Um homem profundamente devoto

Não, não vou fazer uma resenha (nem minimamente) exaustiva da desgraça crítica de Caravaggio depois da sua morte (ou melhor, da desgraça que começa uns dez ou vinte anos depois da sua morte). Vou apenas falar de alguns autores de que muito gosto (o Bellori é que eu não sei se goste, foi mesmo um tanto infame no seu “Michelangelo da Caravaggio”, em Le Vite, de 1672). Sim, Bellori eivado de malvadez foi dizendo coisas como estas: que Caravaggio praticava uma “arte sem arte”, que dependia do modelo sem conseguir melhorar a natureza (e eu estou convencido que isso influenciou muito o Burckhardt de Der Cicerone: Eine Anleitung Zum Genuss Der Kunstwerke Italiens, quando em 1854 classificou de “vulgar” a obra do nosso lombardo); dizia ainda Bellori que Caravaggio não considerava o decorum (que o arcebispo Borromeo no seu importante De pictura sacra, 1624, acima de tudo considerava), e, pasme-se, inovava sem inventar (consideração que ainda hoje creio difícil de entender). Mas Bellori foi mais longe – dizia que Caravaggio era um homem não recomendável (é falso, a sua época e cidade é que não eram recomendáveis), e que era de temperamento “negro” como as suas obras (pior do que dizer que Picasso mudava de “estilo” quando mudava de amantes).

Ainda para Bellori, o Caravaggio influenciara o modo de Guido Reni e Guercino, e porque influenciava vários artistas isso o tornava egocêntrico (!?). Mas não é em vão que aqui vos falo de Guercino, pois muito o admirou Goethe, que no seu Italienische Reise, de finais do século XVIII, de todos falou (de Mantegna a Ticiano, passando por Guercino, de quem dizia ser a sua Santa Petronilha inultrapassável), mas de Caravaggio fora cego. Curiosamente, Palomino, o biógrafo de Velázquez, relata que ao espanhol chegaram a chamar o “segundo Caravaggio”, mas, quando nos relata as viagens de Don Diego a Itália, nenhuma referência é feita ao lombardo, e sabe-se que da segunda vez que Don Diego passou por Itália tinha “compras” como incumbência e parece-me que de Caravaggio nada comprou.

Como Bellori, creio que Stendhal também dizia Caravaggio ser um “homem doente”. Até que regressamos a Burckhardt, a 1854 e ao Der Cicerone, e à “vulgaridade”. Mas esta consideração é errada, crua e errada. O teólogo Armindo Trevisan tem toda a razão quando nos diz que os modelos proletarizados de Caravaggio nada têm de transgressivo. Eu, leitor de S. Filipe Neri, explico-vos porquê (tentarei). Filipe Neri, fundador da Congregação do Oratório, influente pensador do tempo (que se reclamava herdeiro de Savonarola e de Santo Agostinho), deixou alguns textos dispersos, dos quais um conjunto de pensamentos destinados um para cada dia do ano.

Com data de 13 de Março, recomendava: “O melhor remédio para a secura do espírito, é representarmo-nos sempre, perante Deus e os santos, como mendigos; como mendigos, dirigimo-nos para um santo e depois para outro, pedindo-lhes bálsamos espirituais com a mesma sinceridade que um pobre nas ruas o mesmo a nós nos pede”. Destinado aos dias 19, 20 e 21 de Junho, descrevia Filipe Neri que o mais elevado degrau da vida era a “vida angélica” que correspondia a um estado de contenção e “domesticação” tal que de Deus se recebia a capacidade de nada nos causar repugnância.

Entretanto, depois de escolher como seus seguidores os nobres de alma, e enquanto pescavam, Pedro, André e João, não foi o próprio Cristo escolher Mateus, o cobrador de impostos para os acompanhar? E não foi a Mateus (e aos mendigos de Neri) que Caravaggio dedicou um dos seus mais impressivos conjuntos pictóricos (S. Luís dos Franceses, Roma)? Arguto, Ratzinger sublinha este contraste e fala mesmo de Caravaggio como um dos seus artistas de eleição.

Como é que um génio do pensamento como Jacob Burckhardt não percebeu isto??

( NOTA: se ganhar, como espero, o concurso para o melhor blogger de ESQUERDA quero como prémio as Obras Completas de Ratzinger, criteriosamente editadas em tomos pelas Edições Vento de Leste. Desculpa lá o mau jeito, ó Ricky Noronha, mas o prémio da Vento de Leste não te iria servir de nada – tu nem sabes, em profundidade distinguir uma contradição antagónica de outra não antagónica; além disso, ó Ricky, tu até és um tipo educado e não és maoista! Esquece o concurso – está perdido para ti. )

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