Hell can wait

Aqueles que têm paciência para ler o que de vez em quando eu vou escrevendo por aqui, passe o pronome pessoal redundante à la António Figueira, saberão da loucura que de vez em quando me acomete, felizmente ainda com menos frequência, que é tentar, contra as minhas inclinações e a ordem natural das coisas, arrumar os meus papéis. Os fins de ano são dias nefastos, e tal como há quem resolva perder peso, deixar de fumar ou ganhar o Euromilhões, eu decidi que não entraria em 2011 sem a papelada triada e arquivada; evidentemente, como só conto comigo para fazer essas tarefas serviçais, o Ano Novo apanhou-me na mesmíssima. Sossegai porém, portugueses: ontem, dia 2 de Janeiro do corrente, acordei “de súbito sabendo de todos os papéis / ou outra eternidade que não essa”, cumprindo um dia mais tarde a resolução de não deixar para amanhã aquilo com que posso chatear-me hoje, mas sentindo-me basicamente tão chateada como antes de ter tudo arrumado. O Natal correu bem, obrigada: na consoada comi a dourada que devia ter cozinhado no dia anterior, adiando o bacalhau para o dia 25 e o peru para o 26, e provando ao mundo que a estirpe de procrastinação de que sofro comporta também, além da incapacidade de adiar a frustração, a variante de adiar as coisas boas, felizmente nem todas. It must run in the family: o meu irmão, com quem tenho algum material genético em comum, passou o Natal comigo, e trouxe com ele uma porrada de russos traduzidos pelo Filipe e pela Nina Guerra, a minha prenda de mim para mim (este ano fui inexcedivelmente generosa comigo). Como não trazia reading materials of his own, atrelou-se à Confissão do Tolstói em que eu estava de olho, mas durante os breves dias que durou a estadia, fez de tudo para a evitar: leu o Doors of Perception, folheou desinteressadamente o Castañeda, torceu o nariz ao De Quincey, e acabando-se-lhe a temática dos vícios, perguntou molemente do sofá: “Aquilo ali é Graham Greene?”. Eu tchekhovava com gosto, mas aquilo confundiu-me. “Não estás a gostar da Confissão?”. “Estou a gostar imenso”. “Então por que é que insistes em ler tudo o que há para ler antes de acabares a Confissão?”. Ele então explicou-me que, tendo decidido ler esse livro, lê-lo passara a ser uma tarefa, aprazível, certamente, mas ainda assim uma tarefa. Em suma, se o meu irmão tivesse decidido ler o Doors of Perception em vez da Confissão, teria acabado a Confissão enquanto eu despachava seis Tchékhovs, e ainda lhe sobrava tempo para um Dostoiévski.
Estes fenómenos têm explicações psicanalíticas mais ou menos telegénicas: a incapacidade de adiar recompensas (eles falam assim), a preguiça caída em desgraça nesta época de produtivismo, o perfeccionismo, o medo do fracasso, o medo do sucesso, a natureza impulsiva, a debilidade da vontade, a revolta contra figuras de autoridade, a falta de figuras de autoridade, o medo da morte, o Facebook, etc. I plead guilty to all menos o Facebook, mas desisto de me reformar. Não há nada mais irritante que o entusiasmo dos neófitos, e como eu aos 37 anos já vou tarde para começar, se tudo correr como os astros apontam e o 5dias não implodir entretanto, daqui a um ano aqui me terão a queixar-me da papelada e do difícil que é em qualquer conjuntura uma pessoa ser eu. Feliz Ano Na Mesma para vocês também.

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26 respostas a Hell can wait

  1. rita diz:

    De nada vale matar galinhas pretas com um único e bem dirigido golpe no pescoço, de faca afiada, lá pela meia noite de lua cheia no cruzamento antigo onde estão algumas “alminhas” a lembrar aqueles que morreram.

    Mas não vejo outra solução!!!

    É que se o ritual da galinha preta não funcionar, nada removerá esta gente do poder.

