Reino de Espanha, uma democracia para Daniel Oliveira


Um dia normal na democracia espanhola

Cuspindo uma série de chavões e ideias fabricadas nos estaleiros da imprensa espanhola, Daniel Oliveira escreveu um artigo de opinião abjecto. Em jeito de reverência ao seu amigo Zapatero, saúda a vitória da democracia espanhola sobre o terrorismo da ETA. Faltava a Daniel Oliveira, um par de castanholas e vê-lo dançar o flamenco na Audiência Nacional, à ordem da qual foram torturados milhares de cidadãos bascos.

Daniel Oliveira diz que, finalmente, se pode fechar o “ciclo de terrorismo interno na Europa”. Imaginem-no de tacões andaluzes, informando uma plateia abarrotada de balofos patrões e políticos de direita de que “o ciclo que se começa a fechar é o da existência de organizações violentas de esquerda nas democracias europeias”, como afirmou.

Mas não admira. É que para Daniel Oliveira democracia é onde há eleições livres como na democrática União Europeia. E violência, claro, só a de organizações terroristas ou a de organizações de esquerda que não compreendem que a justiça social se constrói dando a outra face. A repetição dos referendos sobre a Constituição Europeia, para Daniel Oliveira, terá sido uma forma de se aperfeiçoar a democracia. As prisões, torturas, ilegalizações e proibições de meios de comunicação social, no País Basco, ou as cargas policiais, detenções, degradação constante dos direitos conquistados pelos trabalhadores não são actos de violência. Serão, antes, resultado da casmurrice de uns poucos que insistem na ideia de que não vivemos numa democracia.

O artigo de Daniel Oliveira não é abjecto por considerar a ETA terrorista. Isso é o menos. É abjecto por condenar todo o tipo de violência e aqueles que se insurgem contra a violência dos Estados. Daniel Oliveira tenta passar a imagem de que está pela paz quando, na verdade, defende a Pax Romana. A paz do trabalhador que não se revolta contra o patrão. E o que os trabalhadores menos precisam neste momento é de ouvir apelos à paz.

Mas, no concreto, Daniel Oliveira mostrou não perceber patavina do que se passa no País Basco. Para agradar aos leitores e aos patrões do Expresso – que são os mesmos da SIC que há uns anos censurou uma entrevista de Rui Pereira com a ETA – lança uma série de generalidades sem qualquer base de sustentação.

Primeiro celebra o que diz ser o processo de rendição da ETA. Apesar de muitos de nós estarmos a favor do fim da violência daquela organização independentista, reconhecemos que está longe de estar derrotada. Com todas as fragilidades e contradições, sempre soube recuperar e levar a cabo acções armadas. Qualquer um que tenha no mínimo dois dedos de testa na cara, sabe que enquanto a raiz do conflito não for resolvida, a luta não cessará. E a ETA não fez um cessar-fogo incondicional. Apresentou-o como permanente, geral e verificável por instâncias internacionais, como pediram vários Nobel da Paz (nenhum deles chinês). Mas subordinado a duas condições essenciais: o reconhecimento do direito do povo basco à autodeterminação e a questão da territorialidade.

É que a Constituição da democracia de que tanto gosta Daniel Oliveira, herdeira do franquismo, proíbe, com a ameaça das forças armadas, a convocatória de um referendo para dar a palavra aos bascos e catalães sobre o seu próprio futuro. Na verdade, agora que não há a violência da ETA, fica a evidência da violência do Estado espanhol. Se para Daniel a ETA foi derrotada, sobram motivos para desconfiar que triunfou a democracia da tortura.

Depois, Daniel Oliveira fala em dois métodos diferentes que foram usados pelo Estado espanhol para a “derrota da ETA”. Um deles foi a via criminal e a outra a via política. À via criminal, Daniel Oliveira cola, e bem, os GAL mas, e mal, só os GAL. À via política, não se percebe bem o que cola mas mais adiante fala em “debate sobre as autonomias”, na via política ter conseguido mais resultados para a Catalunha e na estratégia de Zapatero ter sido criticada pela direita centralista.

