Não se faz.

Foi grande a comoção provocada pelo que escrevi acerca da repressão policial aos dirigentes e activistas sindicais. A muitos terá doído as afirmações que publiquei sobre o Bloco de Esquerda. E, sinceramente, não se faz. Não se faz porque há, certamente, muitos membros do Bloco de Esquerda que estão solidários com as vítimas da carga policial. Por isso, muitos acusaram-me de infantilismo, demagogia e aproveitamento.

Não se faz. Mas também se faz. Não posso achar que as declarações de Manuel Alegre, ou de qualquer outro dirigente do Partido Socialista, limpem o que fizeram ao longo das últimas três décadas. Foram muitos anos alinhados ao lado do processo contra-revolucionário. Ao lado do capital contra os trabalhadores.

Sei que há muita gente que ainda vê Manuel Alegre a falar do púlpito do Fórum de Esquerdas. E essa mesma gente dá às palavras mais valor que às acções. Talvez por isso não tenham convidado os que dão mais valor a que as acções tenham correspondência nas palavras. São opções. Cada um tem as suas e cada um arca com as consequências dos seus actos.

Não quis dirigir o ataque, em relação à repressão policial, contra o Bloco de Esquerda. Evidentemente, não tem quaisquer responsabilidades no assunto. Mas tem-nas noutras coisas. Que o digam os sorridentes capitalistas gregos que tiveram a solidariedade activa do Bloco de Esquerda. E aos que me acusarem de demagogia, acuso-os de cobardia. Por não abandonarem um partido que fez, nesse momento, ao apoiar a banca grega, uma opção de classe. Acuso-os por não reagirem ao apoio financeiro a bancos portugueses. Acuso-os por não terem vergonha de apoiar o mesmo candidato que um dos partidos de direita, o partido no governo.

Portanto, deixei claro que a responsabilidade da repressão policial era do governo, com a conivência dos partidos de direita e dos seus representados, o capital. Deixei muitas certezas. A certeza de que tanto os trabalhadores como o capital cumpriram o seu papel de classe. E no final deixei uma dúvida. E o Bloco de Esquerda que papel cumpre no actual panorama político? Conseguirá dormir sabendo que apoia o mesmo candidato que uma parte dos coveiros da classe trabalhadora? Dos que lançaram a polícia contra os que lutam?

Realmente, não se faz.

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20 respostas a Não se faz.

  1. Não quiseste “dirigir o ataque, em relação à repressão policial, contra o Bloco de Esquerda”? Quiseste, quiseste. E o que não se faz é deixar sem resposta os comentários ao post inicial e iniciar um novo post tipo fuga para a frente, a ver se o que está escrito no inicial passa ao esquecimento.

    De resto, quanto a capitulações ao capitalismo em nome “do interesse dos trabalhadores” (ou seja, do “interesse do partido”, que para vocês é a mesma coisa), não tem o teu partido a dar lições a ninguém.

    Outro problema, é essa de estar “alinhado no processo contra-revolucionário”. Ora, haver um “processo contra-revolucionário” pressupõe que exista um “processo revolucionário”. Uma vez que o meu “processo revolucionário” não é de certeza o mesmo que o teu (que considero, aliás, contra-revolucionário), posso considerar revolucionário ser contra-revolucionário face ao teu “processo revolucionário”.

    • Bruno Carvalho diz:

      André, este post é, dentro do possível, uma resposta à maioria dos comentários. Ultimamente tenho andado cheio de trabalho e não tenho tido tempo para grandes acessos ao blogue. Como deve compreender, eu trabalho e não posso estar a tempo inteiro à espera dos comentários para os contestar.

      E adoro os teus jogos de palavras para tentar abrilhantar um discurso que não diz nada e que, fundamentalmente, serve para deixar muitas dúvidas. És ou não favorável ao processo revolucionário que se desenvolveu entre 1974 e 1975? As conquistas desse processo foram ou não importantes conquistas para os trabalhadores que foram sendo derrubadas pelos sucessivos governos de direita PS/PSD/CDS? Devemos ou não defender essas conquistas resistindo a esses ataques e tendo como horizonte a construção de uma sociedade socialista?

