Alguém pode convidar este homem para escrever no 5dias?

Eu não cumpro o plano quinquenal, não falo sobre as presidenciais nem avanço teorias psico-sociológicas sobre o homicídio do Carlos Castro, mas tenho sentido dos meus deveres cívicos e patrióticos. Por isso, passei parte substancial desta tarde que agora finda a pôr as quotas do sono em dia, e uma parte menos substancial a transcrever a letra da “Marcha dos Implacáveis”, a única música conhecida do novo disco do JP Simões, que era para já ter saído mas afinal parece que só em Fevereiro. Rejubilemos.

“Marcha dos Implacáveis” (ou, como eu prefiro, “O Pesadelo do Dr. Coiso”)

Hoje
Amanheci assassinado
Depois de um sonho alucinado
A noite inteira eu quis gritar
Vinham de todo o lado mortos-vivos
Que me rasgavam os ouvidos
Com gemidos e aflições
Somos os pobres, pobres, fracos, os párias
A corja de humilhados, de mutilados
Somos as bestas brutas que te assombram
Noite e dia, noite e dia, noite e…
Quero fugir mas estou sem pernas e sem braços
Passam por mim os meus bagaços
Chove sangue no Rossio
Vou
Em nuvens de ossos e sapatos
E uma espada [?] dos astros
Brotam cobras do vazio
Estou na estação central do reino do medo
Subúrbio dos abismos em hora de ponta
Tudo o que eu temo chega hoje
A raiva, o caos, a culpa, a culpa, a culpa, a culpa

Quem lá vem?
Ah, quem é que vem com a cara escancarada?
Quem lá vem?
Ah eu sei que vem a rir à gargalhada
É um carnaval de horrores
A marcha dos implacáveis
Quem lá vem vem p’ra te comer
E tu bem sabes que mereces
Reza, agora, reza
Ninguém ouve as tuas preces

Hoje
Caí da cama “apavogado”
Com o pijama ensopado
No tapete de Arraiolos
Depois
Em pleno Conselho de Estado
Fui informado de atentados, de revoltas e explosões
84,9 por cento de três milhões e meio de desempregados
Avançam loucos para São Bento e gritam mata, esfola, mata, esfola, mata
86 por cento em dívida externa
Por gastos opulentos e fraudes bancárias
Economistas flatulentos e ministros fazem fila, fogem, fogem
Vêm crianças tortas, mortas de fome
Os velhos e as viúvas desamparadas
A classe média em peso empunha
Paz, acorda, acorda, acorda, acorda, acorda
E a revolta explode pela província
E culpa-se o patrão e o vizinho do lado
E é fratricídio, homicídio, suicídio, estupro, estupro, estupro, estupro

Quem lá vem?
Ah, quem é que vem com a cara escancarada?
Quem lá vem?
Ah eu sei que vem a rir à gargalhada
É um carnaval de horrores
A marcha dos implacáveis
Quem lá vem vem p’ra te comer
E tu bem sabes que mereces
[contra mim falo]
Reza, agora, reza
Ninguém ouve as tuas preces

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