Em primeiro lugar, à via criminal tem de colar os GAL, os sequestros, as detenções e tortura, as prisões, as ilegalizações e as proibições de jornais e rádios. Em segundo lugar, as conquistas que obteve a Catalunha deveram-se em grande parte ao receio do Estado espanhol de que a luta armada se alastrasse àquela zona e se desse o efeito dominó. Podemos estar em desacordo com a ETA mas reconhecer que foi a sua existência que forçou a grandes avanços e cedências às forças reformistas do nacionalismo basco e catalão. E sobre a estratégia ter sido criticada pela direita centralista é ridículo. Depois da ilegalização da Acção Nacionalista Basca, a esquerda independentista arredada das eleições provocou a subida ao poder do Partido Socialista aliado ao Partido Popular! A estratégia da ilegalização serviu os propósitos do PSOE e do PP que nos últimos anos sempre estiveram alinhados na “estratégia anti-terrorista”. Praticamente, a única coisa em que aquela gente se entende é em relação à estratégia repressiva contra a esquerda independentista!

Na realidade, e correctamente, a esquerda independentista basca percebeu que, no contexto histórico em que vivem, a luta armada já não abre caminhos. Isso quer dizer que vão dar voz à política? Não. Isso quer dizer vão continuar a dar voz à acção política. Porque a violência também é política e o Daniel Oliveira sabe-o. Não pode querer confundir política com acção pacífica. É tanto política os disparos da ETA como as mãos fechadas do torturador. Contudo, no País Basco, , entenderam que a partir de agora a luta de massas deve ser a protagonista, a par da participação nas instituições. Mas isso não quer dizer que se abrem tempos de paz. Abrem-se tempos de muita luta. E no próximo dia 29 de Janeiro dá-se a primeira batalha. No País Basco, as centrais sindicais independentistas marcaram uma greve geral. No Estado espanhol, as centrais sindicais seguiram os conselhos de Daniel Oliveira. Negoceiam a paz social com Zapatero.

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37 respostas a Reino de Espanha, uma democracia para Daniel Oliveira

  1. rms diz:

    O terrorismo só é giro quando é dos Eufémias, pá. Pelo meio ainda se fumam umas barbas de milho.

  2. koshba diz:

    Entrementes,a Espanha democrática,apadrinhou o UÇK ,organização terrorista, a instauração dum estado fantoche democrático,protetorado,e traficante de vários ‘recursos’…
    Edificante, a praxis espanhola,ue,nato,usa….depois,quando a esquerda ganha eleições,lembro no Chile dos anos 70,a Venezuela eis q esta gente vem palrar sobre ditaduras.Não há cú que aguente com estes padrões duplos

    • Gonçalo Valverde diz:

      A bem da verdade, que me recorde Espanha não reconheceu a independecia do Kosovo, por razões óbvias

  3. Antonio Mira diz:

    Só consigo ser muito pessimista… e não queria. Mas acho que o governo espanhol não vai fazer nada para que a esquerda independentista esteja nas eleições municipais. E, assim, seguimos nas mesmas.

    • JMJ diz:

      Independentemente da questão da participação da esquerda independentista nas eleições, é fundamental é que ela comece a desenvolver a sua acção de massas, no dia-a-dia.

      Se assim fizer e se conseguir exprimir a força das convicções independentistas bascas, irá triunfar.

      Conheço pouco da realidade basca para lá de testemunhos que me chegam mas sei que o reforço da intervenção e da luta de massas no Pais Basco, junto dos trabalhadores e da população só poderá trazer bons resultados.

      • Bruno Carvalho diz:

        Concordo.

        • Sim, é claro. Mas não esqueçamos que as acções de massas da esquerda independentista se têm visto criminalizadas nos últimos 10 anos por parte dos media e o governo. Desde a aberração jurídica garzoniana do “entorno” todo pode ser susceptível de criminalização, e assim foi feito. Para o panorama que há lá, eu acho que o trabalho de massas está bem desenvolvido. Quanto mais, melhor, evidentemente.

          Com certeza, esse será o caminho.

  4. Von diz:

    É pá, pois é, vamos mas é explodir com tudo o que mexa, que dia sem bomba é uma tristeza do caraças… olé!…

    • Bruno Carvalho diz:

      Von, você preocupa-me. A qualidade dos seus comentários consegue sempre surpreender-me pelo vazio dos argumentos.

