À chantagem retórica de Jorge Costa devemos perguntar: O voto em Alegre tem poder?

Jorge Costa é um hábil político de aparelho. Se o partido a que pertence fosse um ser vivo, este abnegado militante seria a sua febre, o seu inchaço. Antes de qualquer infecção ou derrame gerar males maiores, Jorge Costa apita, dando o alerta. Transforma derrames em hematomas e tenta baixar o risco de temperaturas convulsas com poderosos anti-inflamatórios e violentos antibióticos. Com Jorge Costa o corpo recupera nem que seja por via da necrose.

O seu mais recente grito de guerra diz-nos alguma coisa sobre o estado do seu partido, ainda que por linhas travessas, e muito sobre a força da candidatura presidencial que co-dirige. No meio do barulho há porém uma boa notícia. A esquerda alegre passou a ter outro tema de campanha que não se esgota em Cavaco Silva, e o voto em branco  (os nulos e a abstenção) passou a ser o alvo da sua ira.

Apavorado com o poder do voto em branco, Jorge Costa pergunta se o voto em branco tem poder, para de seguida acusar que quem não se convence das candidaturas existentes está a votar em Cavaco Silva. Jorge Costa, que parece perder demasiado tempo com algo tão inócuo, deixa entender que na verdade é este o grande concorrente do candidato do BE, do PS e do governo, mesmo sem levar a campanha para as ruas e sem ter os milhares de euros que os outros têm para o deboche. Por isso os seus adeptos cool têm passado os dias à volta do assunto e por isso também Jorge Costa, entre outros allegros mais vivace, cirandam por todas as esquinas a gritar dramáticos alertas cor-de-rosa.

Ao contrário do que afirma, não “são apenas uma expressão vazia” e ao contrário do que garante, o voto branco também funciona para quem quer tomar posição na luta social e política. Jorge Costa acusa que “à esquerda, o apelo ao voto branco é uma desistência absoluta” porque sabe que a esquerda grande que defende acabou por fazer com que tivesse que organizar uma campanha de direita, com José Sócrates à cabeça da arruada. Se a ideia é traduzir em actos o avanço de Cavaco, estou certo que o senhor Silva terá mais a agradecer a quem lhe facilitou o caminho da vitória, do que àqueles que decidam usar do poder de não fazer parte da palhaçada. É a natureza das alternativas, em particular daquela que representa, que tornou a segunda volta irrelevante, não só por sabermos que não poderá derrotar Cavaco, como ainda que se o fizesse, estaria apenas disposta em ser o garante da estabilidade política e o domador da instabilidade social.

A insistência nesta chantagem só pretende dissimular o erro sem perceber que com esta demagogia a única coisa que estão a conseguir é aumentar ainda mais a profundidade do poço para onde se atiraram tão convictamente.

Roubado à Isabel Faria

Ver o vídeo do melhor momento da campanha do Alegre, até ao momento.

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26 respostas a À chantagem retórica de Jorge Costa devemos perguntar: O voto em Alegre tem poder?

  1. Carlos Guedes diz:

    A suposta ira do Jorge Costa, a existir, só encontraria paralelo no vazio da tua argumentação para sustentar o que é insustentável para quem quer derrotar Cavaco Silva.
    O voto em branco é uma demissão pura e simples. Se a sua existência faz parte da democracia, contrariá-lo também faz. Não perceber isso e, mais, não o respeitar é pura cegueira. E digo-te mais, admitindo que faças a defesa do voto em branco, custa-me admitir que o faças usando a terminologia do primeiro parágrafo desta posta. São espinhas a mais para uma posta tão branquinha!

    • Renato Teixeira diz:

      Nenhuma terminologia supera isto:

      “Manuel Alegre foi sempre uma voz de divergência com a capitulação perante o liberalismo, uma garantia na defesa dos serviços públicos, uma voz em defesa dos direitos do Trabalho.”

      ou isto:
      “[o voto em branco é] apenas uma expressão vazia, onde cabe o apelo autoritário, a hesitação radical (que não se decide a tempo), a desilusão do momento e a confusão com a abstenção.”

      Quanto à falta de argumentos estou farto de te dizer que tenho saudades dos teus.

  2. Miguel Lopes diz:

    O Jorge Costa tem toda a razão em relação ao voto em branco. O voto em branco infelizmente nem sequer serve para diminuir a proporção de todos os outros, ajudando a precipitar uma segunda volta. Não serve para nada.
    Vale mais um voto em José Manuel Coelho do que em branco.

