“Primeiro levaram” & cois’ital

As agressões policiais sobre sindicalistas e as detenções que se lhes seguiram ontem foram (tal como a actuação policial que a elas conduziu) abusivas, desnecessárias e, portanto, injustificadas e intoleráveis.

No entanto, mais do que como caso particular ou como situação, creio que elas nos devem sobretudo preocupar e indignar enquanto indícios e partes de um processo.

Ao serem desnecessárias e excessivas, são, para além do próprio acto, uma declaração de intenções, um “aviso” para o futuro. E um “aviso” com passado.

Durante os preparativos para a cimeira da NATO (para além do bloqueio de meia cidade e da cégada dos blindados anti-motim) cometeram-se todo o tipo de abusos ao abrigo da reinstauração do controlo de fronteiras, como impedir a entrada no país a cidadãos europeus perigosamente armados de canivetes ou de panfletos e t-shirts de protesto. Um legítimo restabelecimento do controlo de circulação transfronteiriço tornou-se um controlo e atentado à liberdade de manifestação e de expressão.
Durante a própria cimeira, foi imposto um dress-code a quem se manifestasse ou, simplesmente, circulasse nas ruas.
Em ambos os casos, e na prática, as forças policiais foram instruídas pelo Governo para se comportarem como se o estado de emergência tivesse sido decretado.

Houve coisas antes, como o extemporâneo e injustificado apontar como desígnio de segurança nacional a criminalização da “apologia do terrorismo”,

E houve coisas depois, como o acordo de fornecimento de dados antropométricos à administração norte-americana – que, para além dos seus contornos inconstitucionais, constitui um insulto ao país e um insulto do Governo aos cidadãos.

Não creio, por tudo isso, que estejamos perante mais um isolado caso de falta de descernimento e de excesso policial, mas antes perante mais um momento de uma mesma tentativa de subordinação dos direitos e liberdades à paranoia securitária.
Que, tal como sempre acontece (l’appétit vient en mangeant) rapidamente passa das já de si fluidas “ameaças terroristas” para a contestação social dentro do quadro de liberdades e direitos constitucionalmente vigente – como, aliás, o nosso querido Ministro da Administração Interna sustenta, de uma muito explícita forma implícita, no livro que escreveu enquanto chefe da secreta.

Dizem que Benjamin Franklin disse qualquer coisa parecida com “quem está disposto a abdicar de parte da sua liberdade em favor da sua segurança não merece nem uma nem outra”.

É verdade que, quando a questão são direitos e liberdades (que não constituem uma coisa “natural” nem “cultural”, mas política, resultante de um historial de conflitos e da sua imposição pelos dominados aos dominantes), não se trata de “merecimento”, como se de privilégios oferecidos a bem comportados se tratasse.
Mas, exactamente pela sua natureza construída e conquistada, desconfortável para os dominantes e precária, os processos de paulatino enfraquecimento e erosão dos direitos e liberdades de que usufruímos não podem ser objecto da nossa desatenção ou minimização.

É a tal história do “Primeiro levaram…”, & cois’ital.
Não só tipos sucessivos de pessoas.
Também o sucessivo exercício efectivo de direitos, liberdades e garantias. Até que estes se tornem letra morta. Ou nem sequer letra.

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9 respostas a “Primeiro levaram” & cois’ital

  1. xatoo diz:

    Há um plano técnico de controlo biopolitico neocon para a afirmação violenta e sem máscara do Estado policial – não é uma directiva com origem nacional, são directivas para uso global oriundas das forças neofascistas que pretendem controlar a nova ordem global.
    Vejam a analogia: a Associação da Imprensa Estrangeira de Israel divulgou que a jornalista da Al-Jazeera Najwan Sinri Diab durante uma conferência do primeiro ministro Netanyahu foi detida e obrigada a despir-se, incluindo a tirar o soutiã, para ser inspeccionada “por razões de segurança”.
    Compare-se com o recente caso das militantes do PCP que andavam a colar cartazes e foram detidas e obrigadas a despir-se invocando a bófia as mesmas razões

  2. Essa frase do Benjamin Franklin é tão mortífera quanto certeira, e ainda mais se ouvida (perdoem-me a ‘liberdade poética’ — wtf is this ???) ao ‘som’ da luz eléctrica…

    🙂

  3. A alta finança inernacional que controla os estados já concluiu que não necessita de ditaduras sanguinárias para neutralizar oposições. Basta-lhes agir cirurgicamente dispersando manifestações recorrendo a alguma violência, controlar a comunicação social a seu favor, fomentar sentimentos de insegurança na população, fazer eleger os seus fantoches criando a ilusão de democracia. Andamos adormecidos há demasiado tempo.

  4. Guerreiro diz:

    ukabdsinais
    . Andamos adormecidos há demasiado tempo.

    E eu acho um piadão quando dizem que a dormir andam os teóricos da conspiração.

    As policias foram criadas para defender as costas as elites, não para proteger o povo.
    Nunca vi 1 policia a ripar do cassetete para afastar um politico por estar a importunar 1 mendigo…já o contrario, bem, não precisamos de pensar muito.
    voltemos a dormir…e á Tv que logo á noite joga o Benfica que o povo não está para a politica….isso são coisas lá deles.

  5. Santiago diz:

    Só me ocorre uma coisa…
    REPRESSÃO POLICIAL=TERRORISMO OFICIAL

  6. 2ºRemador diz:

    É tempo de começarmos a planear um outro 25 de Abril, ou noutra data qualquer, pois como nós demoramos imenso tempo até se concretizar uma mudança efectiva, será de todo conveniente começarmos já a pensar na coisa. É que da última vez, demorámos 48 anos!

    • lingrinhas diz:

      Demorámos 48 anos?já estás um bocado velhote para essas brincadeiras.

      • 2ºremador diz:

        Àh pois é…..mas para os mais “novinhos”, nem necessito repetir o poema de António Botto, basta dizer-lhes que aqui o 2ºremador mantém o remo em riste para dar na cabeça aos que apregoam o antigo regime ou que o queiram de volta. Ok, Lingrinhas?

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