Patriótico e de esquerda 2

Algumas notas
#1
Sejamos claros: a entrada na cena política mundial do movimento operário é a entrada em cena de um pensamento-acção organizado internacionalmente. Uma terra sem amos é desde o princípio pensada como Internacional. O comunismo só é pensável, enquanto projecto estratégico, como objectivo e horizonte internacional. E desde o princípio também o caminho que seguiu foi o da sua implantação/radicação (trans)nacional. Entre o nacional e o internacional há contradição; mas não contradição lógica e sim dialéctica. A instância nacional é a da maior proximidade entre aqueles que se combatem, aquela em que os operários estão frente a frente com os seus exploradores. É a instância onde se faz imediatamente a aprendizagem da solidariedade que é um dos factores que constitui a classe. Mas é também a instância onde hoje, e em certas circunstâncias, se faz a aprendizagem da ausência do inimigo, do seu rosto em falta, porque se encontra além fronteiras. É o que julgo ser a incontornável importância do local, que se transforma mas não desaparece com a globalização.
#2
Caro NF:
Só haveria circularidade se eu tivesse dito que da existência de um marco nacional das luta de classes se deveria deduzir que o patriotismo da classe operária consistia na defesa do estado-nação ou numa qualquer exaltação nacional. Ora o que se trata de pensar é o movimento pelo qual “o proletariado tem primeiro de conquistar para si a dominação política, de se elevar a classe nacional* (* na edição de 1888: a classe dirigente da nação), de se constituir a si próprio como nação, ele próprio é ainda nacional, mas de modo nenhum no sentido da burguesia. (Marx e Engels no Manifesto)
O proletariado é a classe que tem como missão histórica (que se confunde com o seu ser social e histórico) a realização da sociedade sem classes e portanto a sua superação como classe. O constituir-se ele próprio em nação é um momento intermédio desse processo. Da mesma forma ao realizar a sua emancipação o proletariado tem que emancipar todas as classes oprimidas.
#3
Dito isto, devo conceder-lhe, NF, sem com isso estar a cair em circularidade, que podemos citar uma interessante formulação Marx que cito de cór: “o comunismo não é um dever ser abstracto que queiramos impôr à sociedade, chamamos comunismo ao movimento de revolucionamento do actual estado das coisas”. Marx, que não é de facto um pensador utópico, não perdeu muito tempo a descrever por antecipação a sociedade comunista, o que não quer dizer que nada disse que apontasse na sua direcção.
#4
O lugar pensável da luta por objectivos patrióticos, na teoria e na táctica revolucionárias, é o da definição da política de alianças. Que tem como sujeito (não psicológico), se aceitarmos falar assim, a classe operária. Através da política de alianças a classe operária luta para se constituir a si própria em nação, para hegemonizar o bloco social, acumular forças, e o conduzir na luta.
Ricardo Noronha:
é a isto que você chama esconjurar a classe e esconjurar o comunismo? (“nesse sentido, a «pátria» surge aqui como uma outra forma de esconjurar o comunismo, a abolição do trabalhado assalariado e da propriedade privada”). Este esconjuro só pode ser uma caracterização do oportunismo de direita; mas ao considerar esta uma verdade universal, condenando toda e qualquer política de alianças, como enfraquecimento da classe, torna-se o sintoma de um outro tipo de oportunismo, agora de “esquerda”.
Nf: quando acima digo que a questão é basicamente a da definição de uma política de alianças, de uma política cuja definição é uma questão táctica que se altera na própria luta e de acordo com as fases de um processo revolucionário, estou implicitamente a dizer que não se trata de construir um mito nacional ou a substancializar um povo.
#5.
Ricardo Noronha diz com clareza qual a verdadeira divergência que justifica tanta canseira argumentativa e tanta habilidade retórica, é que “a hipótese de uma pátria independente e soberana como lugar da emancipação se tornou uma miragem. E uma miragem particularmente perniciosa, na medida em que atrasa, entrava, dificulta, uma das tarefas fundamentais do momento: a coordenação das lutas a uma escala internacional”. Só que para as lutas serem coordenadas tem que as haver. Pode responder-me que as lutas serão internacionais desde o seu lançamento. Mas é no marco nacional que as temos visto desenvolverem-se impetuosamente. É no marco nacional que as massas e a classe descobrem e inventam (para começar) o apelo à internacionalização. Lembram-se do pano colocado na acrópole por militantes do PC grego apelando aos povos da Europa para que se erguessem. Só as lutas e a acumulação de forças a nível nacional, darão conteúdo e imporão a coordenação internacional. Mas sobretudo nada impede que ao mesmo tempo se trabalhe pacientemente para unificar pensamentos e análises, coordenar acções e lutas. Pelo contrário, veja-se a “facilidade” com que se organizam internacionais, ou organizações para organizar internacionais. Ou pense-se no apoio ao federalismo europeu pelas forças da social-democracia europeia e imagine-se um gabinete de coordenação no topo do mundo, onde se acotovelam e disputam entre si uma série de generais sem exército.

