Mais feridas abertas no Bloco de Esquerda – Depois do Tiago, o Sadik. [Off Topic: não querem fazer uma campanha com o PS todos os anos?]

CARTA ABERTA – Aos Militantes, Aderentes e Eleitores do Bloco de Esquerda

“(…) Tomei conhecimento, através do blogue 5dias, da carta de demissão de Tiago Silva. Após uma leitura atenta, concluo que os argumentos por ele apresentados para justificar a sua demissão do partido são merecedores da minha total e absoluta concordância. Assim sendo, venho também eu, por este meio e para que conste, manifestar a minha vontade de deixar de ser considerado enquanto aderente do Bloco de Esquerda, abdicando de todos os direitos e deveres decorrentes da pertença ao mesmo, devendo tal decisão tomar efeito a partir deste momento.”

“(…) Esta decisão que agora tomo, peca então apenas por tardia: sendo eu crítico de anos das orientações políticas da nomenklatura dirigente, admito ter constituído um erro ter passado a fazer, desde que abandonei a militância até este momento, o seu jogo.”

“(…) A evolução do funcionamento orgânico interno do BE não pode, como é óbvio, ser dissociada da evolução da sua política. O Bloco conseguiu, até agora, cavalgar com sucesso a onda de um descontentamento profundo com o estado de coisas na sociedade portuguesa. Apresentou-se, e durante algum tempo foi, algo de diferente quando as pessoas estavam profundamente fartas de não terem escolha que não fosse mais do mesmo. O seu surgimento entusiasmou milhares de jovens que não se identificavam com a política tal como ela lhes surgia, como era o meu caso, como inúmeros menos jovens, entre os quais muitos dos desiludidos pela derrota da promessa revolucionária que constituiu o triunfo do regime novembrista sob o qual vivemos. Hoje, são sem conta os que se sentem que o Bloco lhes falhou.”

“(…) O estado a que chegou o Bloco, no que concerne à sua metodologia de funcionamento interno, assim como às suas reivindicações políticas, tão recuadas para aquilo que se exige na actual conjuntura política e económica, fazem com que considere que manter-me dentro do BE só pode redundar numa capitulação à direcção por passividade, como afirmei anteriormente, ou num quixotesco combate contra moinhos de vento. Decido, portanto, abandonar a organização, o que faço sem nenhuma amargura mas, antes pelo contrário, com enorme entusiasmo e expectativa.”

” (…) As minhas últimas palavras enquanto aderente do BE vão, portanto, para todos os militantes de esquerda anti‑capitalistas e revolucionários que se sentem a mais naquilo que é hoje o Bloco de Esquerda; para todos aqueles que se sentem descontentes e infelizes com o tempo e a energia desperdiçados em batalhas internas; para todos aqueles e aquelas que se sentem desmoralizados por se verem constantemente confrontados com práticas e atitudes caracterizadas com frequência cada vez maior pela sua falta de seriedade, desonestidade e deslealdade; para todos aqueles que sentem que é demasiado tempo e energia para tão reduzidos resultados: não tem que ser assim.”

Sadik S. Habib

[Aderente nº 1894]

Ler a Carta completa na Rubra.

PS: Sadik, como já tinha dito ao Tiago, a luta continua. Como termina a canção: “Quem viver abraçado, à vida que há ao lado, não vai morrer sozinho”. Também poderia citar a outra: “Valeu a pena? Valeu pois!”, mas agora há que seguir caminho que irá seguramente contar com os melhores e mais abnegados militantes, aqueles que sempre foram mais que aderentes e foram ganhos para a política no calor da luta, e hão-de sair, um a um, do Bloco de Esquerda. Aquele abraço.

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15 respostas a Mais feridas abertas no Bloco de Esquerda – Depois do Tiago, o Sadik. [Off Topic: não querem fazer uma campanha com o PS todos os anos?]

  1. Sadik S. Habib diz:

    Camarada

    Claro que continua! Há vida para além do Bloco para quem queira lutar por mudar a vida e transformar o mundo. Por isso disse que parto sem amargura, mas antes com expectativa. O período político que diante nós se abre é demasiado interessante para desperdiçar energias.

    Aquele abraço

  2. CausasPerdidas diz:

    “O Bloco conseguiu, até agora, cavalgar com sucesso a onda de um descontentamento profundo com o estado de coisas na sociedade portuguesa.”
    O Bloco a “cavalgar”, onde é que eu já ouvi isso?

  3. Os senhores reparem nesta, de um sociólogo à la mode de quem eu tive a sorte de ser aluno:
    «O enamoramento é a ‘revoluçao de outubro’, o amor são os sovietes»
    Ou seja, sem movimento a ‘organização’ enquista, apodrece, lutinhas por poleirinhos daqui p’ra lá…
    Sabido.

    Agora, e só p’ra ser um tanto quanto sarcástico, a coisa vai ficar eventualmente reduzida ao ‘padreca’ ex-Lambert, à minorca de Socio ou Antropologia, à gajah das bordadeiras dakela ilha do A.J., àquela demasiado oxigenada com que ninguém já tem ‘fantasias’, ah e provávelmente ao meu ex-amigo Alberto Matos, ele há fanáticos p’ra tudo, podias era voltar p’ra Londres e lavar mais uns pratos, não ?
    O resto vai sair, com a boca no trombone ou em silêncio.
    ‘Tão previsível que até dá vontade de… pois.

    Petit monde… e getting cada vex mais ‘petit’.

