Há política para além da representação? E do indivíduo? Contra a esquerda moralista (2)

Continuando a leitura que comecei abaixo de um post de Rui Bebiano publicado n’A Terceira Noite, acho que valeria a pena discutir algumas consequências políticas dos princípios que Bebiano enuncia e da leitura que faz de Badiou. Tanto as primeiras como a última são, em meu entender, sintomáticas, de um certo modo de pensar à esquerda. Chamei a esse modo de pensar ou, mais correctamente, a esse posicionamento – porque de um posicionamento, mais do que de uma doutrina coerente se trata – moralismo de esquerda. Esse moralismo de esquerda é, parece-me, filosoficamente débil e politicamente inconsequente. Filosoficamente débil porque faz tábua rasa da crítica do humanismo e do individualismo que lhes foi dirigida pelo melhor pensamento político do século XX. Politicamente inconsequente porque incapaz de sair das próprias contradições em que se acaba por encerrar  quando, por um lado, constata melancolicamente o desastre do mundo que a rodeia, e por outro lado, é incapaz de abandonar os próprios princípios que subjazem ao desastre – uma visão do mundo individualista e antropocêntrica, que encontra no juízo individual o horizonte último de sentido do modo humano de estar na política.

O texto de Bebiano sobre Badiou é disto um exemplo acabado. E passo a explicar porque é que, no meu entendimento, assim é. Mas antes disso não gostaria de deixar de notar a falta de rigor com que Bebiano se refere a Badiou. De acordo, um post não é uma dissertação académica nem um artigo científico, mas é algo que alguém apresenta publicamente, que se dá a ler a uma comunidade de leitores. É sem dúvida uma das formas contemporâneas daquilo que Kant chamou o uso público da razão. Como tal, seria bom que um autor não fosse julgado a partir do ouvir-dizer-por-aí, nem tampouco a partir de digests do seu pensamento que saem em revistas. E isso parece-me ainda mais grave vindo de um professor universitário como Rui Bebiano. Com certeza que ele não gostaria de ver as ideias que desenvolve na sua obra publicada tratadas da mesma forma que trata as de Badiou. Até o título da obra referida é mal citado (Badiou não escreveu dois manifestos da filosofia, mas sim dois manifestos pela filosofia).

Mas vamos ao que interessa. Bebiano divide aquilo que tirou de Badiou em dois grupos: aquilo que ele entende ser apropriável no pensamento do filósofo francês e aquilo que ele rejeita liminarmente. E o que é que é apropriável no entender de Bebiano? O potencial da filosofia para desestabilizar as opiniões dominantes, nomeadamente para por em causa o dogma da inevitabilidade de uma ordem política assente na democracia representativa. E para nos lembrar que o tema da emancipação da humanidade contido na ideia de comunismo ainda é válido.  Resumindo, interessa a Bebiano, na obra de Badiou, uma certa crítica do que existe, nomeadamente o facto da ordem político-ideológica dominante não aceitar inimigos, mas apenas adversários. Ou seja, aceitar posições rivais num jogo, mas não aceitar outras regras do jogo. Não conheço melhor expressão disto do que a posição de tantos democratas: aceitamos todas as ideias, menos as que são contra a democracia.

O que Badiou nos quer fazer pensar é justamente o modo, como numa determinada ordem política, as regras, pelas quais essa ordem é regida, organizam os juízos acerca das possibilidades de transformação. No mundo que é o nosso, o potencial de transformação reduz-se a uma expressão probabilística de projecção no futuro da ordem presente. Assenta aqui que nem uma luva a tese de Fredric Jameson, que Zizek tanto gosta de citar: « é mais fácil imaginar o apocalipse [ecológico, nuclear, etc.] do que o fim do capitalismo ». E imaginar deve ser aqui entendido literalmente: como produção de imagens e de representações. O acontecimento, em Badiou, é justamente a criação de novas possibilidades de invenção política, ou seja de forjar colectivamente um destino comum para a humanidade, de abrir o caminho para uma possibilidade que, do ponto de vista da ordem política dominante, é impossível. Trata-se, na sua formulação feliz, da possibilidade de novas possibilidades. Possibilidades que o consenso dominante exclui do horizonte de possibilidade.

A questão é que o consenso funciona através de certos operadores que organizam os espaços de possibilidade da política, de que resulta um estreitamento das opções disponíveis num dado momento, a sua redução a uma mera repetição do mesmo, ou a variações sobre o mesmo tema, sob o pano de fundo ideológico da necessidade – é necessário que existam hierarquias, um sistema de recompensas para quem trabalha, a propriedade privada dos meios de produção, que a política se faça através de representantes eleitos, que as pessoas se agreguem em nações, que os afectos se organizem em famílias etc. A própria ideia de liberdade é reduzida a uma dimensão de escolha entre opções existentes.

Ora o sufrágio universal, que Bebiano defende como pedra basilar da democracia, é justamente um desses operadores do consenso, que reduz o espaço da política ao jogo da representação. Que recusa o inimigo em nome do adversário, e que portanto escamoteia o antagonismo sobre o qual se funda a ordem existente, um antagonismo que é de facto invisível para quem toma o individualismo como horizonte inultrapassável da política, como o faz Bebiano. Para isso, é preciso pensar a política para além da oposição entre colectivismo e individualismo, uma oposição que interessa hoje, sobretudo, ao consenso liberal que nos governa, que gosta de assustar com o espectro do totalitarismo colectivista quem quer que ouse pensar a política fora da sacrossanta trindade estado-capital-representação. Mesmo que não seja essa a sua intenção, é esta posição que Rui Bebiano reforça – a da equação entre democracia, representação e direito individual.

