Quando se fala num império e se esquece do imperialismo

O Zé Neves comunga da ideia que não há imperialismo. Para ele a questão nacional não existe. Perante a luta dos povos oprimidos é favorável às teses do Império, nem que isso signifique ser apoiante do imperialismo. No quadro de um referendo pela autodeterminação do País Basco, votaria na manutenção do domínio de Madrid. Parece que não há nacionalismo castelhano, apenas há nacionalismo basco, e que se os bascos se calarem, deixa de haver questão nacional. Pior, para o Neves, é tudo uma questão de escala: defende sempre o imperialismo, porque isso conduz inevitavelmente ao Império e esse trás consigo, necessariamente, a erupção mágica da multidão. É de magia que estamos a falar. O Império foi escrito, mas continuamos a viver na era do imperialismo. Em nenhum lugar irrompeu a multidão. Do ponto de vista prático, o discurso do Negri/Neves tende a confundir-se com os libertários ultra-liberais: é preciso apostar na globalização selvagem, destruir todas as barreiras locais, porque o mercado livre e global vai conseguir levar a humanidade a um novo patamar. Substitua-se a “multidão” pelo “mercado” e a lógica é a mesma. Só assim se percebe essa obsessão religiosa na defesa dos mais fortes desde que garantam o fim permanente das barreiras efémeras dos mais fracos. Os negristas são favoráveis à Constituição Europeia mesmo que ela seja o garante do imperialismo alemão, porque, para eles, mais importante que a autodeterminação democrática das comunidades humanas existentes é a sua transformação em comunidades mais vastas, mesmo que elas sejam prisões. Estão convencidos que quando estivermos sob a pata de um único país estamos mais próximos do Império, logo pertíssimo da multidão libertadora que nasce e coexiste com o Império.
Isso coloca um problema prático de difícil resolução no negrismo: na Irlanda do Norte optamos pelo Reino Unido? Na Palestina optamos por Israel? No Kurdistão pela Turquia? Em Timor pela Indonésia? etc… etc…. Ou, pura e simplesmente, ficamos em silêncio, à espera que se discuta a questão fundamental do aparecimento deste conjunto de singularidades , que de portátil (agora de Ipad) na mochila, onde quer que estejam afirmem o seu trabalho único, imaterial, não sujeito à lei do valor e à falácia produtivista, e que constituem a multidão que nas entranhas do Império a submerge?
Um comunista sabe que a questão nacional, como a questão da liberdade sexual, como a questão do racismo não são contradições nucleares no capitalismo, mas são lutas pela liberdade e autodeterminação das pessoas. E isso basta para o seu empenhamento. Um comunista não ignora que a afirmação do imperialismo está ligada a um período específico do capitalismo. Combater o imperialismo contribui para um combate mais vasto à lógica do modo de produção capitalista. Dai não ser contraditório ser internacionalista e patriótico.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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12 respostas a Quando se fala num império e se esquece do imperialismo

  1. miguel serras pereira diz:

    Sim, Nuno, “Combater o imperialismo contribui para um combate mais vasto à lógica do modo de produção capitalista” – mas contanto que não reabilite a nação, o Estado-nação e outros (mais ou menos tardios e espúrios, mistificações do capitalismo) filhos da pátria.

    Abrç

    msp

  2. nf diz:

    E por outro lado parece que, como o capital não tem fronteiras, nós devemos reiterá-las para bem da emancipação dos povos oprimidos. O que é o povo português?

  3. xatoo diz:

    o “povo português” é uma espécie de residuo dos neanderthais re-construido pela mitologia de sucessivas colonizações… e que nunca mais se conseguiu emancipar desde o assassinato de Viriatus pelo imperialismo

  4. zé neves diz:

    china pá, que confusão que para aí vai… agora não tenho tempo mas vou telefonar ao Negri a pedir indicações e depois publico a resposta. Entretanto, vê lá se continuas com o Albano aí à mão para te ir ajudando.
    abç

  5. j diz:

    o que o Zé Neves se esquece é que quem tem que votar no referendo pela auto-determinação do país basco são os bascos, e não ele!
    Essa é a questão.
    Faça-se o referendo.

