Quem tem medo de LOUIS-FERDINAND CÉLINE?? É proibido assinalar o cinquentenário da sua morte – e a França não tem vergonha de tratar assim um dos seus maiores?? A quem se faz este frete?? Porquê??

Frédéric Mitterrand retire Céline des célébrations nationales

Afin de mettre un terme à la polémique, le ministre de la culture Frédéric Mitterrand a annoncé vendredi 21 janvier le retrait du recueil des célébrations nationales 2011 de l’écrivain Louis-Ferdinand Céline. La présence de l’auteur, antisémite notoire, dans ces célébrations avait suscité l’indignation de Serge Klarsfeld, président de l’Association des fils et filles de déportés juifs de France. Céline, mort il y a cinquante ans, figurait dans le recueil aux côtés de Blaise Cendrars, Franz Liszt, André Leroi-Gourhan ou encore Georges Pompidou.

UNE INFLEXION “PLEINEMENT ASSUMÉE”

“Après mûre réflexion, et non sous le coup de l’émotion, j’ai décidé de ne pas faire figurer Céline dans les célébrations nationales”, a indiqué M. Mitterrand vendredi soir. “Ce n’est en aucun cas un désaveu à l’égard du Haut Comité [chargé d’établir la liste des personnalités] mais (…) une inflexion que j’assume pleinement”, a-t-il ajouté. Auteur du Voyage au bout de la nuit ou encore de Mort à crédit, Louis-Ferdinand Céline a également rédigé plusieurs pamphlets violemment antisémites.

Peu après cette annonce, M. Klarsfeld a exprimé son “très grand soulagement”. “Oui, c’est un très grand soulagement”, a-t-il commenté au micro de RTL. “Je félicite Frédéric Mitterrand d’avoir eu le courage de désavouer ceux qui, dans son ministère, ont accepté que Céline figure dans ce recueil”, a-t-il déclaré.

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30 respostas a Quem tem medo de LOUIS-FERDINAND CÉLINE?? É proibido assinalar o cinquentenário da sua morte – e a França não tem vergonha de tratar assim um dos seus maiores?? A quem se faz este frete?? Porquê??

  1. Von diz:

    Enquanto lutou pela França, foi útil, depois… A hipocrisia sempre presente. Mesmo se anti-semitismo, como qualquer anti, seja uma forma demasiado estreita de ser e de estar.

  2. joão viegas diz:

    A polémica é estupida e não me surpreende que se lhe dê eco por estas bandas.

    Leiam Céline. Ponto. Paragrafo.

    As celebrações não têm nada a ver com o assunto, nem lhe acrescentam, nem alias lhe retiram, nada, nem uma atomo que seja.

    Não percam tempo. Fechem o computador e leiam Céline. Porque assim de repente, quando vejo que estão aqui a perder tempo (como eu de resto) a ler as asneiras do camarada Vidal, fico com a ideia que estão convencidos que têm tempo a perder.

    Se ainda não leram o Céline, não têm.

    Ponto.

    Paragrafo.

    Ou antes três pontos e, para culminar, um de exclamação !

    • Carlos Vidal diz:

      A polémica não é estúpida, seu tosco.
      E eu não esgrimi grandes argumentos. Precisamente porque a escrita do homem diz tudo.
      Não esgrimi nada (portanto é imbecil falar-se nas “asneiras do camarada Vidal”), citei um texto do Monde e um excerto da “Viagem”.
      Desopile.

  3. rui david diz:

    aqui estou de acordo. grande escritor, sem dúvida. mas… quem no seu prefeito juízo se indignará que um regime moralmente podre renegue um herói deste calibre?
    parece que a gente mais antisistema não dispensa o reconhecimentozinho do establishment que tanto verberam. é essa a fonte de toda a corrupção e de todas as ditaduras?

  4. Um dos seus maiores? o seu maior, digo eu, tão grande que não cabe em França alguma. Cambada de colaboracionistas escondidos atrás de uma Resistência muito menor do que tentaram vender. O François Mitterrand, colaboracionista tantos anos omitido, esse continuará a ter as festividades nacionais. Canalhas.

    • Carlos Vidal diz:

      É uma grande e enorme verdade: a celebração e a admiração pelo Mitterrand, essa sim, é abjecta: o homenzinho foi colaboracionista e petanista quando isso representava o poder; e socialista também para representar e chegar ao poder. Em suma, fui tudo o que era preciso para ser tudo o que era preciso.
      Se comemorarem Mitterrand, façam pois o favor de não comemorarem Céline!
      Canalhas, digo também eu, meu caro.

  5. miguel serras pereira diz:

    Seja-me permitido ceder por um momento ao demónio da analogia.

    Gadamer – citado por Steiner: “Heidegger era um grande filósofo, mas um homem muito pequeno”.