    Após as eleições Sócrates enterra a ínfima brecha de vontade de Cavaco em por o menino a andar, com algo simples e esperado: muda cinco ministros e o PR fica umas noites sem dormir e depois lá se aconchega no regaço da Maria e põe o sono em dia.

    Resta uma única solução, mas na qual não acredito poder ser praticada: o povo!! Sim, esse povo com permanente tensão alta e coragem baixa, doente de saudade e coragem arrumada em caixotes no sótão de memórias enroladas em pergaminhos não merecidos mas que existem porque ao lingo da história deste país aqui e ali foram surgindo homens únicos que não deixaram semente.

    E de que falo(escrevo) eu?? Da rua meus caros, da rua, de carros calcinados, montras partidas, fazê-los sentir o calor das labaredas atravessar as vidraças de São Bento, de Belém…

    Mas não creio que isso pode acontecer, especialmente porque quem tem o poder da mobilização, como os sindicatos do PC, têm primnado por uma cobardia histórica disfarçada de urbanidade democrática.

    Enfim, estamos fodidos!!

    Rita

  2. @ Rita, bosselência anda com ideias bem enjorcadas, porém termina com português de carroceiro, e nem ao menos utiliza os símbolozecos (f#$%&=s) que o seu teclado lhe permite, okies isso também pode ter o seu encanto, mas não acha que também pode afastar pessoas que não apreciam tanto realismo ? Just a thought.

    @ M. de V., é sempre um prazer lê-la, muitos assuntos, só p’ra dixer que me solidarizo consigo em relação à desarrumação organizada da papelada e com o seu irmão em relação ao multi-tasking, aprendi com os putos a faxer umas cico ou seis coisas ao mesmo tempo relativamente bem.
    Coitado do meu falecido Pai, aluno de 19 e 20, dixia (e praticava…) que só conseguia fazer uma coisa bem de cada vez…

    • Morgada de V. diz:

      James, sou da escola que acha que os bois devem ser chamados pelos nomes de baptismo, e depois de ter redescoberto tocantes cartas em que as Finanças indagam como me corre a vida, não há smiles que dourem o realismo.
      Bonne Année.

      • Renato Teixeira diz:

        “os bois devem ser chamados pelos nomes de baptismo”

        Que saudades our sweet heart Morgada. Um 2011 cheio de coisas adiadas!

        • Morgada de V. diz:

          Agradeço e retribuo (a revolução resistência islâmica pode esperar sentadinha, para não se cansar).

          • Renato Teixeira diz:

            Calma, calma. Exagerar nos pronomes ainda vá, agora trocar nomenclaturas é que não. Resistência camarada, resistência. Revolução é outra coisa mais linda e à partida as mulheres poderão andar com a cara descoberta.

          • Morgada de V. diz:

            Tens razão, camarada. Rectifique-se.

  3. António Figueira diz:

    Castañeda?! Esse não é o pai (espiritual) do Paulo Coelho?
    Feliz Ano Na Mesma para si também, boa piada essa dos 37 anos, toda a gente sabe que tem 25.

  4. maradona diz:

    “Aqueles que têm paciência para ler o que de vez em quando eu vou escrevendo por aqui, passe o pronome pessoal redundante à la António Figueira, ”

    importa-se de explicar isto por miúdos para que eu, de facto um graúdo, possa entender? o “pronome pessoal” é o “eu” no “quando eu vou escrevendo”? eu sei que poderia ir à wikipedia ou assim, mas consultar merdas a propósito de gramática dá-me vómitos incontroláveis. se eu estou correcto, tenho a dizer que, de facto, esse tipo de cenas sempre me fizeram confusão, e eu tenho a mania de dar indicações às pessoas para apagar os ‘eus’ que precedem palavras (verbos, acho que são verbos) que as tornam dispensaveis. a minha preplexidade é a seguinte: o antónio figueira faz isso de maneira sistemática? eu nunca dei por nada, caralho! é que um gajo conseguir escapar ao meu olho de roberto para essas merdas significa que ainda é mais coiso do que eu pensava. enfim, não há-de ser nada. descobri que o conto “brincadeira”do tchekhov foi arrancado do meu exemplar na tradução do filipe e nina guerra; é quase tão bom como aquele ultimo dos dubliners, que, dados os meus profundos conhecimentos de cinema e das outras matérias todas, só ontem descobri que foi inadaptado para cinema pelo john huston, o unico realizador com nome de actor da histria do cinema.