    • Renato Teixeira diz:

      Miguel atenta ao bold: “É a natureza das alternativas, em particular daquela que representa, que tornou a segunda volta irrelevante, não só por sabermos que não poderá derrotar Cavaco, como ainda que se o fizesse, estaria apenas disposta em ser o garante da estabilidade política e o domador da instabilidade social.”

      Recorrendo a uma metáfora futebolística: que diferença faz perder nos 90 minutos de jogo ou no tempo regulamentar?

      • JA diz:

        Perdido já está, Renato. E para quem sabe que vai perder, dói tanto nos noventa minutos como no prolongamento. Mas há uma certa pessoa honesta – a mais honesta, segundo o próprio e outros, seus admiradores – que ficaria com um sorriso bem amarelo se fosse obrigado a segunda volta. E como eu gosto de ver pessoas sérias a sorrir, Coelho ao poleiro.

  3. filipe diz:

    o voto em alegre tem poder,… muito poder. repara no poder que tem…

    http://publico.pt/Pol%C3%ADtica/socrates-pede-cooperacao-institucional-ao-futuro-presidente_1475139

    “Sócrates estava também ali para fazer uma declaração de “amor ao Estado Social, ao Serviço Nacional de Saúde, à escola pública e à segurança social pública”.”

    é caso para dizer se isto é amor… o que será o ódio?

    “As palavras do primeiro-ministro alentaram Alegre, que, ao longo da sua intervenção, não se cansou de elogiar o primeiro-ministro: proclamou a “coragem e determinação” do seu “amigo e camarada”; disse ter gostado de o ver “conversar em português, afirmando a internacionalização da nossa língua” com o “Presidente Lula”; e regozijou-se por “estar lado a lado com José Sócrates a defender o Estado Social”. ”

    e mais não digo.

    • Renato Teixeira diz:

      E é preciso dizer mais?

      Mas não me entenda mal. Eu acho que o voto em Alegre tem poder, e como bem expressa o seu comentário, estão à vista as suas fronteiras.

  4. Batata diz:

    http://takeustobruges.blogs.sapo.pt

    “Maria amiga”

    Os calendários da Maria
    Já estão nos frigoríficos
    Além disso são magníficos
    E dão-lhes bué de alegria

    O meu frigorífico mudou
    Ficou um frigo espantoso
    Está com um ar fabuloso
    E foi a Maria que ajudou

    Obrigado Maria amiga
    Não sei mas que te diga
    E também não m’apetece

    Vou só fazer um figa
    Pr’a que a Maria consiga
    Tudo aquilo que merece.

  5. Tiago Silva diz:

    Genial! Com que então, os senhores que estiveram em Castelo Branco eram vozes “de divergência com a capitulação perante o liberalismo, uma garantia na defesa dos serviços públicos, uma voz em defesa dos direitos do …Trabalho”?

    Desculpa, Renato, mas a notícia do Público que filipe postou, assim como o vídeo da Lusa, fizeram um melhor serviço para desmontagem retórica desta campanha do que toda a tua posta. E digo-te mais, não sei como os bloquistas que apoiam Alegre ainda se admiram que não conseguem enganar as pessoas de esquerda. Com este teatro tão frouxo, seria de espantar que acontecesse o contrário…

    • Renato Teixeira diz:

      E os dois chefes, quando é que os juntam para fazer uma reportagem em directo aqui para a tasca do costume?

      Tens toda a razão. As adendas do Filipe superam a posta.

      • Renato Teixeira diz:

        A passagem que o Filipe nos trás é de facto suprema e sumariza a natureza da candidatura. Leiamos de novo:

        ““As palavras do primeiro-ministro alentaram Alegre, que, ao longo da sua intervenção, não se cansou de elogiar o primeiro-ministro: proclamou a “coragem e determinação” do seu “amigo e camarada”; disse ter gostado de o ver “conversar em português, afirmando a internacionalização da nossa língua” com o “Presidente Lula”; e regozijou-se por “estar lado a lado com José Sócrates a defender o Estado Social”. “

  6. Augusto diz:

    Para alem dos méritos e deméritos da candidatura de Manuel Alegre, a pergunta que se deve fazer a todos os homens e mulheres de esquerda é:

    Acham que estar na Presidência da Republica o candidato Manuel Alegre ou candidato Cavaco Silva será exactamente a mesma coisa ?

    Cada um em consciência responda, o resto é mera espuma dos dias…..

    • Renato Teixeira diz:

      Como para o Augusto o resto é espuma, deve entender-se o seu comentário como uma declaração de voto em Sócrates ou em António José Seguro para evitar a vitória de Pedro Passos Coelho?

      • Augusto diz:

        Porque será que o Teixeira é tão previsivel….

        O governo GOVERNA o Presidente FISCALIZA.

