Fiquei sem perceber o mestre-escola do anarquismo: deseja-lhe as melhoras ou fica-se pelas condolências?

Auto-retrato de Gil Vicente, pintor brasileiro que tem o assassinato como tema artístico.

“Renato Teixeira,
este post, com uma imagem que vale por mil palavras, é de um reaccionarismo soez. O modo como você alimenta com piscadelas de olho o branqueamento do nazismo e de Hitler mete nojo. Exultar com o espectáculo da miséria física e agonia prolongada seja de quem for – ainda que de Hitler, Pinochet, Estaline ou Pol Pot se tratasse – é uma vileza de esbirro e um refocilar de delator.
Tenho pouca esperança de que reconsidere e prevejo que ou censure este comentário ou bolse as piedosas aleivosias do costume. Mas faço questão de o mandar para o diabo que o carregue. Já que se recusa a ter esse um mínimo desse ingrediente civilizador a que se chama vergonha.”

Miguel Serras Pereira.

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26 respostas a Fiquei sem perceber o mestre-escola do anarquismo: deseja-lhe as melhoras ou fica-se pelas condolências?

  1. Bruno Carvalho diz:

    Miguel Serras Pereira, não refira Hitler. Não estou aqui a apoiar o Renato mas, certamente, se vivesse na época, teria aplaudido o papel dos democratas Chamberlain e Daladier no Acordo de Munique. Não defendo a solução final para qualquer que seja o povo ou qualquer que seja o seguidor religioso. Não defendo que Hitler devesse ter eliminado quem quer que fosse que não a si e aos seus seguidores. Mas o espectáculo protagonizado pelos sionistas está ao nível dos nazis. Ariel Sharon não merece qualquer tipo de piedade. Não defendo a tortura. Contudo, por azar, o carniceiro de Sabra e Chatila não foi julgado e condenado como devia ser. Felizmente, está bem onde está. Ali não chateia ninguém. E o Miguel Serras Pereira também está bem onde está, graças ao papel do Exército Vermelho, que limpou o nazi-fascismo. Infelizmente, para mim, os Chamberlaines e os Daladiers nunca se foram embora.

    • Von diz:

      Ah, se não fossem os vermelhos. Ainda se vai descobrir que o Eusébio foi figura central da revolução.

    • Renato Teixeira diz:

      Este debate não trata, felizmente, de nenhum Renato, de nenhum Bruno, nem de nenhum Serras Pereira. Quanto ao tema o teu comentário acrescenta praticamente tudo o que faltava.

    • José diz:

      De tanto repetir uma falsidade ela vai criando uma aura de verdade imutável.
      Terá Sharon cometido muitos erros, mas ele não é libanês e não foi ele quem deu ordem para os massacres de Sabra e Chatila, os quais, aliás, devem ser lidos no contexto da guerra civil libanesa e dos seus massacres, de lado a lado.
      O Exército Vermelho teve uma parcela da responsabilidade na queda do nazismo – o fascismo já havia caído e com as tropas inglesas, americanas, polacas, indianas, brasileiras, entre, outras, mas nunca com os soviéticos – mas não toda, como parece óbvio.

    • José diz:

      Já agora, Bruno, não o vejo mencionar o acordo Ribbentrop-Molotov, tratado internacional que permitiu a Hitler a aventura polaca, que previa a divisão do território polaco entre o III Reich e a URSS, que possibilitou Katyn, que desencadeou a II Guerra Mundial.
      Como vê, não terão sido apenas os Chamberlaines e os Daladiers que nunca terão ido embora.

  2. Eu pecador me confesso: em público não desejo a morte a ninguém não é <«educativo»
    Em privado eu seria perfeitamente capaz (com 2 dedos e um cotovelo…) de pôr debaixo de terra todas essas criaturas mencionadas acima ~~~ e elas merecê-lo-iam ~~~ mas guardaria silêncio sobre o assunto, nada de sequazes, prosélitos, catequistas, isso.
    Depois teria que viver com a circunstância , nada fácil, assombrações.
    🙁

  3. maradona diz:

    acho que o renato deveria ter resistido à tentação de colocar em destaque um comentário em que se afirma a certeza de que o mesmo iria ser por si censurado. para além de ser mais giro, revelaria mais energia e criatividade na transformação da realidade e essas merdas assim.

    • Renato Teixeira diz:

      Devia nada. Precisamente por esse motivo. Quando MSP esperava a censura, ou, na melhor das hipóteses, um bolse, nada como lhe mostrar que a sua intervenção nem sequer superou, à luz de qualquer ponto de vista, o colostro.

