Manitas nos meus bolsos

Cumpriu-se hoje o primeiro dia de trabalho em que (contrariado, mas certamente cheio de um orgulho patriótico que não descortino mas um dia hei de descortinar, que diabo!) dei uma contribuição extra para que os nossos socráticos governantes possam, com mais facilidade, pagar coisas essenciais à nação – como os roubos e ilegalidades dos amigos do Prof. Cavaco Silva no BPN, ou as facturas das parcerias público-privado com a Mota-Engil e quejandos.

Parece que já não haverá dinheiro para estímulos à economia e ao emprego, ou para apoiar os desgraçados que se vejam no olho da rua (agora mais facilmente que antes) mas… Também não se pode ter tudo, não é?

Tais lacunas não serão, contudo, por falta da minha patriótica contribuição.
Afinal, já o ano passado, com IRS e a Segurança Social (a tal que depois dificultam a quem mais precisa), nunca via um terço do salário. Depois, somando a isso o IVA sobre o que comprava, lá ia entregando aos nossos doutos governantes, como quem não quer a coisa, 47,3% do que era suposto ganhar.
Agora, com 8% do salário a desaparecer à cabeça, qual imposto patriótico, e o IVA mais elevado, tornei-me finalmente um cidadão à séria. Já dou a maioria do que ganho (52,8%) para que os senhores Sócrates de Sousa e Teixeira dos Santos possam gastar no que consideram realmente importante.

Será que o Sr. Mercados a tal personagem cheia de massa e omnisciência, larga assim tanto do seu rico dinheirinho para desinteressadamente ajudar a nossa D. Dívida Soberana?

Entretanto, continua a fascinar-me a forma como a tal de Terceira Via, uma vez ocupados os restos partidários das velhas ou recentes social-democracias, vai mais além do que qualquer partido conservador se atreveria, na destruição da sua obra histórica (onde a tem) e de quaisquer traços de justiça social.
Tal como continua a fascinar-me observar os efeitos arrasadores, para o país e a democracia, dos novos Juliens Sorrel de O Rosa e o Laranja a que temos direito.
Ou, então, a enojar-me. Tem dias.

Mas uma coisa é verdade. Este pessoal tem algum jeito para a coisa.
Já nos podiam ter lixado menos, fazendo-o muito mais à bruta.

Outro dia, em conversa com um amigo economista, dizia-me ele que, com o FMI, podia ser bem pior. «Por exemplo, podiam tirar-nos o 13º mês.»
«Mas vão-nos tirar mais que isso», respondia eu. «8% vezes 14 salários por ano dá 112%, é mais do que um salário.»
«Pois é!…»

Pois é…
Se vamos cantando e rindo, não sei.
Mas levados, certamente que sim.

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8 respostas a Manitas nos meus bolsos

  1. Von diz:

    Cabe-nos a nós, nas urnas, enfiarmos um belo chuto em todos os que o seu escrito descreve. E desses todos, não deixar nem mais um pio, de arrogância e injustiça. E desses todos, esquecermo-nos que existiram. Cabe-nos a nós, nas urnas.

  2. Com urnas ou sem elas (e eu não vou pôr lá os pés, it’s a family tradition, e nada/ninguuém me entusiasma para me dar ao contrário…) ixto em 2011 vai ficar ainda muito pior, believe you me…
    Também não é preciso ser «sábio», basta olhar para o horizonte
    Cuidem-se.

    🙁

    • Von diz:

      E então, fiquemos todos agachados à fogueira, à espera que os cães nos farejem e nos mordam definitivamente a dignidade…

      Se não usarmos os meios que o sistema nos deixa, tudo será mais difícil.

  3. miguel serras pereira diz:

    Muito bem, Paulo.
    Só dois reparos menores: é “Sorel” e não “Sorrel”, e o romance é O Vermelho e o Negro (Le Rouge et le noir) – eu diria que faz parte da genealogia estética da Morgada.

    Saudações democráticas

    msp

    • Paulo Granjo diz:

      Caro Miguel:

      Correcto no “r”, mas distraído nas cores: o link remete para um post chamado “O Rosa e o Laranja”, que faz um paralelo entre um tipo de políticos do centrão, que se tem desenvolvido nas últimas décadas, e o percurso do protagonista de “O Vermelho e o Negro”.
      Já tem para aí um anito, mas continua a parecer-me bem actual.

      Saudações democráticas, e de todos os outros géneros que se enquadrem no terreno comum de quem queira descobrir alternativas justas, independentemente das diferenças que os distingam.

    • Morgada de V. diz:

      Guilty (eu) as charged.

  4. Esse romance do Marie-Henri Beyle vulgo Stendhal só perde, quanto a euzinho para a«La Chartreuse de Parme», principal personagem tão odiento/estúpido (qué qué essa m#$%&a de dormir com a tia ?) quanto o Julien isso, romance fenomenal.
    🙂

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