        As funções são diferentes, o PS e Socrates nas eleições legislativas apresentam um programa de governação, o PS e Socrates aplicam medidas para combater a crise que em nada diferem do que propõem Passos Coelho e Paulo Portas.

        A eleição presidencial tem outros contornos.

        Um presidente pode ou não aprovar leis.

        Se discordar delas pode dar o seu veto.

        Cavaco já demonstrou , de que lado está, e não são só em questões de costumes em que a sua posição conservadora e mesmo reaccionária ficou clara.

        Cavaco não afirma como Alegre, que se oporá a qualquer tentativa de mudar a Constituição que permita o fim do SNS e do Ensino Publico.

        São posições claras , e inequivocas.

        Talvez que quem votou em Soares contra Freitas

        Ou em Sampaio contra Cavaco, entenda as opções de um cidadão de esquerda nestas eleições…

        Ou outros , na sua fraseologia de esquerda, acabam na prática a fazer o jogo da direita, e como dizia Regio

        Por aí não vou…..

  7. lingrinhas diz:

    tiago: tem toda a razão voces ao contrario ainda conseguem enganar alguns mas poucos.

    • Tiago Silva diz:

      Se por “enganar”, considera apelar ao voto em branco (coisa que não tenho andado a fazer, note-se) enganámos mais que o PS e BE nestas eleições, sem dúvida.

  8. Ho Chi Mihn diz:

    Desculpem, mas…

    Alguém acredita que o FMI deixaria de entrar só porque Alegre era presidente?

    Alguém acredita que o governo deixaria de apresentar o PEC IV e V e etc. só porque o Alegre era presidente?

    Alguém acredita que a legislação laboral deixaria de ser alterada só porque Alegre era presidente? Que a crise a austeridade acabariam? Que os juros da dívida pública baixariam?

    Por favor… tenham paciência, mas Cavaco e Alegre são a “cara e coroa” da má moeda que nos governa desde 1976. Alegre dá-nos uma única “garantia”: a garantia de nunca demitir o governo José Sócrates – e eu, honestamente, não estou a ver que grande vantagem seria essa…

  9. xatoo diz:

    não é verdade que a intervenção de Sócrates “sobre os braços caidos” tenha sido o momento de maior impacto na campanha de Alegre; se um falou sobre os membros superiores o outro emocionou a turba com os membros inferiores: “Eu quero portugal de pé” (não fiques de joelhos, levanta-te e caminha, etc)
    http://www.youtube.com/watch?v=sqQ9odJEwdg&feature=youtu.be
    assim sendo, falta apenas um discurso sobre as barrigas e os culhões, já que sobre cérebros e ideias não é assunto que possa ser lavado em público (como sustenta o Cavaco). Nestes termos, contra uma hipotética formação de uma maioria entre reformistas do PCP e sociais democratas do BE (inconsequente mas talvez o inicio da formação de um movimento popular que inicie uma mudança…), talvez o Renato venha a apoiar o candidato Coelho…

  10. Zé Miguel diz:

    O que eu acho interessante no texto do Jorge Costa é que ele perde tempo a tentar argumentar, com um discurso um pouco “agressivo”, contra o voto em branco. Ora, sendo ele dirigente nacional do BE e uma pessoa que está activamente envolvida na candidatura de Manuel Alegre, só consigo concluir que o Jorge Costa está preocupado com os votos da esquerda, principalmente os das pessoas que normalmente votam no BE, que a candidatura de Alegre não está a conseguir mobilizar.
    Portanto, de um certo ponto de vista o BE já começa a perceber que poderá ter sido um erro apoiar Manuel Alegre, pelo menos numa primeira volta e que com essa aposta política poderão perder margem de apoio e de votos. O texto do Jorge Costa parece-me revelar claramente esse receio.

    É para mim claro que a candidatura de Alegre é completamente incongruente: um dia aparece com o Sócrates e noutro com o Francisco Louçã; um dia crítica o governo e noutro dia glorifica o governo por ter conseguido vender dívida pública a juros astronómicos.

    Para acabar e muito sinceramente já estou farto do paleio de que temos de fazer todos um grande esforço nacional para derrotar Cavaco Silva, como se tudo o resto fosse acessório! Não há pachorra… é exactamente o mesmo tipo de argumentação que o PS utiliza nas legislativas para “supostamente” derrotar a direita.

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  12. amsf diz:

    Já encontrei o candidato que há-de levar o meu cartão vermelho às elites portuguesas, esse candidato é o José Manuel Coelho.

    Palhaço e maluco é o povo que vota sempre da mesma maneira esperando obter resultados diferentes!

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