A abstenção e os votos brancos e nulos

Aprecio o esforço de fazer uma leitura política da abstenção. Eu, que penso que o voto é um dever e tendo a apoiar a ideia de ser tão obrigatório como o pagamento de impostos, tenho as mais sérias dúvidas sobre como se pode analisar o conjunto de pessoas na qual estarão incluídos os cidadãos que entenderam que estava demasiado frio para ir votar, que não tinham a roupa adequada para se deslocar à assembleia de voto, que estavam longe do seu círculo eleitoral ou que acha que são todos corruptos. Assim sendo abstenho-me de fazer grandes considerações políticas sobre a abstenção.
Mas, nesta eleições presidenciais, brancos e nulos também tiveram uma expressão considerável. Se contassem (e penso que deviam contar) para o apuramento dos resultados, Cavaco teria tido uma derrota sem precedentes, não sendo eleito à 1ª volta. Contudo este conjunto de cidadãos eleitores, também não me parece poder ser politicamente enquadrável numa vontade libertária de mudar de regime. O voto branco/nulo juntou o Renato ao monárquico João Távora do Corta-Fitas ou uma parte da Ruptura/FER às alas mais conservadoras da Igreja que não se revêm em Cavaco. Será que uns contam com os outros para mudar o mundo?

P.S.: Estive nas mesas e na maior parte de votos nulos que vi, nestas eleições presidenciais, fazia-se uma cruz em todos os candidatos. Alguém me explica o significado político disto? Gostavam de votar em todos?

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21 respostas a A abstenção e os votos brancos e nulos

  1. Tiago Mota Saraiva não me diminua.
    Não tenho procuração de ninguém para falar em nome de quem quer que seja, mas enquanto puder ser vou-me abster, como faço há décadas.
    Pagar impostos é uma coisa (eu faço), votar é outra (eu não faço).
    Quero cá saber se há uns por outros , com estas motivações ou outras que façam o mesmo ou o contrário.
    Nada me obriga a convidá-los aqui p’ra casa, a uns ou outros.
    Desculpe discordar.
    😉

  2. João diz:

    Bem, na mesa de voto onde estive o que apareciam nos boletins eram pénis… O que será que queriam dizer?

  3. 1) De acordo quanto à abstenção.

    2) Não sei como os brancos e nulos poderiam «contar». Se contassem como votos «contra» a eleição em causa, poderíamos até ter uma segunda volta inconclusiva, em que nenhum dos dois poderia ser causado vencedor por a diferença ser menor do que os brancos e nulos…

    3) Pôr cruzes em todos evita que o voto seja alterado para voto num dos candidatos, o que poderia acontecer, teoricamente, com um voto em branco.

  4. Raul diz:

    Concordo que os votos em branco deveriam ter significado. Eu não votei em branco. Também concordei com uma coisa que ouvi o Freitas do Amaral dizer ontem (não quer dizer que concorde com tudo o que ele diz): candidaturas geradas sem qualquer intenção de ocupar a presidência, apenas para dar expressão ao descontentamento e ser veículo de protesto, são legítimas mas não deveriam existir. agora lá como, não sei…

  5. oberon diz:

    Bem, eu votei tb em todos (bem, enfim, menos no Cavaco) porque me pareceram todos tão bons que mereceriam todos ser eleitos…

  6. Raul diz:

    às tantas talvez pudessemos pensar em mecanismos eleitorais que contemplassem mecanismos sucessivos: por exemplo, com primárias, etc…

    Não se pode obrigar as pessoas a votar, como não será possível obrigá-las à participação cívica.

    A verdade é que esta realidade também espelha uma coisa – o nosso sistema eleitoral não assegura a representatividade dos cidadãos. Eu, neste momento, não me revejo em nenhum partido. O meu espaço ideológico, levou sumiço…

    às tantas até seria apologista da criação dos círculos uninominais….

  7. Alberto Carvalho diz:

    O acto de se abster é igual aos que dizem “não me metam nisso”, “a culpa é dos partidos”, “não tenho nada a ver com isso”, etc…

    Também pode ser o facto de ter havido desleixo e incompetência do MAI, ao não ter conseguido preparar o serviço informático que daria a muita gente o n.º da secção, onde votariam.

    Também, essa gente que se deslocou, à ultima da hora, poderia ter confirmado a secção onde votava um mês antes da data das eleições. Por isso, nada a dizer em relação aos que se mostraram insatisfeitos.

    Tal como aqueles que se abstêem, o voto em branco é outro sinal de pura idiotice, ou seja, uma pessoa levanta-se e vai à sua secção de voto, apenas para dobrar o boletim, sem voto.

    Desculpem lá, mas isto é uma demonstração de estupidez e idiotice de pessoas que ainda não perceberam o que é votar… e votar é escolher um candidato ou um partido. É a regra.

    • Leitor Costumeiro diz:

      As pessoas fazem com o seu voto o que querem…Não há quem vote no CA#%&&/o?!?
      Pode ser estúpido não votar, mas a idiotice total está em votar nesse merdas…

  8. agostinho diz:

    Que pobre está o meu Portugal. Vivo no Brasil a 10 meses, pela primeira vez não votei. Lamento que continuemos a ser o País mais
    abstencionista do Mundo. Aqui no Brasil não acontece isso o voto é obrigatório. Não sou apoiante do obrigatório mas abstenção como
    em Portugal é um absurdo. Quem tem coragem para criticar o Governo? E o Presidente? e os Deputados? e os Autarcas? NINGUÉM
    pois normalmente quem critica não vota. Simplesmente vergonhoso. Ao meu Partido Socialista, será que não tinham outro candidato a apoiar? O Dr. Manuel Alegre devia se reformar a muito, tenho respeito por ele mas não era o candidato.