  4. miguel serras pereira diz:

    Não tive a censura, mas o bolsar não faltou.
    E a incompreensão, também não. Bruno Carvalho, ouça, por favor: uma coisa é AS não merecer piedade, outra é um tipo comprazer-se com a sua agonia. Como bem explica o camarada aviador: posso estar perfeitamente decidido a limpar do mapa um tirano, mas recusar-me a fazer das consequências de uma sua agonia prolongada um espectáculo de circo. Quer outro exemplo? Não me chocaria que Ezra Pound tivesse sido fuzilado por resistentes italianos que o tivessem apanhado no fim da guerra; mas acho abominável que tenha sido enjaulado e oferecido em espectáculo nessa condição. Percebeu agora? Quanto à discussão sobre a Segunda Guerra Mundial que me propõe, terá de ficar para outra altura. De qualquer modo, não me lembro de ter alguma vez pensado ou dito que a natureza anti-popular do regime estalinista foi consequência ou condição do combate do Exército Vermelho contra os nazis.
    Por fim, não faltou o analfabetismo militante do Maradona, que manifestamente ignora a diferença insondável que separa uma disjuntiva de uma copulativa. É de supor que, nalgum magazine genérico-jugularmente correcto que a Jornalista de Ferro lhe tenha emprestado, possa ter lido a legenda mais extensa de uma fotografia do Deleuze, confundindo, com a ignorância do francês a ajudar, a oposição entre “ou bien … ou bien” e “et … et” com a sua dentidade ou equivalência.

    msp

    • Renato Teixeira diz:

      MSP, tratou-se de uma citação sua e de uma pergunta que depois de me insultar sem qualquer piedade, não respondeu. Reproduzi o seu colostro e guardei para agora o bolse. A queda do Salazar da cadeira não foi obra da classe operária, nem tão pouco o coma do Sharon, mas estou certo que terão assistido ao fenómeno com regozijo. Devemos guardar a misericórdia para quem a merece e devemos, como o movimento popular, brindar à queda de generais no campo do inimigo. Quando caem assim, de cadeiras ou em comas, é menos entusiástico mas igualmente motivo de grandes festejos. O mundo, e principalmente o povo que tanto cantamos, agradece.

      • Renato Teixeira diz:

        Agora se me permite vou comprar cigarros. Talvez volte, talvez não. Não voltarei ao debate consigo, seguramente, para aturar nem a sua azia nem os seus insultos aos quais dificilmente regressarei sem resposta: melhoras ou condolências?

    • Bruno Peixe diz:

      Miguel,

      Gosto de te ver tomar distâncias, aqui na blogosfera, em relação à esquerda moralista com que às vezes namora. Eles não vão gostar nada de ver dizer que não te chocaria ver o Pound fuzilado. Quer dizer, o problema não seria o Pound, seria um ser humano. Por mim, nesse ponto, tendo a estar de acordo contigo, embora não percebo muito bem porque é que se mataria o Pound depois da guerra, quando já não representaria ameaça. Por vingança? Nestas questões de morte e de fuzilamento e eliminações, não há justificação que não seja a da luta, e a da defesa de uma conquista colectiva ameaçada pelo interesse egoísta de uns poucos. Já a vingança, ainda mais servida por tribunais, me parece uma descarga inútil de raiva, numa ordem política que deve ser tão racional como o binómio de newton e a vénus de milo.
      O mesmo vale para o Sharon. A vingança não faz parte da política. E de resto, quando um gajo destes sai de cena, há logo vinte filhos-da-puta (especializados em fazer, diria o Alberto Pimenta) em fila para o lugar dele.
      Abraços a todos,
      bruno

      • miguel serras pereira diz:

        Caro Bruno,
        tens toda a razão, mas o que eu queria dizer com “o fim da guerra” era o período final da mesma (“vers la fin de la guerre”).
        Abraço republicano

        msp

  5. é muito mau chamar palerma ou pior ao miguel ?

  6. msp, não sei porque é que alguns o odeiam tanto por aki (dá p’ra notar…) eu se quisesse e soubesse não teria dito/escrito melhor.
    Greetings e é isso mesmo, nada a acrescentar.

    🙂

  7. Miguel diz:

    Se esta imagem o choca, Miguel Serras Pereira, o que dizer, então, dos cartoons realizados pelo excelente artista brasileiro Carlos Latuff?
    Quanto ao cartoon publicado pelo Renato Teixeira, não me choca e apenas expressa o sentimento de muitos palestinianos, como também de muitos que os apoiam.
    Há 60 anos atrás, julgo que qualquer bom artista teria feito o mesmo desenho em relação a Hitler.

