O voto é a arma do povo, quando a decide usar

Ao contrário da questão em torno da compra/venda das acções da SLN, a alegada fuga de Cavaco ao pagamento de IVA ou de SISA terá pouca relevância criminal, até porque os casos estarão prescritos, ainda que enorme relevância política.
Partindo do princípio que Cavaco é inocente devemos entender a mensagem que paira. Cavaco é detentor do mais alto cargo público e sente-se alvo de uma “campanha suja” para descredibilizar a sua imagem, até aqui está no seu direito de o declarar. Contudo, exactamente por ser detentor do mais alto cargo público, tem o dever de tudo esclarecer e documentar. Cavaco é o principal interessado em, publicamente demonstrar que existe uma escritura, que foi feita uma avaliação das vivendas da Gaivota Azul e da Mariani que revelava terem valores similarmente reduzidos ou que a obra não se encontrava embargada pois é detentora de licença de habitação.
Tal como Sócrates, e partindo do princípio que ambos são inocentes e nada têm a esconder, Cavaco refugiou-se na ideia de tudo isto ser parte de uma campanha à qual não tinha nada de responder, o que levanta um problema político. O orgulho de Sócrates e Cavaco que os leva a não responder faz com que transpire para a sociedade a ideia que, neste caso, o Presidente da República poderá ter fugido ao IVA e à SISA e terá andado a contornar os procedimentos no licenciamento da sua própria casa. A consequência que se generaliza é que só se paga IVA ou declara o valor total da escritura por estupidez, se até o Presidente da República não liga a demonstrar que pagou todos os impostos que lhe eram devidos. Isto para não falar nas consequências que provoca em toda a estrutura de poder do Estado. Se Cavaco aceitou comprar acções da SLN a um preço estranho, porque é que um vereador não poderá aceitar que uma empresa lhe ofereça uma viagem para ir caçar à Hungria?
Ou seja, partindo do princípio que Cavaco e Sócrates estão inocentes, a mensagem política que fazem passar põe em causa a democracia e o Estado.
Isso remete-nos para uma segunda questão. A vitória de Sócrates nas legislativas passadas e a provável vitória de Cavaco amanhã, coloca a questão política num plano ainda mais preocupante. Apesar do povo não poder ter a certeza se está a votar em pessoas sérias, prefere deixa-las estar.

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3 respostas a O voto é a arma do povo, quando a decide usar

  1. Antónimo diz:

    Sisa, pá! (meto o ! pq andam aí uns loucos nabokovianos – e defensores da literatura que não se empenha apenas pq sim – que acham que este sinal deve ser expurgado da escrita). pqp.

  2. rui david diz:

    Mas então, a ideia não é destruir a democracia (a burguesa, claro) e o Estado (o burguês, é evidente) ? Sendo assim, criticar Sócrates e Cavaco porque passam uma mensagem política que põe em causa a “democracia” e o “Estado” (atenção às aspazinhas…) é uma atitude do mais patético reformismo reaccionário com a agravante de fazer os dois personagens surgirem aos olhos da classe como potenciais revolucionários.

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