      • Von diz:

        É chato vir cá um gajo chatear e não concordar, tipo comité central. Concordo com a recusa e irradicação da brutalidade policial. Discordo com a defesa de uma organização que pretende impor as suas ideias à bomba e à bala. Ficou claro?

        • Miguel Lopes diz:

          “Discordo com a defesa de uma organização que pretende impor as suas ideias à bomba e à bala. Ficou claro?”

          Não, não ficou.
          A ETA pretende impor o referendo à bomba e à bala. Ou seja, a ETA não pretende impor as suas ideias. Pretende, isso sim, impor o direito do povo basco a impor as suas ideias!
          Ficou claro?

          • Von diz:

            Não ficou? Eu repito: discordo com a defesa de uma organização que pretende impor as suas ideias à bomba e à bala.

            Vou incluir um outro factor: discordo, nomeadamente numa situação de vida, onde nem sequer se pode justificar o recurso à violência devido a uma opressão que não permita os cidadãos viverem dignamente.

            Mas é apenas uma opinião: eu discordo da forma de luta da ETA, você concorda. Estamos conversados. Ficou claro?

        • Gonçalo Valverde diz:

          Portanto, o Von discorda da resistencia francesa contra a ocupação Nazi, da resistencia timorense contra a invasão indonésia, dos movimentos de libertação nacionais africanos, etc.

          • jpc diz:

            É claro que seria muito interessante perceber exatamente o que querem os cidadãos bascos. Duvido muito que o povo apoie a esq

          • jpc diz:

            Perdão, é claro que seria muito interessante perceber exatamente o que querem os cidadãos bascos. E duvido muito que o povo apoie a esquerda nacionalista radical. Não é isso que tem mostrado nas urnas, pelo menos.

  5. Von diz:

    E outra coisa. Parece que as imagens não foram impedidas de filmar. Como seria a mesma cena no Irão, na Coreia do Norte, e nesses paraísos ideológicos? A brutalidade policial é lamentável! Sempre! E ignorar essa mesma brutalidade nos países “do coração”, é, mais uma vez, desonesto.

    Pá, tens aí um fósforo? O pavio, é curto?

    • Bruno Carvalho diz:

      Quem não tem argumentos vai buscar os de sempre.

      • JMJ diz:

        Mais um para a lista de espera da vacina do outro…

      • Von diz:

        Argumento para? Condenar a política de violência da ETA? Condenar a política de violência policial? Condeno ambas, e não apenas a que lhe dá jeito.

        • Renato Teixeira diz:

          Quando o Von souber ser equidistante, eu passarei a ser imparcial. Prometo e sem o recurso à pólvora.

          • Von diz:

            Você não saberá ser imparcial, talvez porque os seus ideais sinónimo das suas ideais gerais não lho permitem. Se calhar, pela mesma razão de eu não ser equidistante. E assim sendo…

          • LAM diz:

            Imparcial e equidistante……oops, outro Fernando Nobre?
            😉

        • Miguel Lopes diz:

          “Condenar a política de violência da ETA? Condenar a política de violência policial? Condeno ambas”

          Tudo bem. É estar fora da sua razão motivadora.
          Se vivêssemos na era feudal e houvesse uma sublevação violenta dos servos, também podias dizer que estás contra a violência tanto dos servos como dos senhores da terra. Tens é que perceber exactamente o que é que isso significa.

          Aqui defende-se a autodeterminação dos povos presente no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. Defende-se a democracia e a soberania, o direito dos povos a decidir a questão através de um referendo. Esse referendo tem sido sucessivamente negado, mesmo quando aprovado no parlamento basco.
          Assim, há duas maneiras de reagir: desistir da independência ou lutar por ela.

          • Von diz:

            E se essa sublevação se devesse a direitos básicos de condições de vida sub-humanas, estava justificada. Não me parece ser a mesma questão dos bascos. A questão da ETA não se refere a condições de vida, mas essencialmente a questões românticas de ideologia teórica. A independência começa na pessoa, não na bandeira. A independência começa no direito de dizer sem ser alvejado. A independência começa no desejo e direito de ser eu antes de ser do grupo que um grupo deseja que eu seja.

  6. Renato Teixeira diz:

    Grande, mas mesmo grande, resposta.