      • Não é nenhum jogo de palavras. A minha revolução não é a tua. Quanto a 74/75, a minha opinião é que, como em tantos e tantos outros momentos da história do século XX, foi o PCP (ou um seu congénere da III internacional) o responsável principal pela derrota da mesma. Para mim, é tão importante resistir ao capitalismo como livrarmo-nos da armadilha que é o PCP.
        Acresce que nós não concordamos no que seja “socialismo”, nem “capitalismo”, nem “democracia”, nem sequer “esquerda” ou “direita” (o PS, por exemplo, nunca o consideraria de direita). Por isso é que não é fácil estabelecer um diálogo entre nós (mea culpa, fui eu que comecei), tal como nunca é fácil estabelecer pontes entre o PCP e qualquer outra força de esquerda. Podiamos falar aqui das minhas objecções a práticas como a do centralismo democrático e os comportamentos que elas originam, mas sinceramente acho que não vale a pena.
        Isto tudo para dizer que o socialismo que eu defendo não é o teu, pelo ter “como horizonte a construção de uma sociedade socialista” não é um axioma mas algo de problemático nesta discussão, que poderia ser aprofundado se eu achasse que vale a pena (na verdade, não acho).

        • Bruno Carvalho diz:

          Claro, o senhor faz parte do grupo dos que elegem o PCP como principal inimigo e que, ainda assim, se define como anti-capitalista. Os que participavam nesse jogo há 36 anos estão hoje a apoiar o Manuel Alegre, são presidentes da União Europeia, magistrados, ministros, etc. Felizmente, a armadilha continua activa.

          • Bruno, é melhor voltares a estudar. Em primeiro lugar, história, e podes começar pelo comentário do causas perdidas abaixo. Em segundo, e mais importante, lógica: eu não considero o PCP “o inimigo principal”, só a ignorância ou a má-fé de podem levar a concluir isso. O que disse e repito, é que para mim o PCP é um travão na luta anticapitalista, pelo que a sua extinção é um passo em frente nessa luta e não o contrário. Daqui deves deduzir 1) que o mais importante para mim é a luta anticapitalista e 2) uma série de coisas que eu acho sobre o PCP, coisas essas que é de todo impossível discutir contigo.
            E olha que estás muito enganado se achas que os que há 36 anos estavam do meu lado andam agora a encher-se de tachos; alguns andarão, mas também outros nessa altura estavam no teu partido e são agora ministros, assessores, etc., e alguns ainda estão no teu partido e nem por isso deixam de ter belos tachos e belas vidinhas em empresas públicas e municipais (não que isso me incomode assim tanto, o que me incomoda são os falsos moralismos). Mas muitos outros conheço eu cuja postura não mudou. Lá está a chantagem dos “inimigos de classe”, quem está contra o PCP faz o jogo do capital. Não compro essa.
            Repito que o socialismo que defendo não é o teu. Se neste momento estaremos na maior parte dos casos do mesmo lado, se e quando o teu PCP pretender instaurar uma “ditadura do proletariado”, sem respeitar as liberdades civis, a liberdade de expressão, de associação e de reunião, ou a liberdade de constituir partidos políticos, como fez em quase todo os sítios em que pôde, será meu dever pegar em armas contra vocês. O que vale é que não acho que esse dia vá acontecer.
            E desculpa lá o ar superior do “vai estudar”, apeteceu-me ser um bocadinho Vidal.

  2. Carlos Vidal diz:

    Muito bom post.
    Directo.
    Sintético.
    Em momentos como este, devemos escrever assim.
    (E ignorar comentários “carapinhados”!)

  3. paradise café diz:

    “Que o digam os sorridentes capitalistas gregos que tiveram a solidariedade activa do Bloco de Esquerda”. Ó Bruno lá estamos outra vez: eu quero que o bloco se lixe, mas estar num partido como o seu e ter destes discursos só dá para rir e à grande. E o que tem a dizer dos sorridentes capitalistas chineses, a quem o seu partido, apesar de naturalmente não considerar como modelares, vê como bons camaradas que têm como objectivo a sociedade socialista?

