CÉLINE (2): quem mais escreveria assim e nos retrataria? E ainda por cima Sarkozy é uma coisa que existe!!

«E o pior é pensar onde havemos de arranjar forças para no dia seguinte continuar a fazer o que fizemos na véspera e ainda em tantos outros dias já passados, onde encontraremos forças para tantas diligências imbecis, para mil e um projectos que não conduzem a nada, para as tentativas de vencer uma acabrunhante necessidade, tentativas que acabam sempre por abortar, e tudo isso para nos capacitarmos uma vez mais de que o destino é imutável e que o melhor é conformarmo-nos em ter de cair todas as noites da muralha abaixo, sob a angústia desse dia seguinte, sempre mais instável e sórdido.

É talvez a idade que surge, traidora, e nos ameaça com o pior. Já não existe dentro de cada um de nós música suficiente para fazer dançar a vida, aí está. Toda a juventude nos abandonou para ir morrer no fim do mundo, num silêncio de verdade. Para onde ir agora, pergunto, depois de não possuirmos em nós a soma bastante de delírio? A verdade é uma agonia sem fim. A verdade deste mundo é a morte. Precisamos escolher: mentir ou morrer.»

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6 respostas a CÉLINE (2): quem mais escreveria assim e nos retrataria? E ainda por cima Sarkozy é uma coisa que existe!!

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  2. rui david diz:

    eis um gajo irremediavelmente sincero. Colaboracionista, antisemita e nazi (bom, nazi é forte demais, é quase como os pides, nunca existiram, limitou-se a preconizar medidas que eles seguiram, não vamos agora culpabilizá-o…). Um bom exemplo, este gajo. Sincero. Não sei porquê, não morreu cedo. Terá meditado nisto quando estava refugiado na Alemanha nazi fugindo das horrendas hordas do imperialismo americano (e demais reaccionários)?

    • Precisamente: Céline demonstra que se pode ter sido antisemita, e um bocadinho mais colaboracionista que a maioria dos franceses durante a ocupação, e escrever o(s) livro(s) do séc. XX.
      É certo que há mais exemplos, na poesia sobretudo, mas Céline é como dizia o João César Monteiro a pedra de toque para distinguir um gajo de esquerda de um idiota de esquerda, tipo palavra mágica: CÉLINE!
      E os idiotas assumem-se com o dedinho apontado para o antisemitismo, patati patatá.
      Se o tivessem lido talvez ficassem quietinhos, que é o mínimo aceitável.
      Haja pachorra.

      • Carlos Vidal diz:

        Subscrevo.
        Aplaudo.
        E ainda bem que volto a ouvir aquilo que disse o João César Monteiro, esquecido que eu estava dessa belíssima diferenciação.

        • rui david diz:

          uma pessoa pode fazer o que quiser com as palavras do César Monteiro desde que se cinja ao que está em causa. e o que está em causa não é o talento literário do Celine, pretexto da tal distinção aqui trazida a despropósito, são as opiniões dele. E as opiniões dele são as de um fascistóide, com César Monteiro a apadrinhar ou sem César Monteiro.

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