Ainda a questão do “patriotismo” e da “esquerda” e Toni Negri – Negri mente com todos os dentes e o seu projecto é o de apaziguar e anular todos os focos de conflitualidade humana, social e política (e o Zé Neves não percebeu isso)

(Menos por aqui….)

(…. e muito mais por aqui)

Parece que posso estar a chegar com algum atraso à discussão, que tem passado pelo 5dias e, sobretudo, pelo “Vias de Facto” (este com intenções “teóricas” muito claras: não de discutir tema nenhum – cosmopolitismo, internacionalismo ou nacionalismo -, mas de atacar as palavras de ordem do PCP e tudo o que lhe diga respeito, como sempre), dizia eu discussão que tem passado pelo 5dias e pelo “Vias de Facto” sobre o tema da relação entre, digamos, a emancipação dos povos oprimidos e a importância do patriotismo ou da nação como espaço onde se tecem laços nesse sentido libertador, algo que o “internacionalismo” de um Zé Neves, entre outros (mas Neves muitos furos abaixo de Noronha – um abraço, camarada, pois na tua discussão com Manuel Gusmão ainda valorizas o confronto entre operários e exploradores), tem viciado e inviabilizado.
Neves começa, por seu lado, esta discussão com um ataque à nação e uma muito suspeita e (estranha, bizarra, absurda) concomitante valorização do Estado. Vá lá perceber-se isto.
Escreveu: “a minha posição sobre a chamada questão basca é esta: 1) havendo quem o reivindique (e há e não são poucos), um comunista não-patriota deve apoiar a realização de um referendo sobre a autodeterminação do País Basco; 2) nesse referendo um comunista não-patriota deve fazer campanha contra a autodeterminação nacional do País Basco.”

1. O Império não tem limites, mas nos limites da nação ainda tudo se está a passar (e Negri não vê!)

Bom, eu parece-me que Z. Neves está a meter-se numa discussão para a qual não está suficientemente acautelado, mesmo que tenha dispendido algum do seu tempo académico nestas questões (não sei se o fez, não estou certo, e esse não é o tema deste meu post). É óbvio que Neves aqui pensa muito pouco pela sua cabeça, como Negri também o faz (repito, muito pouco pela sua cabeça), pois enquanto Neves segue Negri (que se limita a constatar arbitrariamente o fim do ciclo do estado-nação), este, Negri, vê os estudos pós-coloniais como sintoma da chegada do Império, destacando uma figura que há uns tempos me interessou, hoje muito menos ou nada, o orador dos ricos de Davos, Homi Bhabha (ver Empire, 2.4 “Symptoms of Passage”). Ora, as reservas que Negri/Hardt colocam em relação às ferramentas pós-coloniais (que, apesar disso, consideram fundamentais) não são suficientes, pois é preciso ir mais longe e afirmar: a conflitualidade colonial ainda não chegou ao pós-colonialismo. Não há nenhuma forma nova de soberania, srs. Negri/Hardt, o edifício colonial ainda está praticamente intacto. E o imperialismo também: mostram-nos, precisamente, os “subaltern studies”.
Numa outra passagem, invoca então Neves os “subaltern studies” e também aqui eu não estou certo de que ele saiba exactamente do que e de quem está a falar, pois nunca o vi reflectir sobre as obras essenciais de um Ranajit Guha, um dos fundadores do movimento, por exemplo através do livro Dominance Without Hegemony: History and Power in Colonial Índia (1997), onde se tecem muito originais argumentos sobre as relações entre metrópole e colónia no contexto específico dos libertos estados asiáticos do sul.
Mostra Guha como na Índia, por exemplo, a potência colonial, hegemónica, exerceu domínio através da persuasão e não da coacção (permitindo a emergência de uma burguesia e de uma elite mimética). Enquanto tal, na colónia, não-hegemónica portanto, se praticava (pratica) o poder através da coacção, pois a elite governante sempre recusou a integração das camadas populares. Guha chama à colónia (ou ex-colónia) um espaço de “dominação sem hegemonia”. Portanto, citar os “subaltern studies”, caro Neves, e o programa de Negri/Hardt é uma contradição nos termos. Pois dizem estes autores que o clássico e antigo poder Imperial (o imperialismo) fundado na força militar e no capitalismo industrial, numa antiga conjugação fortemente centralizada (em categorias como nação, metrópole, colónia, etc.), transformou-se numa nova rede de forças de poder, simultânea ao declínio do estado-nação e à força de organismos supranacionais. Ignoram, portanto, Negri/Hardt as tensões internas à nação, precipitada ou oportunisticamente fazem o funeral do estado-nação e das “pátrias”, quando estas não se hibridizaram por completo nas suas contradições, como quer o autor por Negri/Hardt citado, Homi Bhabha. Mas qual é o programa ideológico de Bhabha, que não estou certo de Z. Neves o conhecer lá muito bem? (E atenção, não é tão diferente do de Negri/Hardt quanto estes o querem fazer parecer.)
É, nem mais nem menos, que o de substituir as conflitualidades sociais e políticas de sempre por uma nova “harmonia” inter-étnica, inter-classista em múltiplos e crescentes in-between spaces. Este foi também o programa de Negri, o mais inconstante pensador da esquerda europeia desde os anos 60 (que já andou de Marco Panella até ao PSF !!), quando participou em comícios do PSF (Partido Socialista de França) a favor do último referendo europeu. E que nos diz pois este herói de Negri/Hardt, Homi Bhabha, por exemplo no seu único livro, The Location of Culture (1994 – e porque é que este projecto está esgotado desde 94??)?