    • Bruno Carvalho diz:

      O PCP entende que é importante que a China tenha como objectivo a construção de uma sociedade socialista. Entende que houve grandes avanços civilizacionais e que é um processo que se desenrola num determinado período histórico inserido numa determinada cultura. Contudo, parece-me que o PCP não elege o modelo chinês como um modelo a seguir. Aliás, alerta para grandes perigos. Mas como eu é que sou demagogo…

      • paradise café diz:

        esses grandes “avanços” à custa de mão de obra quase escrava, da proibição de sindicatos… Sim, sem dúvida, grandes avanços civilizacionais, já agora, isso quer dizer o quê? Já agora,Portugal, também tem esse obhectivo na sua constiuição, também teve grandes avanços, que tal aplicar esse modelo de (des)raciocínio a Portugal. Paciência.

        • Bruno Carvalho diz:

          Falo de avanços civilizacionais quando se trata de acabar com o flagelo da fome que vivia uma boa parte da população chinesa e, como sabe, estamos a falar de milhões de pessoas. De resto, eu nem simpatizo muito com o modelo chinês. E sei que a posição do PCP não é aquela que por aí se veicula. É uma posição ponderada e em constante avaliação.

  4. Uma paródia este Vidal. Dar graxa ao camarada e ignorar o que é incómodo: todo um programa de acção política. Está-te no sangue, n’est-ce pas?

  5. puffypuffs diz:

    “Dos que lançaram a polícia contra os que lutam?”

    que memória tão curta…

  6. Teixo diz:

    Bruno Carvalho, um dia o Sr. há-de perceber que encenar palcos de “luta”, com dramas à mistura, cada vez vende menos.
    Hoje, a verdadeira luta, é a denúncia, a troca de experiencia, a informação etc.
    O socialismo assenta na liberdade e não no catecismo do pensamento único.
    Em boa hora abandonei o doutrinamento cassetista, daquela casa sem janelas.

    • Bruno Carvalho diz:

      Ainda bem para si. Fico feliz. Boa sorte pelas bandas do socialismo democrático.

      • José Silva diz:

        É o que faz andarem a argumentar munidos de dicionários diferentes.
        O Bruno usa o materialista enquanto que o teixo adoptou o revisionista neoliberal de esquerda nacionalista centrista das direitas anti-comunistas.
        Capitalismo=sistema que tem que ser reformado, para não ofender demasiado os trabalhadores.
        Socialismo=é quando o sistema capitalista, pós-reformas, já não ofende muito os trabalhadores.
        Comunismo=é um sistema altamente em que impera a anarquia, onde cada um faz o que lhe apetece, mas sem ofender os trabalhadores.
        Vale tudo neste jogo dos significados e significantes.
        É por esta e por outras que domingo vou votar sem ambiguidades, no candidato que defende os interesses da classe social a que pertenço. Que no meu caso é Francisco Lopes.

  7. CausasPerdidas diz:

    Primeiro sugere-se que as deputadas do Bloco não deviam ter estar presentes na manifestação, insinua-se que o apoio a Alegre significa sustentar a carga policial. Acaso, pediu o cartão de partido a todos quantos lá estavam para ver se eram todos ideologicamente puros?
    O mais engraçado é que a crítica vem de quem votou em Eanes, Mário Soares e Sampaio, e que apresentou um candidato contra Otelo quando este, apesar de tudo (eu disse: “apesar”), significava a resistência popular à avalancha da “recuperação capitalista”. Alguém aqui falou em “coveiros”?! Confidencio: eu também fiz campanha por Octávio Pato e, independentemente dos disparates de Otelo, estive errado.
    Lembro-lhe que muitas lutas em Portugal foram feitas não devido mas apesar do PCP, quer que lhe lembra as greves e ocupações “reaccionárias” só porque eram decididas pelos trabalhadores e não pela esclarecida célula do partido? Ou prefere que lhe fale da expulsão de trabalhadores de plenários sindicais apenas porque queriam falar de forma diferente? Ou porque propunham uma greve geral que ainda não havia sido decidida pelo comité central? Eu fi-lo contra Judas, apesar da “avaria” do sistema de som. “Coveiros da classe trabalhadora?” Interessante adjectivo vindo de onde vem!