  4. Tiago Silva diz:

    Fico muito contente, só espero que a onda alastre depois de Domingo. O gatilho não foi a minha carta, mas sim anos e anos de políticas erradas e de uma intensa caça às bruxas internas. You always rip what you sow. Espero que as saídas se desenvolvam em direcção a uma alternativa, pois da ruptura (não há qualquer trocadilho nisto, lol) advirá a construção de novas estruturas políticas para a transformação da sociedade. Veremos que formas organizativas e moldes de construção elas assumirão.

    • Teixo diz:

      Bons caminhos te apareçam porque os poleiros são cada vez menos.
      Aos zigue-zagues, não vais lá.

      • Tiago Silva diz:

        Por favor, não me confunda com os novos dirigentes jovens do BE, o meu traseiro é impoluto no que toca a poleiros. Se quiser remeto-o a uma pesquisa no google sobre o meu nome, como costuma aconselhar o Fabian Figueiredo.

        • Renato Teixeira diz:

          O Fabian Figueiredo não é impoluto no que toca a poleiros?

          • Tiago Silva diz:

            Eheh, não fui isso que quis dizer, apenas disse que caso o camarada teixo tenha dúvidas em relação ao meu impoluto traseiro, que veja no google se vislumbra em algum poleiro partidário/associativo (longe disso, por sinal, sou demasiado preguiçoso e feio para fazer da política ou o associativismo a minha vida) Esta técnica de fugir aos ataques remetendo para o google foi baseada numa polémica tua e do Fabian, daí a nomeação do mesmo 😛

  5. Mais um na “Esquerda desalinhada”…;) Welcome!!!

  6. Guilha diz:

    Meus caros, o que vocês andam para aí a dizer já eu dizia em 2008 no acampamento do BE de jovens.
    Estão atrasados 2 anos, em relação à minha corrente clandestina maoista. Fui gozado, mas continuo em pé. A história deu-me razão. A cisão está próxima.

  7. Carlos Lamarca diz:

    Tiago e Sadik: sou militante do PCP mas estou sinceramente solidário convosco. Eu também esperava melhor do BE do que as últimas jogadas do Sá Fernandes, o PEC grego e o Alegre. Penso que quando um Partido anticapitalista perde a coerência, perde tudo. Sinceramente solidário também, porque definitivamente preferia ver a esquerda radical a unir-se e emancipar-se da sua dispersão em seitas que era habitual desde 1974. Ouso dizer que BE e PCP poderiam juntar forças tal como muitas vezes o fizeram na luta social, nas lutas sindicais e contra a guerra. Mas para isso é preciso não ceder às tentações do poder fácil branqueando o PS. Felizmente o PCP nisso não cede, tem uma longa história de independência face aos partidos burgueses.
    Acreditem se quiserem, sou sincero, acho que é uma pena ver o BE a naufragar no pântano das cedências e pactos com o PS e o taticismo saloio.
    E estou solidário convosco porque sei que há muita gente no Bloco com quem tenho estado nas lutas sociais, as que realmente importam, nos intervalos das eleições. Todos somos poucos nessas lutas e não dúvido em afirmar que as diferentes ideias e criatividade nessas lutas de massas são grandes mais-valias nos tempos que correm. A luta precisa de todos nós e a construção de alternativas também e há tanto para construir, ainda estamos longe de ter um programa revolucionário à altura dos problemas da nossa época. Atrevo-me a dizer que os que existem ainda são apenas rascunhos.
    Mas a hora é a da luta nas empresas, campos, bairros e ruas. Por essas ruas nos encontraremos na luta contra este capitalismo podre, dentro dos movimentos mais importantes que são os sociais, são esses que fazem os partidos de esquerda e não o contrário.

    • Tiago Silva diz:

      Caro Carlos, da minha parte agradeço imenso a sua solidariedade. No entanto, depreendo que esteja consciente que nenhum partido da esquerda, no panorama actual, está isento de culpas. Ao nível autárquico, por exemplo, verificam-se um sem número de casos em que o PC percorre caminhos análogos ao do Zé, em Lisboa. Poderia apontar outras falhas, por exemplo, ao nível da intervenção sindical e no movimento estudantil onde deparei com graves divergências em relação à linha apresentada pelo PC/JC. Espero que, pelo menos, caso haja uma segunda volta, o PCP mantenha coerência perante a sua classe, ao indicar o sentido de voto, e dizer claramente: nem Alegre, nem Cavaco.

      No entanto, e para contrabalançar isto, digo-lhe que, enquanto militante do BE, sempre ansiei por uma política no sentido da unificação da esquerda anti-capitalista, isto é, BE e PCP, ao nível eleitoral, e uma maior coordenação ao nível das lutas no movimentos. Uma frente de classe, poderíamos lhe chamar. A meu ver, na correlação actual das forças, unidades tácticas deveriam-se sobrepor a divergências estratégicas. Nunca ignorei que fosse um caminho difícil de percorrer, devido aos sectarismos existentes tanto no BE, como no PCP. Não posso responder quanto ao segundo, mas no primeiro, a tendência da direcção sempre foi combater, com argumentos que por vezes evidenciavam um anti-comunismo primário, e apontar para a esquerda do PS, como se a “esquerda grande” anti-capitalista alguma vez pudesse vir daí.

      Enfim, mas dou-lhe toda a razão, vamos continuar a intervir unidos nos movimentos, sempre que possível, potenciá-los e caso se desenvolvam (espero que sim) a ver qual serão as evoluções correlativas, ao nível político/partidário.

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