Ora, Badiou não pretende opor à liberdade individual o colectivo, muito menos um colectivo estatal, como parece sugerir Rui Bebiano. Leia-se por favor, Abrégé de Métapolitique, ou Peut-on Penser la Politique, ou D’un Désastre Obscur (para ver se acaba de vez essa ideia grosseira de um Badiou estalinista) ou o texto Philosophie et Politique (incluído em Conditions). O que Badiou defende é a dimensão intrinsecamente colectiva do sujeito político. Mas aqui Badiou não está sozinho, bem pelo contrário, o essencial do pensamento contemporâneo da política passa por uma interrogação do que possa ser um tal sujeito colectivo (seja-me permitido remeter, aqui para o livro que organizei com o Zé Neves, A Política Dos Muitos, e que reúne textos de autores contemporâneos sobre a subjectividade colectiva em política).

Aqui reside outro equívoco de Bebiano: tomar Badiou como um pensador da unidade. Não só Badiou não pensa o colectivo como rolo compressor das singularidades, como não pensa o processo histórico como um todo, guiado por uma ideia orientadora. Aqui, mais do que incompreensão, estamos perante o erro de quem não se deu ao esforço de fazer o trabalho de casa. Badiou afirma repetidas vezes: a história não existe. E não existe justamente como totalização, como operação de doação de um sentido a uma sequência factual englobante, no qual se revelaria o movimento da humanidade, ou do espírito, ou do progresso. Badiou encontra-se nos antípodas do historicismo. Ao contexto, à norma epocal, ele prefere sempre a singularidade na sua irredutibilidade ao histórico e ao social, como aquilo que não pode ser entendido pelos dispositivos conceptuais e enciclopédicos que constituem os saberes estabelecidos. Que é como quem diz, aquilo que escapa às classificações. Quão longe estamos aqui da concepção de história orientada por um ideia, que Bebiano lhe atribui, sabe-se lá porquê. Se calhar porque acha que Badiou é estalinista, e como o estalinismo tinha uma determinada concepção do processo histórico, toca a atribuí-la a Badiou. Saiu o tiro ao lado.

Caro Rui Bebiano, mais um esforço, se quereis fazer uma verdadeira crítica.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

9 respostas a Há política para além da representação? E do indivíduo? Contra a esquerda moralista (2)

  1. Leitor Costumeiro diz:

    Moral!!!??
    Alguém anda a precisar de ler Kropotkin…
    Vocês, ao invés de serem tão amigos do preconceito, podiam chatear-se com ele de vez em quando….

  2. Da representação da representação ou do estatuto da representação,por uma epistemologia da representação:uma representação que se representa a si mesma não representa coisa nenhuma para além de operar uma falsa relação entre representante e representado,sujeito e objecto…

  3. Z diz:

    as posições rivais tentam institucionalizar outras regras do jogo (vide programa do PCP, partido representado no Parlamento que participa em eleições e enuncia livremente as suas propostas)…logo, as outras regras do jogo e a própria possibilidade da sua institucionalização fazem parte do jogo actual…Os Verdes, por exemplo, eram politicamente inconsequentes na Europa há 2-3 décadas atrás (se bem me lembro). hoje são uma força importante. a eleição de partidos de ext direita (em coligações), que tb propõem outras regras para o jogo, não é facto inédito nem longínquo. não se trata de um sistema fechado.
    Badiou, felizmente, não conhece bem o sistema que pretende abolir. 🙂

  4. brunopeixe diz:

    Caro António,

    Como noutros casos, parece-me que o Badiou joga, através da palavra representação, com correspondências entre a ontologia e a política, para depois recusar uma transitividade entre os dois domínios.
    Indo por partes: por um lado, trata-se de sustentar uma concepção da verdade como não-correspondência, subtraindo-a das epistemologias clássicas que assentam na adequação entre sujeito e objecto. Do correlato clássico sujeito-objecto-verdade, interessa-lhe pensar o sujeito, livre do seu correlato objectual.

  5. Preferiria a formulação sujeito-objecto-sujeito / para todo o objecto ontológico-político / como referente de um conjunto de proposições [verdade].

  6. aon diz:

    Há política para além da representação, como é evidente.
    E esta política pós-representativa surgiu e implantou-se na
    ordem liberal-democrata. Facto histórico.

    • Bruno Peixe diz:

      aon,

      importa-se de desenvolver? refiro-me ao segundo ponto, o da implementação de uma política pós-representativa na ordem liberal-democrata?

  7. Justiniano diz:

    Caríssimo Bruno Peixe, sem querer ser intrometido, em concordancia com aon, diga-se, bastaria uma leitura sistemática da Constituição da República Portuguesa, entre outras!! Creio, caro Bruno Peixe, não ser necessário enunciar as figuras ali inscritas!! E pode ou deve dizer-se que aquela não se comove pelos horizontes possíveis do sufrágio face à reserva Republicana e ao princípio liberal!!
    Não será verdade!?

  8. Vasco diz:

    «implementação de uma política pós-representativa na ordem liberal-democrata»? – Não comento isto. É demais para mim….

Os comentários estão fechados.