    (GS é autor de algumas breves, mas bastante recomendáveis, reflexões sobre Céline.)

    msp

    • Carlos Vidal diz:

      Vamos ver, meu caro, essa do grande artista e criador e “homem pequeno” pode ser certa, mas frequente, muito frequente.
      Tão frequente que até nos obriga a rever o que é isso de um “homem pequeno”.
      (E Ratzinger, como o classifica? Já agora…..)

      CV

      • miguel serras pereira diz:

        Ratzinger? Um autor apologético, erudito, mas desinteressante, procurando promover-se como príncipe da igreja prestando-se ao papel de conselheiro áulico e intermediário das cabeças coroadas do império.
        Mas não me tome por tão sectário que não reconheça a grandeza de pensadores católicos contemporâneos importantes. Para não ir mais longe, sou um leitor contumaz de Alasdair MacIntyre. Do lado protestante, continuo fiel a Tillich e não dispenso Ellul.
        Mais fundamentalmente, não subestimo a questão religiosa ou a encruzilhada teológica, como lhe chamei, que ocupa um lugar decisivo no pensamento da criação (não apenas, mas também poética e artística) em três dos meus autores de cabeceira: Eduardo Lourenço, Cornelius Castoriadis e George Steiner.
        Agora, um sumo-sacerdote dos idolátricos bezerros do Estado? O energúmeno sábio que opõe o esplendor da verdade já sabida ao da liberdade sempre a ser?
        Que pachorra, CV, a sua. Não lhe conhecia esse traço.

        msp

        • Carlos Vidal diz:

          Mas o meu caro tem razão no que diz: V. procura autores que inovem, que tragam novas leituras, que desconstruam (como diria Nancy) o dogma.
          E não consegue mesmo pensar em autores que tenham linhas contrárias? Que não inovem, que zelem, que guardem o espólio; em suma, conservadores reaccionários que persistam numa via irredutível contra tudo e todos.
          Pense por exemplo, no final do século XIX, na pintura “pompier”. Ratzinger é um pouco melhor, até.

          • miguel serras pereira diz:

            O problema da “conservação” é interessante na medida em que remete para a salvaguarda das condições da criação e para a recordação (voltar a trazer ao coração) que descongela ou desentaipa a criação do passado, ressuscitando-a como singularidade e “instante”.
            Mas trata-se de qualquer coisa que nada ou pouco tem a ver com o entesauramento ou sacralização de uma tradição que verdadeiramente queiramos que nos interpele ao mesmo tempo que a interpelamos. Esta dupla interpelação, inseparável da auto-interrogação política que é uma dimensão instituinte da democracia bem como do diálogo da alma consigo própria da reflexão individual responsável, previne-nos também contra o culto da novidade cosmética e da inovação pela inovação desencarnada, contra o anything goes dos pós-modernismos, multiculturalismos e pluralismos identitários vários e da sua servidão epilogal e niilista satisfeita.
            De resto, os autores que cito acima, todos eles, cada um a seu modo, valorizam a historicidade inexaurível pelo conceito e a afinidade – ou bem mais do que isso, afinal – entre a auto-interrogação mediada pela “tradição”, por um lado, e a criação, por outro.

            msp

          • Carlos Vidal diz:

            Mas é isso precisamente que eu NÃO procuro: alguém que interpele, que abra, que alargue.
            É preciso também saber ler e conhecer um autor que circunscreva o dogma, o preserve, o racionalize como dogma. Se quiser este Ratzinger é um paradoxo curioso, e sem sofismas de interpelações e liberdades dialogais: o seu projecto é, estou em crer, racionalizar o dogma, mas enquanto dogma.
            Depois, repare, o seu conservadorismo é o ideal para você, meu caro, perceber a mais ideologicamente (que não esteticamente) conservadora da arte pictórica: a da contra-reforma.

            Arrebatadora e enlouquecida: Murillo, Zurbarán, Ribera. Mas o homem é um tudo nada ainda mais perverso. Uma vez em Madrid, no Prado, tentaram mostrar-lhe, de novo, tudo isso. Simpaticamente, o alemão pediu antes para lhe levarem às salas de Goya.
            A figura não é assim tão chã e previsível.
            De qualquer modo, apenas o cito quando estudo a pintura que vejo que ele me pode “guiar” como conservador, um conservador com alguma sofisticação.
            (Terá sido nazi como Schmitt, uma vez que no “Vias” V. me pergunta o que é que uma coisa tem a ver com a outra, o que é que um homem tem a ver com o outro??)
            Cumprimentos, e espero ter-me feito entender.
            CV

  6. António Figueira diz:

    Estou-me a marimbar para este cinquentenário – estou-me a marimbar para todos os cinquentenários, na verdade – mas detesto Céline: leiam-no e detestem-no, é o que eu desejo, porque a ideologia celiniana é desprezível.

