõe na Fundação de Serralves um conjunto de cerca de 30 obras recentes.

Cerca de metade da presente exposição do Porto, comissariada por Bernardo Pinto de Almeida, é constituída por peças praticamente inéditas. Tal facto conferirá certamente uma importância acrescida a esta proposta — que passa a ser uma exposição analisável em particular e de importância isolável, no lugar duma retrospectiva entre outras que o artista tem realizado, pelo menos desde a apresentada pelo PS 1 de Nova Iorque, em 1991.

Importância acrescida também pelo lugar que ocupa Oppenheim na trajectória da arte internacional dos últimos trinta anos, proporcionando-se deste modo um claro ponto da situação em que se encontra a última fase do seu trabalho. Numa primeira análise esta realidade é inquestionável, ficando toda e qualquer discussão subsequente em aberto, mas desta feita para o campo da regularidade ou irregularidade de tal estado a que chegou esta obra já longa e sempre incontornável.

Em Dennis Oppenheim, o que parece imperar é a sua relação permanentemente heterodoxa com os movimentos estéticos contemporâneos a todas as suas facetas de artista. Desde o minimalismo ao conceptualismo, desde a body art ao earth work; ainda heterodoxo foi o aparente abandono que Oppenheim promoveu por relação com as anteriores modalidades de desmaterialização da obra de arte enquanto objecto até a esta assunção plena de uma escultura (pelo menos desde os anos 80) inquestionavelmente objectual (e mesmo surrealizante) e, a um olhar distraído, contraditória com toda a lógica desenvolvida desde os anos 60.

Continuidade de motivações

Mas aqui, ao invés, penso que não existem rupturas internas excessivamente decisivas na trajectória desta obra, porque me é clara a sua relação sempre problemática com os movimentos que caracterizaram as décadas da neovanguarda, sem que tal signifique tornar Oppenheim um caso único e isolado de perturbação contra a forçada estabilização propugnada quer pelo conceptualismo mais radical (o de natureza linguística), quer pelo minimalismo de natureza fenomenológica.

Por isso, penso assim justificar-se esta exposição [Serralves, 1996/1997] e sua opção em prescindir de documentação ou mesmo de obras desses períodos pioneiros, pois tal como sempre afirmou Greenberg, e aqui o parafrasearia de novo, é certo que não existe progresso em arte. Ou seja, a presente obra de Oppenheim faz adivinhar, atrás de si, um percurso de fuga e heterodoxia em face de toda e qualquer tentativa legisladora da obra de arte, tal como pretendido pela auto-reflexividade dos movimentos já referidos.

Só aparentemente é que se detectam contradições entre estes trabalhos (e cerca de metade da exposição data de 1996!!) e o conhecido percurso do autor dentro ou fora dos movimentos que protagonizou, e já os referi quase todos, porque, aqui sim, no seio destes movimentos, várias são as contradições que na actualidade e retrospectivamente vemos existirem entre as várias dimensões do próprio conceptualismo: por exemplo, entre a sua versão linguística (Opalka, Kawara, Douglas Huebler, Weiner, Robert Barry, Kosuth, «Art & Language», Michael Asher, etc) e outra politizada (protagonizada por Victor Burgin, Haacke, Jaar ou Muntadas); ou entre uma sua leitura desconstrutivista (ou melhor, pré-desconstrutivista) — protagonizada por autores como Buren ou Marcel Broodthaers — e uma dimensão tendencialmente espacial / sensorial, abrindo já esta um vasto território de conflitualidades originando aquilo que denominamos de pós-minimalismo, mais atento às matérias orgânicas do que aos conceitos, em Bruce Nauman, Helio Oiticica, Vito Acconci, Dan Graham, Eva Hesse, Robert Smithson, Robert Morris e o próprio Dennis Oppenheim.

Vejamos, de novo em síntese, algumas destas conflitualidades.

Enquanto o conceptualismo de um Kusuth, ou de Weiner, defendia a arte como ideia (ou a «atitude enquanto forma»), a tautologia e o apriorismo linguístico (na definição do que é ou não é arte, através de um statement ou declaração), privilegiando, na tradição iconoclasta da arte abstracta, a linguagem sobre a imagem, ou as investigações das condições de produção da própria arte, substituindo a atenção pelos «produtos» (as obras), o conceptualismo politizado, diferentemente, lutava pela aplicação dessa anterior frente analítica à realidade dos fenómenos de massa sociais, ao funcionamento das linguagens massmediáticas (a «media landscape», como lhe chama Muntadas) e ao seu papel na regulação das multidões e da sociedade do espectáculo no seu todo.

Entropia e pesadelo

Ou enquanto o minimalismo propunha uma estética de evidência essencialista e neotranscendental, ligada a uma auto-referencialidade e a um «objecto específico» (nem pintura nem escultura, mas antes objecto específico, dizia Judd), serializado e de produção industrial (contra o factor «manualidade», portanto), onde o psicologismo e a individualidade desapareceriam forçosamente, o pós-minimalismo recuperava o pictural e o escultórico, a política, a necessidade de utilização e compreensão do corpo na sua «organicidade».

Todas estas movimentações preencheram as décadas de 60 e de 70, e é essencialmente através do pós-minimalismo, ou do earth work e da body art, que vamos encontrar as referências básicas para a contextualização do actual trabalho de Oppenheim, para o seu onirismo de tipo «Alice no outro lado do espelho», para as suas visões de uma angustiante e histérica «disneylândia» como retrato do espírito do nosso tempo.

Porque há óbvias ligações entre estes objectos surrealizantes, monstruosos, lúdicos e ao mesmo tempo assustadores, e o earth work tal como o entendia um Robert Smithson, por exemplo a partir da sua muito pessoal aplicação da 2ª Lei da Termodinâmica e das noções de «entropia» e «dispêndio».

Óbvias ligações entre estes objectos de Oppenheim e esse período decisivo de ruptura com a, chamemos-lhe assim, «fase do espelho» da arte. Conotando este termo de Lacan com a auto-reflexividade do conceptualismo e sua busca obsessiva da identidade da arte, processada como vimos, de uma forma primordialmente linguística.

Assim, há em Dennis Oppenheim uma dupla metaforização — por um lado, uma superação do problema da auto-identidade da arte (coisa auto-reflexiva que se autodefine). Depois, a construção de um universo perverso, mais imaginário que simbólico, infantil, histérico ou fóbico, que nos fala também das actividades fisiológicas (da morte, das doenças, de tumores, de cancro e da sida), de violência urbana e da crítica das estruturas opressivas do urbanismo. Sempre de uma forma algo niilista e não sistemática. O que, de imediato, afasta esta obra de um mero catálogo de perturbações. E lhe dá uma inconfundível singularidade.

(Dezembro, 1996)

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2 respostas a Na morte de DENNIS OPPENHEIM: Still Dancing meu caro…

  1. Hey Dennis, wherever you are man, you’ll never be forgotten, and that’s a promise !

    Obrigado pelas memórias Carlos Vidal

  2. LM r diz:

    Obrigado pelo recado. Não tinha dado por nada. Relembro uma revista que ainda lá devo ter em casa, com o título de capa: “Dennis the Menace?”

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