De Louçã a Nobre…

… parece que toda a gente aprendeu muito com a muito repetida retórica vitoriosa e relativista do digno PCP em noites de derrota eleitoral.

Curiosamente, Francisco Lopes parecia o aluno menos aplicado, ao expressar na voz titubeante e no facies desiludido todo o peso do paupérrimo resultado que se lhe configura, apesar do tiro de morteiro (ou de obus) que o líder do BE diligentemente deu no pé.

Resultado que, digo eu, talvez não faça mal nenhum (em termos internos) ao PCP, mesmo que talvez não faça, tão pouco, nenhum bem…

E, irritado que estou, fica para amanhã (com mais calma, ou talvez sem ela, mas com mais tempo para descobrir) a afixação de um post que escrevi ontem, para publicar hoje às 20 horas, face aos resultados previsíveis.

Começa assim:

«Queridos PCP e BE:

Lamento ter que informar-vos (em vez de, por exemplo, serem vocês a informar-me) que alternativas futuras e efectivas de esquerda não passam pelo aparente desprezo e tentativa de canibalização mútua (pateticamente medida em décimas de percentagem eleitoral), nem por fortalezas sitiadas transformadas em bem intencionadas tentativas de sindicato do povo em geral, nem por respeitáveis e simpáticas personagens conjunturalmente afastadas do centrão reinante.

Passa por um diálogo que potencie a pouca diferença essencial e a bem maior diferenciação entre o que cada um de vocês tem e o outro não, não tanto para definir o amanhã e o dia a seguir, mas mais para definir aquilo que constitua a efectiva alternativa que queiram construir e que – desculpem-me – nem vocês sabem qual é (como ninguém hoje sabe), nem podem construir sem o outro. Mesmo que isso vos custe a perda de uma mão cheia de votos para o outro, ou uma ainda maior perda de ambos em conjunto.»

E acaba assim, depois de passar por várias coisas, entre as quais um encontro casual com o crítico fantasma de Bernstein, chocado por ambos estarem à direita da sua 2ª Internacional (já que os, para mim, muito mais simpáticos fantasmas de Marx, Lenin, Trotski e Gramsci se sentiam demasiado ultrajados para se pronunciarem):

«Falando, acerca de tudo isto, com dirigentes vossos que respeito, responderam-me curiosamente a mesma frase, também usada recentemente bem mais à direita:

– São precisos dois para dançar o tango.

A chatice é que, hoje, a música é por demais premente e não há ninguém disposto a ser dançarino.

E, acreditem, se há sempre e em todo o lado 100 ou 1.000 diligentes candidatos a cães de fila para morder quem lhes esteja mais próximo, essa ausência de potenciais dançarinos chateia à séria quem se preocupa mais com mudar o mundo do que com reproduzir instituições que, supostamente, foram criadas para o mudar.»

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8 respostas a De Louçã a Nobre…

  1. !!! diz:

    Sim, sim, ó Granjo. Eu, se tivesse votado Alegre, também estaria hoje muito irritado.

    Mas, vê lá, votei no Lopes, e apesar de descontente com a reeleição do Cavaco (de que nunca duvidei, mas isso não importa para aqui), sinto-me razoavelmente satisfeito com o resultado do único candidato das forças progressistas consequentes e leais aos seus princípios.

    De qualquer modo, asseguro-te, com uma grande tranquilidade de consciência. Irritações, nenhuma. O “Francisquinho” que meti na urna ninguém mo tira e sei que contou hoje, domingo, e que conta no futuro, já amanhã, nas lutas que continuaremos a travar.

    Pudesses tu dizer o mesmo e garanto-te que as “irritações” seriam menores.

    • paulogranjo diz:

      Mas, caro anónimo exclamativo e facilmente satisfazível com a mera alegria que refere, mesmo que para o pior resultado do PCP desde o Otávio Pato:
      O que é que lhe diz em quem é que votei?
      Por acaso, nem foi nesse que supõe.
      A minha irritação não é com os resultados, expectáveis. É com a atitude (em coisas bem mais importantes para todos nós que estas eleições perdidas, a partir do momento em que os candidatos se confirmaram) dos partidos que respeito e se situam na minha área.
      E, suspeito bem, devo ter feito bastante mais por aquele partido que tão facilmente lhe cria satifação do que você fez. Embora não o possa saber, claro – é o problema dos anonimatos.

  2. Voaralho diz:

    Meu caro, se está assim tão amargurado porque não mete a língua no cu e se esgana? Deixe lá os outros, trate de si.

    • paulogranjo diz:

      Tento imaginar a posição de contorcionismo necessária ao que me sugere, mas mesmo assim não vejo como me poderia esganar dessa forma.
      Suponho que não tenho a sua vasta experiência de lambe-cús.
      Dizem (embora eu não acredite) que cada um é para o que nasce. Mas, seja congénito ou adquirido, você será certamente excelente nisso.
      Quanto aos “outros”, fale do que sabe. Mesmo que de forma tão bimba como o faz.

  3. Luís diz:

    Granjo, percebo a sua insatisfação. Publiquei a minha análise eleitoral comentando um post anterior sobre votos brancos e nulos. Creio que a esquerda está a perder “todas” (mesmo todas) as ilusões quanto à falsa escolha PS-PSD. Já é tempo de dar a procura de “alas esquerdas do PS” como um caso perdido.
    O BE tem de repensar a asneira que fez mas ao PCP ainda lhe escapa muito descontentamento que fica em casa ou vai em conversas de diversos demagogos “recém nascidos” para a esquerda. Que ao menos saibamos contra quem estamos… até que enfim, sempre é um avanço. Mas para forjar uma séria alternativa de esquerda necessariamente unindo várias camadas anti-capitalistas ainda há bastante trabalho a fazer.
    Pois é verdade, o sectarismo continua a ser muito negativo apesar de termos razão em dizer não ao regime bicéfalo PS-PSD.

    • António Figueira diz:

      A história acontece como tragédia e repete-se como farsa: a patética operação Alegre do BE em 2011, à procura desse mito pertinaz da política portuguesa que é “um PS de esquerda” ou “a esquerda do PS” recria, quase trinta anos depois, a aliança com o Eanismo, que morreu na primeira volta das Presidenciais de 86. Pode um tipo algum dia ter confiança em gente que sofre da “doença infantil”? Não, não pode, nunca pode.

      • Tens toda a razão na analogia, Tó.
        Só que, à última pergunta, eu responderia: Poder, pode. Deve. E tem que poder.
        Whishful thinking? Talvez. Mas qual é a alternativa? Uma gloriosa solidão numa barricada defensiva?
        Abraço.

  4. A.Silva diz:

    A alternativa é já hoje, a cada instante, lutar contra esta politica de cavacos e sócrates!
    Derrotados???
    Só os que desistem!

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