    • joão viegas diz:

      O meu amigo enganou-se, ou leu apenas os tristes panfletos antisemitas cujo valor literario é de facto igual a zero e que ainda bem não se publicam mais (apesar de eu ser contra qualquer tipo de censura, neste caso particular, acho que é uma ideia feliz).

      Tirando esses escritos menores, se viu alguma coisa parecida com uma “ideologia celiniana”, por exemplo no Voyage, ou em Morte a Crédito, ou ainda no inultrapassavel Nord, então deve ter enfiado o barrete nalguma livraria de segunda mão, onde lhe venderam um livro qualquer clandestino que circulou dessa maneira. Guarde-o bem, pode vir a ser uma peça de museu.

      Mas, por favor, compre (e leia) um verdadeiro livro de Céline. Morte a crédito, por exemplo, com excelente tradução de Luisa Neto Jorge. Ou então comece pelo Voyage, com a espectacular personagem de Robinson, e com os Franceses colonialistas em Africa, e com as partes em que ele é médico nos suburbios.

      A sério, vai ver que não se arrepende…

      E depois de ler, indique-me um so prosador francês do século XX que lhe chegue aos calcanhares (tirando talvez Proust).

      • António Figueira diz:

        João Viegas,
        Obrigado pelo seu comentário. Vou deitar fora todos os barretes que enfiei em livrarias de segunda mão, onde me venderam livros clandestinos (que não obstante vou guardar, pois podem vir a tornar-se peças de museu) e comprar (e ler!) todos os livros que diz; tenho a certeza que não me vou arrepender.
        Um grande bem-haja, AF

        • Carlos Vidal diz:

          António,
          O capítulo 6 de “Pouvoirs de l’horreur”, da Kristeva, é dedicado a Céline.
          Céline tem como ideologia, resumindo, a convicção de que um ser é um cadáver em potência. Mais: ele acredita que o ser não é mais do que morte e horror. Poderá aí o escritor dizer: abjecciono-me, porque estou em perda / falha / desejo / carência permanente – é-se sempre irredutivelmente um cadáver em potência.
          No citado capítulo 6, Kristeva, partindo destes termos em que coloco a questão, mostra-nos o que encontramos em Proust, Sade, Mallarmé, Lautréamont ou Artaud que nos tranquiliza, na escrita, na linguagem, nas suas elipses. E mostra-nos que nada disso há em Céline; nele há:
          – horror, náusea e riso; apocalipse e carnaval.
          É esta a ideologia de Céline que desprezas?
          (Fui reler a Kristeva, já há muito quer não a lia.)

          • António Figueira diz:

            Ó Carlos, eu arrumo os livrinhos da Kristeva ao lado dos do Bhabha… 🙂
            Não: abomino o individualismo radical, a denegação da solidariedade e da comunidade, a resignação ao fado social entendido como um puro produto da condição humana, a revolta sem sentido e, no limite, sem causa.

          • Renato Teixeira diz:

            Uma velha questão essa. Preferimos todos acertar colectivamente do que sozinhos, com ou sem radicalismo, mas aquela, very leninish é verdade, de que é melhor o erro colectivo do que o acerto individual, só me convence quando se tratam de colectividades que têm a humildade, a vontade eclíptica, de fazer melhor sem cometer os erros percebidos em conjunto.

          • joão viegas diz:

            Concordo inteiramente com os meus comentarios e vejo v. exas. muito preocupados com ideologias. Quando lêem Petronio, ou Juvenal (ou Balzac, ou Camilo, etc.) é nisso que vocês pensam ? Se fôr, tratem-se !

            Quanto a mim, admitindo embora que se possa retirar um prazer literario do programa do Bloco de Esquerda, ou do PC, ou do MFA, confesso, burguesmente, que isso não esgota o que procuro quando leio, e que encontro, não so em Céline, mas também em Malaparte, no Léon Bloy ou em Pascoaes (e em Vallès também, e no Aquilino, e no Saramago, claro).

            Literatura, ja ouviram falar ?

            Bem hajam, mas lembrem-se que “on ne fait pas de bonne littérature avec de bons sentiments”…

          • miguel serras pereira diz:

            O CV poderá dizer o que quiser, mas, com notável isenção crítica, sacrificando o seu prazer de se enganar ao seu lado e vencendo o desgosto que lhe causa ter razão do mesmo lado que eu, o AF põe o dedo na ferida. Talvez os seus termos não sejam os mais rigorosos e o ardor que põe no argumento o leve a amalgamar coisas distintas. Nem por isso deixa de assinalar o ressentimento niilista, o ressentimento ensimesmado e auto-complacente, o refocilar na abjecção, que infectam e tornam infecciosa a estética de Céline – organizada em torno da busca obcecada do motivo mais vil, transfigurando em baixeza a própria revolta que esta pode começar por suscitar. O culto da verdade sempre infame, do tanto mais verdadeiro quanto mais infame, a infâmia como critério estético-político – e, se assim quser o CV, também “ontológico” – da “verdade”. Acresce que aqui toda a revolta acaba e se torna assentimento místico perante a infâmia, a expansão ilimitada da degradação, a transformação da própria pele em camisa castanha.

            msp

          • joão viegas diz:

            OK, Caro Miguel,

            Eu percebi o que o AF queria dizer, mas discordo. Estamos a falar de critérios estéticos. Devo renunciar a ler os autores que citei acima antes do parêntesis ? A sério ?