  8. miguel serras pereira diz:

    Obrigado, caro James Cook Alvega. Mas não seja tão modesto – fui eu que comecei por fazer minhas as suas palavras… Bem gostava eu de o ver cruzar de vez em quando os céus da nossa esplanada via-factuante – si jamais le coeur vous en dit.
    Quanto ao resto, Renato Teixeira e Admirador@s, a resposta é, não só mas também: nem melhoras nem condolências. Ou seja, nem melhoras nem condolências, mas com a seguinte precisão : podemos saudar como uma boa notícia ou um acaso feliz, um acidente que nos livra de um tirano, mas regozijarmo-nos com o seu apodrecimento em vida por doença, oferecer a sua imagem nessa condição como atracção circense, é uma obscenidade. E só pode servir para reforçar a bestialidade política dos tempos que correm e da qual esse tirano foi protagonista.

    • Renato Teixeira diz:

      Reforçar não, lembrar. Simplesmente lembrar. E festejar, claro. Festejar sempre! Há brindes que não se devem deixar por fazer.

  9. Ho Chi Mihn diz:

    ah, ah, ah, ah, ah! Coitadinho Só não percebo é o perfil ideológico: o Miguel Serras Pereira é anarquista, moralista ou anarco-moralista?

  10. Miguel diz:

    Caro Ho Chi Mihn,
    Creio que o Miguel Serras Pereira é destas pessoas que se ofende com muito pouco. Na verdade, apenas se trata de uma simples imagem, a qual o MSP diz ser “reaccionária”.
    Que diria o próprio se visse as imagens publicadas pelo cartoonista Carlos Latuff contra as continuadas agressões do exército israelita ao povo palestiniano?
    No fundo, trata-se de um moralista, com muito pouco de anarquista.
    Um abraço

    • miguel serras pereira diz:

      Não é a imagem, isoladamente, que é reaccionária – mas o post, no seu todo.
      Uma coisa é limpar o sarampo a um ditador ou agente do tirano, outra é propor como objecto de gozo a imagem do apodrecimento em vida de alguém – ainda que seja um carrasco – reduzido à impotência.
      Repito: “podemos saudar como uma boa notícia ou um acaso feliz, um acidente que nos livra de um tirano, mas regozijarmo-nos com o seu apodrecimento em vida por doença, oferecer a sua imagem nessa condição como atracção circense, é uma obscenidade. E só pode servir para reforçar a bestialidade política dos tempos que correm e da qual esse tirano foi protagonista”.
      msp

  11. Miguel diz:

    Sim, sim…

    O problema foi quando escreveu o seguinte:

    «O modo como você alimenta com piscadelas de olho o branqueamento do nazismo e de Hitler mete nojo. Exultar com o espectáculo da miséria física e agonia prolongada seja de quem for – ainda que de Hitler, Pinochet, Estaline ou Pol Pot se tratasse – é uma vileza de esbirro e um refocilar de delator.»

    Pode tentar disfarçar agora uma coisa que já deu para mostrar que…

    …não merece a pena.

    • Renato Teixeira diz:

      Evidente.

      • miguel serras pereira diz:

        Obrigado pelo “evidente”, Renato Teixeira. Claro que eu não escreveria o que escrevi se não achasse que tinha razão para o escrever.
        Miguel, o que cita do que escrevi é uma observação ao comentário de alguém, apoiado pelo RT, que dizia que o Hitler não tinha sido assim tão mau, pois só exagerara um bocadinho… O que é que acha problemático, ao certo?

        msp

  12. Ho chi Mihn diz:

    Óh Serras Peireira:

    Deixo-te um link sublime: http://3.bp.blogspot.com/_Bu3NXADAiWM/S9hqaOSUQ0I/AAAAAAAADwo/btPM7z9gaFc/s400/mussolini_e_petacci_a_piazzale_loreto_1945.jpg

    Na Primavera de 45, os partisans italianos capturaram, julgaram e fuzilaram Mussolini e a sua pequena corte. Reaccionários como eram (repara que não houve “garantias legais” para os réus) arrastaram os corpos pelas ruas de Milão para que o reaccionaríssimo povo pudesse pontapear e cuspir sobre os cadáveres. Depois, penduraram-nos (num retrógado exibicionismo) na praça central da cidade. Enfim, dessa (e de outras fotos) fizeram-se postais que circularam em grande gozo e revanche por meia Europa (a malta devia ter muito pouca consciência sobre “direitos humanos”, “dignidade da pessoa” e esse tipo de coisas)…

    No próximo 25 de Abril (data da libertação da Itália) não se esqueça de encomendar uma missa

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