    O seu ex-camarada Miguel Portas e outros que estão no Bloco passaram de revolucionários proletários a agentes da burguesia quando saíram pela porta do Hotel Vitória? Só para falar de gente por quem não nutro especial simpatia política. Mas não confundo.
    A confusão das opções tácticas com as opções estratégicas, a incapacidade da crítica política sem se aludir à “natureza de classe” do interlocutor – que chega ao ridículo da alusão às profissões das pessoas, anedoticamente proferida por quem saiu da escola para funcionário do partido ou há 30 anos que não põe os pés na empresa. Como se a Classe Trabalhadora fosse uma marca registada do PCP! À falta de outra coisa, recomendo-lhe o”FMI” do Zé Mário – mais um gajo que não presta por não ser do seu partido, né?

    Depois, afinal, é a Grécia, um voto muito discutível dos deputados do Bloco – e que, garanto-lhe pelo que sei, ainda vai ser discutido – conheço gente do Bloco que não se esquece, fazem bem. Outra vez a lama da “natureza de classe”. Como se o facto do PCP ter ficado na cadeira parlamentar o tornasse amigo da coroa espanhola! Ou amigo dos chineses por causa da recepção – bem, neste caso não duvido. Já perguntou aos seus camaradas gregos o que pensam disso, ou será que também estes já mudaram a sua “natureza de classe” ao considerarem a China um país capitalista? Pois. Vai haver uma cisão no movimento comunista por causa disso, à laia das anedotas “trotskistas”?

    Só para esclarecer, o que aqui escrevi fi-lo por respeito aos meus companheiros que são do PCP e estão longe da caricatura que aqui fez… deles. E dos do Bloco, já agora.
    Não percebe porquê? É a Natureza de Classe, pá.

    • Bruno Carvalho diz:

      Coloca questões pertinentes e não o quero deixar sem resposta. Acho que os deputados do Bloco de Esquerda deviam estar presentes na concentração e mostrar-se solidários com os trabalhadores alvos de repressão, como fizeram. Não deviam era andar de mãos dadas com Manuel Alegre, o candidato que o PS arranjou para que seja Cavaco Silva o vencedor. Ou alguém acredita que apresentar Manuel Alegre e Fernando Nobre é uma estratégia para ganhar as eleições?

      Sobre o passado há muito a discutir. Contudo, vivemos o presente e independentemente da análise que façamos ao passado, de lhe dar ou não razão, o que importa é discutir o presente. Nas actuais circunstâncias, depois de um processo revolucionário e de um processo contra-revolucionário, em que o PCP durante décadas adoptou uma postura de resistência e em que o PS não pôde acabar de uma machadada com as conquistas de Abril, apoiar certos candidatos do PS poderia ter feito sentido quando determinados candidatos a presidente da República davam mais garantias que os do PSD.

      Contudo, hoje, no actual momento histórico e nas circunstâncias económicas e políticas que vivemos, a crise brutal do capitalismo conduziu-nos a uma radicalização das práticas e do discurso. O PS foi obrigado a despir as roupagens de esquerda e a assumir às claras as políticas de direita. Não que não o fizesse antes. Mas está, hoje, obrigado a não ceder perante o trabalho. Os próprios trabalhadores estão mais conscientes dos efeitos das políticas de direita e não há grandes diferenças entre o PS e o PSD. Não podemos usar os mesmos critérios para analisar o presente. Tudo avança muito rapidamente. A direita, onde se encontram a família socialista e a família popular, barricam-se para garantir que através desta crise se dê um aumento brutal da exploração e a machadada que arrase com conquistas civilizacionais no âmbito do trabalho.

      Parece mais claro para todos – para o PCP já o era – que os tempos são de luta. Para o capital que terá de atacar e defender e para o trabalho que terá de reorganizar-se e aprofundar a luta. Certamente, é dos que não gostava da URSS. Mas é precisamente por ela ter acabado que andamos no mesmo atoleiro há mais de 20 anos.

  8. Teixo diz:

    Silencio esclarecedor.

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