            Num esforço derradeiro e sacrificando à minha propensão para o compromisso, de forma tão caricata que nem peço ao Vidal para se juntar, posso quanto muito conceder uma inversão das proposições :

            Detestem-no, mas leiam-no !

            E sim, isso significa que a beleza autêntica pode viver com a abjecção. Aceito perfeitamente isso…

            Um perigoso esteta, e um deviacionista, eis o que sou. So espero que no manicomio tenham varias celas, para eu não ficar na mesma que o Vidal (ou então, eu é que escolho as interpretações de Malher)…

            Abraços…

    • Rivera diz:

      Celine era um miseravel colaboracionista. A unica medalha que mereceria era o chumbo das balas.

      • Carlos Vidal diz:

        António Figueira,
        Como diria o meu amigo Jecta, Kristeva ou Bhabha, é um problema “nominaleiro” (uma brincalhona referência a Duchamp), o que conta é aquilo que os seus textos dizem, nos dizem.
        Por acaso, Kristeva leio e releio, Bhabha não.

        Quanto à, por assim dizer, “ideologia” de Céline e o seu chafurdar na abjecção: nada do que ele nos diz inexiste, repito.
        O que há de desprezível não é na sua “ideologia”, é no seu acto de espelhar algo que pode ou não ser desprezível.

        Ele espelha, não produz.

        De outro modo, é um mensageiro, não é a mensagem.
        Acho esta diferença fulcral.

    • Carlos Vidal diz:

      Há ali um desencanto, uma leitura abjeccionista da vida…, que eu não lhe chamaria “desprezível”. Outra coisa, é preciso chamar-lhe outra coisa.
      O que ele, Céline, viu, meu caro, não é inexistente.

      Como quando falamos de Cioran.
      Aquilo é ontológico e não propriamente antropológico.
      É duro, mas é assim.
      (Quanto ao cinquentenário, claro, também não preciso das festas para nada.)

      • António Figueira diz:

        Abjeccionista, claro, mas abjecta também; Céline não se limita a pintar a podridão, ele prega, ele propugna a podridão; eu não me revejo apenas nos heróis luminosos e solares da literatura “positiva”, mas repugna-me o nihilismo dele, com que facilidade eu vejo o Bardamu com uma farda castanha (ou azul, da Milícia, sei lá…)

  7. estás a passar por um processo de redenção pela terra, ainda te vai aparecer o grande autor Moser Hess.

  8. miguel serras pereira diz:

    CV,

    1. “É preciso também saber ler e conhecer um autor que circunscreva o dogma, o preserve, o racionalize como dogma”. Curioso projecto, mas mostre-me, por favor, como se racionaliza o dogma sem o relativizar ou desdogmatizar. É a razão que observo quando justifico racionalmente o que o dogma decretava. E chame-lhe diálogo ou não, essa razão solicita ser ouvida, respondida, retomada.
    2. Não é tudo a mesma coisa: se o Ratzinger foi nazi em adolescente ou jovem adulto, deixou por certo de o ser muito cedo. Hoje, o seu pensamento é o de um progressista, de um arrependido do aggiornamento, sob certos aspectos próximo do corporativismo autoritário, antiliberal e, mais ainda, antidemocrático, mas não nazi nem racista. O princípio do Führer e o decisionismo são-lhe doutrinariamente estranhos – é um conservador institucional. Se há uma espécie de fascismo no seu horizonte, é do tipo do de Salazar ou Franco. Etc.
    3. Parece que o António Figueira prefere – em francês – errar consigo do que ter razão comigo. Mas, no caso de Céline, vê quase bem contra si. Quase, porque a leitura do homem é preciosa para quem queira compreender a força de sedução do fascismo, a mobilização da revolta em benefício da ordem do princípio hierárquico (como quer o João Bernardo nos seus Labirintos) . E/ou, como diria Lukacs, as suas raízes na vida quotidiana.

    msp

  9. Estou sempre a referir o mesmo, o valor moral do compartilhar, a tal virtude que presenteia. Ódios por ódios, então que venha a morte à Dianoia, ao Racional e ao Pensamento.

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