    • miguel serras pereira diz:

      Sim, J, claro que ter uma opinião sobre o sentido do voto e defendê-la é, da parte do Zé Neves, uma intromissão indevida que atenta contra os direitos nacionais dos bascos. Uma inconveniência, uma falta de respeito, uma anarqueirada.

      msp

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Só cá faltava. Não concordo com a tua opinião, é pq sirvo o Albano ou estou mt confuso. Se ainda tivesses no P, teria roubado a máquina de escrever ou andava com muitas mulheres ao mesmo tempo.

    Abraço

  7. Khe Sanh diz:

    Se é assim. Como se deve medir o geodésio da Corsega?

  8. António Paço diz:

    Credo, Nuno, nunca tive pachorra para ler o Negri, mas se isso que dizes dele é tudo verdade, o homem não tem nada de moderno: isso cheira-me ao ‘marxismo’ de um tal Piotr Struve!

  9. Niet diz:

    Chamar aos libertários… ultra-liberais( à la sauce Milton Friedman?), é mesmo
    querer apostar nas vicissitudes do espaço público anti-insurreccional( O.Negt).
    A situação de hoje que eclodiu na Tunisia é um severo desmentido aos opositores
    do poder político positivo da multitude. Niet

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Niet, só pode ser piada. A revolta na Tunísia é da multitude à pala de quê? Não vale a pena responderes, eu não discuto a religião das pessoas.

  10. João Valente Aguiar diz:

    A burguesia organiza-se, num primeiro momento, à escala nacional, sem com isto menosprezar, de todo, que ela empreende esforços (económicos, políticos, etc.) a nível internacional. No fundo, é nos países do G7 que as respectivas burguesias se apropriam e acumulam a esmagadoria maioria do valor produzido, intra e extra-muros. É verdade que Estados mais periféricos como Portugal têm perdido soberania. Mas a perda de soberania de uns é o aumento da soberania dos Estados centrais e das suas burguesias. Portanto, não existe nada que corrobore a tese que o Estado-Nação tenha desaparecido. As próprias organizações transnacionais da burguesia (OMC, FMI, NATO, etc.) não são organismos puros de organização institucional de uma (e, sobretudo, una) burguesia mundial. Na realidade, a história dessas organizações está atravessada de lutas e de hegemonias de um Estado (quase sempre os EUA) sobre as restantes grandes potências. Claro que as burguesias desses países tb têm um interesse fundamental em comum: a exploração. E é contra isso que se deve fortalecer o internacionalismo proletário: a luta comum dos trabalhadores de todo o mundo contra o capitalismo. Contudo, o sistema capitalista, seja no plano nacional, seja no plano internacional, funciona pelo fraccionamento e pela competição de capitais com distintas composições orgânicas. Ou seja, do ponto de vista do capitalismo, a nação é uma dimensão imanente ao seu próprio funcionamento.

    Ora, a classe trabalhadora, como classe dominada, tb se organiza a partir das condições reais e materiais existentes, a saber, a existência de nações e a sua inserção numa comunidade nacional. A própria formação da classe trabalhadora como um sujeito histórico colectivo decorre no seio do espaço nacional. Nesse sentido, a classe trabalhadora só se liberta no caso de tomar o poder no seu próprio país e não num espaço etéreo e pairante sobre as relações sociais reais (ver a citação do Manifesto num comentário acertadíssimo do Miguel Tiago num outro post deste blog). Isso não significa que a classe trabalhadora tenha de ser nacionalista para se emancipar, mas que inevitavelmente tem de passar pelo espaço nacional. Sejamos sinceros, uma coisa é a transição para o socialismo a partir de múltiplos processos nacionais de tomada de poder dos trabalhadores, outra é achar que isto agora é tudo um flat world pronto a pavimentar uma tomada do poder dos trabalhadores, ao mesmo tempo e em todo o mundo.

    Para terminar, como menosprezar a nação quando esta é uma componente imanente às próprias classes em confronto (como espaço de organização das burguesias nacionais e, do lado, da classe trabalhadora, como o seu primeiro espaço de organização política e de necessária tomada do poder de Estado, no país onde se insere produtivamente)? Por outro lado, será o nacionalismo a ideologia dominante do capitalismo e contra a qual temos que investir mais tempo e esforços a combater? Curiosa contradição essa, a de que o nacionalismo seria o maior inimigo dos trabalhadores num tempo em que o Estado-Nação teria sido afogado num pretenso Império… Em que ficamos?

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