  7. koshba diz:

    Bem,a contradição do ‘Faz o que eu digo,Não faças o que eu Faço’ é um não acontecimento,não sabemos ou,melhor,não vemos, logo não Existe!Mas,para os Von brovksis o referendo do sul do Sudão para a independencia,está fixemas,ninguém fala q os democráticos espanhóis não admitem referendo sobre a separação das diversas nacionalidade se a elas apetecerem…
    Realmente,a estas bestas,a estes desonestos não têm direito a grosnar.Censura com eles,do mesmo modo q não há media de Esquerda no Maravilhoso Mundo Democrático,das Torturas,das Guerras,dos Tráficos de Órgãos, e todas a nojices e aberrações em prole da ganância

    • Von diz:

      Koshba: censurar o pensamento de cada um, quando não é igual ao teu, é quereres ser Bush e Fidel ao mesmo tempo. Censurar porque não se gosta, é uma forma pide de ser esquerdista.

  8. Ho Chi Mihn diz:

    Arriba Franco!
    Más alto que carrero Blanco!

    Tanta lágrima de crocodilo, tanta indignação hipócrita plas “vítimas da ETA”…
    Quantas vítimas produz a união europeia todos os dias?
    Quantas vítimas já fizeram a ocupação do Iraque, afeganistão ou Palestina?
    Quantas vítimas agonizam às mãos dos “mercados”?

    E depois vêem sempre aquela choradeira da “democracia” e dos “direitos humanos”… Mas qual democracia? A democracia dos banqueiros? Quais “direitos”? Só se forem os direitos dos “especuladores”.

    Von: alista-te como voluntário na bófia pá! E cumpre assim o teu “dever cívico e patriótico”, mas não chateies a malta.
    Viva mas é o País Basco e Liberdade!

  9. LAM diz:

    A ETA e os independentistas têm sido entrincheirados pelo estado espanhol, não lhes sendo permitido sequer a intervenção democrática das suas organizações políticas de massas. A partir daí e nestes anos todos, o estado espanhol só tem de se queixar de si próprio e da política surda, repressiva e terrorista que tem imposto aos nacionalistas.

  10. francisco caetano diz:

    quantos homens e mulheres matou à bomba e a tiro a ETA (desculpo-lhe o carrero blanco)?durante o mesmo período de tempo(para estas contas não vale contar os fuzilados da guerra civil) quantos mortos as forças policiais do estado espanhol fizeram? para mim que sou pela autonomia máxima das regiões a ETA NÃO é uma força revolucionária. uma força revolucionária não mata a eito, luta com objectivos e alvos muito bem definidos privilegiando ou exclusivamente os do estado opressor. NÃO é o caso.

    • Bruno Carvalho diz:

      O Estado espanhol matou cerca de 465 cidadãos bascos. Foram detidas cerca de 50 mil bascos. Houve 10 mil denuncias de tortura. Até agora, 7 mil pessoas presas por motivos políticos e 2500 que estiveram ou estão exiladas.

  11. Miguel Lopes diz:

    “E se essa sublevação se devesse a direitos básicos”

    A autodeterminação é esse direito básico.

    “onde nem sequer se pode justificar o recurso à violência devido a uma opressão que não permita os cidadãos viverem dignamente.”

    Contradição. Uma opressão é justamente aquilo que retira dignidade aos cidadãos.
    O não reconhecimento da autodeterminação é indigno, e deve portanto ser combatido.
    O problema é que não pode ser combatido pela via pacífica, legal e institucional como seria preferível. Resta a lei da traulitada. Não é nenhum fetiche sociopata por armas e sangue, é apenas a reconhecimento honesto de que todas as outras vias se esgotaram. Às vezes tem que ser assim.

  12. José diz:

    “Audiência Nacional, à ordem da qual foram torturados milhares de cidadãos bascos”
    Como é?! Fale a sério…

  13. deletereo diz:

    Gostei do vídeo: a polícia basca, com polícias bascos, dependente das insituições bascas, comandada por bascos, a reprimir bascos.

  14. mesquita alves diz:

    Boa tarde,
    Quando existia a URSS, qual seria a vossa opinião se alguma republica se quisesse divorciar? Estou ansioso pela vossa resposta…Como diz o povo,” pimenta no cu dos outros, é refresco para mim”.

    • Miguel Lopes diz:

      “Quando existia a URSS, qual seria a vossa opinião se alguma republica se quisesse divorciar?”

      A mesma.

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