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7 respostas a Patriótico e de esquerda 2

  1. Sucinto: nasci aki, gosto disto, conheço o re-béu-béu melhor que outros parecidos, o conceito de ‘pátria’ não me dix nada, sou de todos os lugares que gostei e gosto.
    Também sou de esquerda (perdão, de extrema esquerda…) e axo que isso da ‘revolução-num-só-país’ e mais o patrio(teir)ismo acoplado é uma teorização ‘after the fact’ e de conveniência, feita por lenino-trotsko-estalinistas porque sim, ou porque não, ou pelo meio, ‘cagandas ‘interesses que devim estar em jogo.
    Portanto essa brincadeira da ‘Internacional’ é apenas uma ‘cantiga parva’ com uma letra foleira para encher o olho ao freguês… claro.
    🙁

  2. CausasPerdidas diz:

    Proponho outra interpretação: a única “nação” que conta é a Classe.

  3. xatoo diz:

    ora nem mais, “a única nação que conta é a Classe”
    o Estado como elemento de dominação de classe, conforme apareceu há 300 e tal anos, assim um dia destes também desaparecerá
    Entretanto a Classe Operária, pensada globalmente, por razões de estratégia capitalista foi deslocalizada pela burguesia transnacional para a China – e obviamente, este paradigma “traz no seu seio as sementes da sua própria destruição”

  4. CausasPerdidas diz:

    O patriotismo é reaccionário, é pensar enquadrado nos cânones da burguesia.
    Perdoem-me a extensão, aí vai:

    A génese do Capitalismo é a acumulação baseada num crescimento contínuo que não respeita o folclore das bandeiras colocadas em cima de linhas divisórias resultantes de batalhas passadas para satisfazer os interesses senhoriais e reais. O Capitalismo há muito que ultrapassou isso, as fronteiras são virtuais, são a cerca ideológica onde se guardam os idiotas que pensam que mandam nalguma coisa com mais importância que a gramática que utilizam. O Capitalismo está-se marimbando para “as brumas da memória” a não ser aquelas que assustaram de morte a sua autoridade. Vai e chega a todo o lado, a todo o sítio, invade tudo. É a sua natureza. Não por malfeitoria, como explicou Marx, mas por uma questão de sobrevivência. O Capitalismo só pode crescer, não pode parar de crescer sob pena de definhar e ser inferior ao tamanho da boca de outro mais poderoso, porque não há piedade na economia da selva.
    Concorrencial, o Capitalismo também consegue ser “solidário”, mas na medida em que a afectação de um interesse concorrente resulte no seu próprio prejuízo. Um universalizador de “standards” ou defensor de roscas anacrónicas se se tratar de defender os parafusos que lhe sustêm a máquina. Ameaçado economicamente, defende-se com a política, com a guerra, reclama o patriotismo de antanho, tal como um merceeiro que sonha esmagar todos os concorrentes clama pela defesa do comércio tradicional quando sente um hiper às portas.
    O Capitalismo inventa novos negócios que ultrapassem as coisas. Já não apenas os produtos e os serviços a eles ligados, bem mais do que a produção de alimentos e a sua distribuição, também a cultura, os tempos livres, a saúde, a morte.
    O Capitalismo dá novos valores às coisas, todos se traduzem em dinheiro. Todas as nossas necessidades físicas, reais, são mercado, mas não chega: o Capitalismo investe em necessidades que não imaginamos ter, porque o objectivo do Capitalismo é satisfazer as nossas necessidades criando novas necessidades sem nunca satisfazer nenhuma. O Capitalismo é a Insatisfação Permanente.

    A burguesia é a galinha e o ovo do Capitalismo. Tal como os senhores da velha ordem que derrubou, a burguesia procura convencer o resto da sociedade de que o fim do seu reino significará o fim do mundo. O mundo da burguesia, retenhamos, não é uma bola azul perdida numa imensidão de possibilidades por descobrir, é quadricolor, tricolor, bicolor, unicolor, estampado num farrapo de subjugação das vontades aos seus interesses. A bandeira é o ceptro da burguesia, o salariato o seu chicote.