    • subcarvalho diz:

      Votaste?…Cagaste!!
      Adoro estes criticos politicos que não querem fazer teorias sobre a abstenção e depois chamam de idiotas a todos os que não põem cruzes nos boletins e ainda querem tornar o voto obrigatório!…ah democrata!
      Caro Tiago, e aqueles que não votam porque simplesmente não se identificam com o sistema politico vigente? e que no seu quotidiano procuram efectivamente lutar sem líderes nem burocratas à procura de poleiro?
      Quem com o mínimo de inteligência ainda deposita nas mãos de uma minoria a gestão do que é comum?
      Ora porra…a revolução faz-se nas ruas, nos bairros e não nos corredores palacianos!

  9. xatoo diz:

    foi dado mais um passo na direcção do universo de Saramago: “e se todos, a maioria de 80 por cento, resolvessem votar em branco?”
    o poder poderia continuar a fazer as mesmas contas?
    há falta de melhor, estamos no bom caminho, mas cuidado, que o Soares ja veio arengar com as “iniciativas participativas da cidadania” ou o raio que parta o bonzo que nunca mais bate a bota

  10. subcarvalho diz:

    Votaste?…Cagaste!!
    Adoro estes criticos politicos que não querem fazer teorias sobre a abstenção e depois chamam de idiotas a todos os que não põem cruzes nos boletins e ainda querem tornar o voto obrigatório!…ah democrata!
    Caro Tiago, e aqueles que não votam porque simplesmente não se identificam com o sistema politico vigente? e que no seu quotidiano procuram efectivamente lutar sem líderes nem burocratas à procura de poleiro?
    Quem com o mínimo de inteligência ainda deposita nas mãos de uma minoria a gestão do que é comum?
    Ora porra…a revolução faz-se nas ruas, nos bairros e não nos corredores palacianos!

  11. Alberto Carvalho o senhor tem apenas uma existência entre o virtual e qualquer outra coisa.

    Citando-o: »…o acto de se abster é igual aos que dizem “não me metam nisso”, “a culpa é dos partidos”, “não tenho nada a ver com isso”, etc…»

    Vá interpretar o “acto de se abster” num lugar onde o sol não lhe brilhe…
    O que o senhor preferiria, seria uma coisa onde as pessoas são obrigadas a fazer o que não querem, grande irmão ??

    Abster-se significa «recusar», achar que os tipos que se lá põem em cima prestam tanto como uma alface pôdre. É (por enquanto) um direito que nos assiste.
    Nós (alguns de nós…) ignoramos a vossa estupidez porque nos recusamos a olhar para ela, ideia sendo não ficarmos tão estúpidos quanto… pois.

    🙁

  12. Rui Costa diz:

    Os resultados dos brancos e nulos foram de facto surpreendentes. Sobretudo se tivermos em conta os anteriores resultados obtidos por este “candidato”. Pode encontrar os dados aqui.

  13. A.Silva diz:

    O Analfabeto Político
    Berthold Brecht

    O pior analfabeto
    É o analfabeto político,
    Ele não ouve, não fala,
    nem participa dos acontecimentos políticos.

    Ele não sabe que o custo de vida,
    o preço do feijão, do peixe, da farinha,
    do aluguel, do sapato e do remédio
    dependem das decisões políticas.

    O analfabeto político
    é tão burro que se orgulha
    e estufa o peito dizendo
    que odeia a política.

    Não sabe o imbecil que,
    da sua ignorância política
    nasce a prostituta, o menor abandonado,
    e o pior de todos os bandidos,
    que é o político vigarista,
    pilantra, corrupto e o lacaio
    das empresas nacionais e multinacionais.

  14. subcarvalho diz:

    A. Silva,
    certamente que Brecht se referia ao analfabeto político como aquele que não tem um espírito crítico sobre a sociedade em que vive…daí a usar este poema para atingir os que não foram votar só demonstra a sua ignorância sobre o que quer dizer “política”… analfabetos políticos são aqueles que consideram política o simples e básico acto de ir votar.

  15. Luís diz:

    Tal como as alas mais conservadoras da Igreja, gostava de me revir no Cavaco. Mas para tal já teria de me ter vindo uma vez, sorte que a mim não me tocou.

  16. Pingback: Como substituir o argumento pela preguiça. Não era melhor ser mais exigentes ao invés de resolver a contenda transformando a liberdade em crime e castigo? | cinco dias

  17. Abstive-me porque trata-se de uma questão de legitimidade. Pelos vistos, os aspirantes a Belém também entenderam o problema que uma abstenção relevante implica. De facto, a tal “centenária” que jamais foi referendada, acabou derrotada. Foi intencional esta abstenção. Sobretudo, bem pensada e querida.
    Parabéns à República: tem um presidente eleito por 23% dos eleitores.

  18. nuno diz:

    Em 2009, os votos nulos no Círculo da Europa chegaram aos 15% e ninguém se preocupou com isso. Ninguém levantou a voz, ninguém tirou conclusões, ninguém disse nada.

    http://www.legislativas2009.mj.pt/legislativas2009/estrangeiro.html

    Há que mudar o mundo, mas apenas com aqueles que moram ao pé de nós e quando isso nos dá jeito?

  19. Luis Ferreira diz:

    O que é mais lamentável, uma pessoa abster-se ou votar no Cavaco? Quem cumpre melhor o seu dever?
    O problema das análises sobre a abstenção oriundas da esquerda é que parecem querer deduzir que se não fosse a abstenção Cavaco não ganharia.

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