Hoje apetece-me falar da bruta fala da criada dos Noailles que no fim de contas vamos descobrir chamar-se também Sévérine numa noite de Inverno de 1975, em Hyères

A Fala da criada dos Noailles que no fim de contas vamos descobrir chamar-se também Sévérine numa noite do Inverno de 1975, em Hyères estreou em Julho na Culturgest e já passou pelo Porto, mas só agora, que está em cena no Teatro da Trindade, é que a fui ver.

O gigante título à la Brecht, carregado de tempo e espaço, definição da personagem e processo de conhecimento do espectador, é só por si apetitoso. Mas confesso que fui de pé atrás porque Jorge Silva Melo, de quem confesso ser uma grande admiradora como encenador, me desiludiu com a Hedda que vi há pouco no Teatro S. Luiz.

Mas aqui voltámos ao delicioso, sublime, como diria a senhora condessa.

Fala da criada dos Noailles que no fim de contas vamos descobrir chamar-se também Sévérine numa noite do Inverno de 1975 propõe-nos pensar nos mecenas da arte e na própria arte – para que serve? não serve para nada, diz-nos a esposa rica de um álcoólico que o quer ver milagrosamente tratado pelo choque de se ver retratado roxo a vomitar. Uma bela canção final que talvez merecesse mesmo uma melodia arranhada e circular mantendo o cómico, pelo meio do discurso falado.

Propõe-nos pensar num antigamente numa casa de condes cheia de movimento e artistas e na decadência e no vazio que veio depois. Propõe-nos pensar assim num ontem, num palácio de hier, e pensarmos no hoje, aqui, já com alcoolismo e colesterol. Mas sem saudosismo: o que era também para aqueles condes esse antigamente em que a casa tinha as luzes acesas toda a noite e tanto movimento intelectual e artístico? – podemos interrogar-nos. Conversas profundas sobre a arte e o mundo ou apenas a repetição do mesmo comentário acrítico em relação a tudo – «delicioso, sublime» – e historietas de sexo de todos com todos na idade de ouro de um intenso bacanal? Ou esse é apenas o ponto de vista da criada?

Propõe-nos pensar, pois, no que traz afinal de contas na bagagem uma criada que ouviu tantas conversas e que serviu até de objecto de arte várias vezes – pode até ser que ela julgue mesmo que o surrealismo é uma doença que faz nascerem no lugar da cabeça máquinas de costura e nas pernas caules de girassol, mas pode ser também que tenha percebido mais sobre aquele mundo do que os figurantes mais importantes. Talvez por estar mais próxima do comer e do foder? Brecht outra vez a sussurar-me aos ouvidos…

Propõe-nos pensar para que serve um elenco de 23 actores quando 21 deles são usados só nos últimos minutos do espectáculo para fazerem de figurantes de um quadro (ou dois) – os fantasmas dos mecenas. Para o cartaz? para chamar público e arranjar financiamentos? para fazer os gostos de quem paga – parcamente – o teatro hoje? Para que servem os actores que não falam nem se mexem? Podem agradecer no final ao lado das duas monologadoras? Ou isso é um abuso? – «não fizeram nada…»

Propõe-nos pensar se é de facto preciso conhecer e decifrar as milhentas referências e citações do mundo artístico e cultural de que a fala da criada se recheia, para perceber alguma coisa do que se viu. Ou se basta conhecer algumas. Ou se, se se der o facto de não se conhecer nenhuma, mesmo nenhuma, ficamos ou não a ver a peça como um espectáculo para rir e pronto. (Bom, de perceber que há duas classes – a dos condes e a da criada – ninguém se safa). Será um espectáculo só para uns?

Propõe-nos indagar se não será para mostrar aos vizinhos do lado que se tem imeeenso conhecimento que vários espectadores em dia de estreia num teatro da capital se riem exageradamente, a bandeiras despregadas, do princípio ao fim do espectáculo, sem quererem sequer dar-se espaço para poderem pensar mais além, a partir do que vêem e ouvem. Talvez esses espectadores, com a sua ânsia de mostrar-se cultos num mundo que afinal ainda é de pavões (apesar da decadência…), não tenham pensado que não estão senão a mostrar a sua ignorância quando não riem – porque afinal não entenderam a referência a Lurçat, de quem nunca ouviram falar (porque não vão às leituras d’A Paleta e o Mundo de Mário Dionísio na Casa da Achada… cof, cof).

E para não me estender mais em divagações salteadas que nada encerram e que são apenas questões – porque são questões o que esta peça nos dá, sobretudo – termino dizendo que nada se teria passado ali se não fosse o trabalho incrível (de preparação e em palco) da actriz Elsa Galvão, que soube aguentar a fala da criada no ponto certo. O que quer dizer, para além de muitas outras coisas, que soube perceber o texto desbragado e solto, vivo e bruto, que Jorge Silva Melo quis pôr na boca desta criada, desbragada e solta, viva e bruta. Um texto com um ritmo tão bem construído.

Vão ver. Está até dia 29 de Janeiro no Teatro da Trindade.

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2 respostas a Hoje apetece-me falar da bruta fala da criada dos Noailles que no fim de contas vamos descobrir chamar-se também Sévérine numa noite de Inverno de 1975, em Hyères

  1. António Figueira diz:

    Vão ver, vão. Eu fui lá esta noite, e gostei muito – e ainda tive o prazer de dar de caras com o Vitor “Tempo das Cerejas” Dias, da melhor blogosfera lisboeta (se me é permitida a expressão).

  2. A ver se consigo.
    Axo que vi a «Hedda Gabler» quando era miúdo por essas redondezas (Strindberg ?) com a Maria Emília Correia faz muito tempo.

    Sempre gostei do Jorge S.M. devo confessar.
    Desde os tempos do início da Cornucópia, com o Luís Miguel (saudades também p’ra si prof. Lindley).
    Desculpem o ‘name-dropping’.
    🙂

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