    Tal como a chuva, o vento, o sol, o proletariado não tem pátria. O ar que respira não é alemão, francês ou inglês, é o ar poluído da fábrica, como dizia Marx. No melhor, o ar refinado pelos filtros de um aparelho de ar condicionado projectado na Dinamarca e montado em Espanha com peças fabricadas na China. Hoje, tal como desde sempre, a luta do proletariado só vingará se este se libertar das cadeias obscurantistas do patriotismo, unindo-se numa única nação à escala global, tal como aqueles soldados russos e alemães dos idos de 1918 que se ergueram da lama das trincheiras e se encontraram na “terra de ninguém” para cuspir sobre as ordens dos seus generais que os mandavam matar-se uns aos outros, reinventando a Comuna de Paris na Revolução Russa e nos Conselhos Operários de Munique. Os produtores não têm mais que a sua solidariedade para opor à voracidade da globalização do lucro, a internacionalização das suas lutas é a saída. Que a besta não tenha onde se esconder!
    E, para começar, neste continente velho mundo: que à bandeira estrelada a ouro outra surja, feita da cor da memória do sangue dos nossos, limpa da lama do terror burocrático por onde a arrastaram. Com uma nova estrela, não de pontas mas de luz. Sempre a velha procura da Luz.
    A centelha de esperança de camponeses iletrados motivados pela fome não chegou, ficou provado. Desta feita será o Conhecimento que o proletariado arrancou da sua quota-parte do falecido Estado Social pós-morticínio. Em tempo algum na História “os de baixo” tiveram tanta preparação técnica para governar sem terem de se sujeitar ao conhecimento dos outros, ao apodrecimento por dentro que isso significou do seu débil poder, até o perderem de todo. Quando tomar o seu destino nas suas próprias mãos, o proletariado deixará de ser a nação global, restará o que importou desde sempre: a Humanidade.
    Entretanto, o que importa é a Classe, os partidos e as associações sindicais são apenas um seu instrumento, não o contrário.

  5. nf diz:

    Caro Manuel,

    Vou tentar ser breve.

    1.Folgo em o ver afirmar que, no limite, o horizonte comunista é radicalmente internacional e que reitere o carácter contraditório entre este e a nação. Mas esta contradição alimenta-se fundamentalmente da radicalização comunista do internacionalismo e não de qualquer oposição intrínseca entre a nação e a inter-nacionalização. Aliás, basta pensar o internacionalismo como o espaço relacional que emerge entre estados-nação para dissipar a sua putativa oposição (tratados, alianças entre estados, etc.). O internacionalismo superador do estado-nação é o horizonte e, por isso, é ele que puxa a carroça.

    2.Não imputo circularidade ao argumento por exaltar a nação. O problema está em identificar o processo de luta política com a finalidade da luta, fazer da luta o telos da luta (a bem dizer, esta é uma maleita que, dos revolucionários profissionais até aos activistas políticos, enferma toda a esquerda radical. Ninguém sai incólume.) ‘Ser’ patriótico porque o processo também passa por aí não é o mesmo que ‘ser’ comunista. Por outro lado, não é por não se exaltar a nação ou por-se afirmar o carácter de classe do povo português que, como que por magia, se iliba o patriotismo da nação e do nacionalismo. É que à luz da história, as tais questões culturais, simbólicas, ideológicas, etc, fazem deste um terreno muito escorregadio, e é tudo menos certo que a oposição entre pátria e nação seja assim tão categórica. Não faltam exemplos em que mecanismos identitários fortes em torno do país deram para o torto.

    4. Nada contra alianças. Todas as dúvidas sobre a possibilidade de determinação da pátria de forma não substancial, daí considerar preferível a formula, ‘os, todos, trabalhadores que cá estão’.

    Só mais um último esclarecimento: Nada tenho a dizer quanto à invocação do povo português e do país no contexto da campanha para as presidenciais. Parece-me aliás que não poderia ser de outro modo. Lamento contudo o apelo a um patriotismo que considero trazer mais mal que bem, tal como me parece desfasada a sua defesa alegando as fases de um processo revolucionário que está muito longe daquilo que se joga nestas eleições.

    Não vos maço mais com isto.

  6. nf a sua brevidade é uma dakelas longas.
    Observação, e citando-o:
    «…(…) …muito longe daquilo que se joga nestas eleições. »

    Desconsiderada (des)opinião, só minha: nessas vossas eleições não se joga a ponta de um chavelho, é p’r’a toda a gente ver o ‘fenómeno’ a partir das ‘sidelines’ como espectáculo, , e é a feijões, não vale/conta p’ra nada.
    🙁