2. A multidão (ou multitude – é diferente Z. Neves!) não se opõe às classes, mas apazigua os seus conflitos, anula-os, pretende-os inexistentes

Olhemos mais de perto The Location of Culture. Sugere-se aqui a necessidade de superar as antigas subjectividades (ainda não hibridizadas), ou seja, deixaríamos, em Bhabha e em Negri/Hardt, de nos enquadrar em molduras de classe e género (ora lá está, os conflitos de classe “morreram”, como morreu a “soberania moderna”), pois nas fronteiras dos novos espaços identitários há constantes processos de “negociação”, “narração” (a linguagem liberta-nos) ou “ambivalências”: a construção cultural e a identidade é performativa, continua Bhabha, e as diferenciações geram novos espaços intersticiais (in-between spaces), contingentes – onde reinam as “pequenas diferenças” ou a “diferenciação das diferenças” – pretendendo Bhabha fazer-nos crer que toda a conflitualidade cultural, política ou social se resolve com uma boa “negociação” e “tradução”, fazendo-me recordar o que Sloterdijk dizia de Habermas — o pensador dos “consensos”, que julgava poder resolver conflitos com uma boa conversa de café (com a sua “acção comunicativa”, nomeadamente).
Contudo, o pós-colonialismo ou o pós-nacionalismo de Bhabha é um poço de impasses. Por tal, é que têm (!!) de existir ETA ou FARC, reivindicativa a primeira, de autodefesa a segunda.
E, finalmente, deixo-vos com uma lista de temas que constitui esta agenda de discussão (que muito oportunamente Francisco Lopes veio pôr, a seu modo, em cena): nação, pátria, Outro, identidade, alteridade, diferença, diversidade, singularidade, enraizamento, cosmopolitismo, mestiçagens, comunidade, hibridação, fronteira, multiculturalismo, subalternidade, pós-colonialismo, pós-nacionalismo, Império, estado-nação, imperialismo, racismo, xenofobia, nacionalismo… Só uma reflexão e um estudo das interligações entre estes temas permite compreender minimamente a problemática da relação entre a esquerda e o patriotismo, para não se afirmar gratuitamente o que Z. Neves tem vindo a dizer sobre o caso basco (e nacional).

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6 respostas a Ainda a questão do “patriotismo” e da “esquerda” e Toni Negri – Negri mente com todos os dentes e o seu projecto é o de apaziguar e anular todos os focos de conflitualidade humana, social e política (e o Zé Neves não percebeu isso)

  1. Renato Teixeira diz:

    Foda-se! Tardou mas rebentou.

    • Carlos Vidal diz:

      Calma Renato.
      Apesar de tudo o que eu aqui citei, de Negri aos “subaltern studies”, terem sido matérias referidas pelo Zé Neves, duvido que ele queira prolongar esta conversa.

  2. rui david diz:

    o ministério da cultura, se fosse sério, organizava um semináriozinho com o negri e o hardt para que o vidal lhes explicasse estas questões tão simples e básicas.
    O local poderia ser um sítio neutro, como Havana ou o lago Como.
    O Zé Neves escusava de ir, assistia por video conferência, que nesta época de crise há que fazer poupanças.

  3. António Figueira diz:

    Também perdes tempo com o Homi Bhabha?
    God gracious, what a waste of time!

    • Carlos Vidal diz:

      Eu disse que perdia, não disse que perco.

      Nos 90s, por curiosidade (acho que em 95 ou 96, depois vejo melhor), ele veio conferenciar a Cascais (uma Bienal da Utopia) com um ensaísta e crítico que sempre foi uma referência, minha e de muitos: o Benjamin H. D. Buchloh.
      Falou um, depois falou outro.
      Ao Buchloh acompanhei-o mesmo depois da conferência: gravámos uma longa entrevista e conversa (ver no meu livro ed. Celta, “A Representação da Vanguarda”). Passeámos por Lisboa, ele e a notável mulher, Catherine De Zegher.

      O Bhabha não me interessou mais. Mas tem ainda muitos “fãs” (Gulbenkian, Culturgest, alguns colegas e amigos meus…).
      Nessa altura, Bhabha, Spivak, Clifford, Mioshi (Said é muito anterior e muito superior!!), contavam. Mais até do que Stuart Hall.
      Pareciam explicar uma visualização acrescida (mas sempre suspeita, digamos, neocolonial, paternalista) de imprevistas geografias no artworld: América Latina, sobretudo Cuba e Brasil, África (esta deve-se mais ao Enwezor) ou Ásia.
      Mas fica sempre a questão, a que Bhabha foge (claro): novas imagens ou lubrificação do mercado??

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