  7. Ricardo Noronha diz:

    Caro Manuel, algumas notas acerca das suas notas.
    1) Discordo de si quando afirma que “A instância nacional é a da maior proximidade entre aqueles que se combatem, aquela em que os operários estão frente a frente com os seus exploradores.” Parece-me, pelo contrário, que a instância da maior proximidade entre aqueles que se combatem, aquela em que os operários estão frente a frente com os seus exploradores é precisamente o terreno da produção. É nessa dimensão proletária da exploração, e não na dimensão cidadã da nação, que a luta de classes toma forma. Em todo o caso, considero que a nação é um momento da luta de classes e não o terreno histórico do qual ela brota. Enquanto momento, as suas possibilidades emancipatórias parecem-me esgotadas.
    2) Note que não tenho desta «produção» uma concepção estreita, antes pelo contrário, parece-me que o conjunto da sociedade vai assumindo crescentemente a forma de uma fábrica e que a produção se ocupa tanto de objectos como de imagens, signos e outros elementos imateriais. Pelas razões acima, a ideia de uma política de alianças entre a classe operária e o resto do «povo trabalhador» também me parece desajustada.
    Bem vê o Manuel que, a partir do momento em que se considera o trabalho produtivo em toda a sua amplitude, o proletariado torna-se imediatamente a classe mais numerosa de qualquer população. É necessário levar mais a sério as reflexões de Marx sobre as tendências para a concentração do capital e o seu efeito de proletarização sobre as antigas classes intermédias. Bem sei que esses efeitos são contrabalançados por outros tantos efeitos contrários e que esse processo é lento e complexo. Mas não estou a ver em que é que contribui para a emancipação dos trabalhadores a apologia da pequena propriedade contra os monopólios, ou da economia real contra a especulação financeira.
    Se a aliança proposta tem como objectivo unificar a classe operária com os trabalhadores assalariados mais qualificados do ponto de vista técnico e científico, então penso que teremos que levar mais longe o debate sobre o que é a classe operária.
    Nenhuma das posições aqui em debate pode ser rigorosamente classificada enquanto «oportunista».
    3) Sustenta o Manuel que é necessária a luta nacional para que ela possa ser coordenada à escala internacional. E está, aí, penso, uma das raízes da divergência. O internacionalismo pelo qual pugna o Manuel (e o PCP e a candidatura patriótica de Esquerda de Francisco Lopes ) é basicamente a coordenação entre várias realidades nacionais. Aquele que eu considero desejável, necessário, urgente, imprescindível, é precisamente um internacionalismo proletário capaz de criticar as identidades nacionais (os«povos da Europa») e as fronteiras, num momento em que a força-trabalho assume uma mobilidade crescente e o capitalismo aprofundou os processos de divisão mundial do trabalho (fragmentando um mesmo ciclo produtivo à escala mundial). Um conceito como o de «produção nacional», por exemplo, é cada vez mais difícil de sustentar. Mas faça o favor, que eu estou atento.
    4) E vai daqui que essa acumulação de forças no marco nacional – uma ideia sedutora – me pareça também ela equivocada. Desde logo, dispensa a ideia de «patriotismo», se a consideramos uma tarefa instrumental num quadro estratégico mais amplo de uma acumulação de forças à escala internacional. Ou seja, se é um meio para um fim, seria bom que fosse encarado enquanto tal, sem que os mortos pesem sobre a cabeça dos vivos.
    Diz o Manuel que “é no marco nacional que temos visto [as lutas] desenvolverem-se impetuosamente. É no marco nacional que as massas e a classe descobrem e inventam (para começar) o apelo à internacionalização”. Mas esse estado de coisas não é algo que os comunistas devam aceitar como se de um fenómeno natural se tratasse, semelhante às monções do Índico ou aos tornados do Novo México. Pelo contrário, o facto de o marco nacional continuar a conter as lutas é um problema que explica muitos dos impasses e derrotas sofridas nos últimos anos, por lutas que vimos desenvolverem-se da forma mais impetuosa que se possa imaginar.
    5) Eu escrevi «um problema», mas noto agora que deveria ter escrito «o problema». E é isso mesmo que conclui também o Manuel, quando realça, na sua última frase, quão mais avançada está a burguesia e o seu aparelho político, no plano da organização à escala internacional. «Eles» sabem bem que a escala deste tabuleiro de xadrez é planetária e organizam-se em conformidade. Visivelmente, não dispensam o «marco nacional». Mas é cada vez menos com base nele que se organizam do ponto de vista estratégico.
    Escusado será dizer que, nesse jogo das cadeiras entre Estados-nações rivais, o tema do patriotismo será uma porta aberta para transformar o movimento operário em peão da respectiva burguesia – sempre que esta sentir estar a perder a corrida.
    Penso que devemos aproveitar as contradições presentes nesse processo, sem nos deixarmos conduzir por elas, e que a condição para o fazer continua a ser o partido da revolução mundial. A forma e o conteúdo desse partido continuam em aberto, mas o «marco nacional» dificilmente poderá ser o seu principal ponto de referência.

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