    • Morgada de V. diz:

      É o “eu”, sim. Vós estais demasiado enamorados da prosa do AF para tentardes com sucesso a detecção sistemática dos pronomes imperiais de que o povo tanto gosta e a cuja censura me oponho com veemência. A Brincadeira é o conto do fulano que sussurra “Amo-te, Nádia?”. Quem faria uma coisa dessas?

      • maradona diz:

        eu, ao antónio figueira.

        • Morgada de V. diz:

          Referia-me à mutilação dos contos, mas é muito bonito que ameis um comunista.

          • maradona diz:

            era uma piadita. Os comunistas costumam ler mais que as pessoas de direita, porque ocupam uma posição mais fixa no firmamento, costumo pensar; e, talvez por isso, também seja comum eu gostar (aqui o “eu” não é redundante, pois não?) mais de comunistas que das outras pessoas, pelo menos em percentagem. é um estudo que pretendo fazer no futuro, para acrescentar ao meu já vasto corpo teórico sobre estas e outras matérias.

  5. Oh diacho, não sou e nunca fui muito “comunista” (pelo menos desde o tempo em que o PCF correu com o Roger Garaudy, ou vice-versa, já lá vão bastos anos…) mas também leio e tudo, isso deve portanto faxer de mim um gajú de (a-esquerda ? b-centro ?? c-direita ??? d- outras modalidades ???)
    Li o Carlos Castañeda amais os seus cogumelos há séculos, as alucinações dele eram bem legíveis.
    Em relação ao «desengraçado» e «semi-exotérico» do Paulo C., estava em moda no meu tempo do Brasil, nunca entendi o fascínio, sempre axei esse gajú um enjôo absoluto, mas cada um sabe dakilo que gosta, não disputo isso.

    Poix, muitas vexes o «eu» é redundante numa frase, deve ter que ver com ignorância da sintaxe ou subliminares necessidades de afirmação, ou o raio-que-o-parta.
    maradona, cuidado com as coisas que te saem (ou entram ?) na boquinha, just a friendly warnin’.
    Morgada, compro essa de não haver smiles que dourem o realismo e de chamar os bois pelos nomes, todavia um módico de delicadeza capax de não tornar ninguém desinteressante, penso eu«de que»
    Mas se calhar sou só eu.

    😉

  6. JMJ diz:

    “Procrastination is nature’s way of telling you to slow down!!”

    • Morgada de V. diz:

      Ora bem. Na verdade eu e o meu irmão somos seres extraordinariamente bem adaptados às estações do ano e à natureza em geral, e é a este atavismo transmontano que há que pedir contas pelo nosso abrandamento. As Finanças teriam mais hipóteses de receber notícias minhas se me escrevessem em Junho, como já podiam ter discorrido ao fim de tantos anos de relação.
      Bom Ano, JMJ.

  7. A procrastinação é uma benção que só desce sobre a cabeça dos escolhidos. Traduz-se por “nunca deixes para amanhã o que podes fazer depois de amanhã”.

    Bem vinda ao clube.

  8. Em interregno bloguista e atrasadíssima na leitura deste post, venho desejar um bom 2011 e se as finanças não aparecerem sequer em junho tanto melhor.
    Dada a referência ao casal de tradutores do russo, permito-me ainda recomendar a leitura de “Petersburgo”, de andrei béli, publicado precisamente em dez. pela relógio d’água.
    O primeiro capítulo (tendo eu – cá está o pronome que inquietava maradona – saltado o delicioso prólogo) começa assim: “Apollon Apollónovitch Ableúkhov era de uma linhagem muito respeitável: o seu antepassado era Adão.”
    Se já tiveres lido, seremos duas.

    • Morgada de V. diz:

      Vou procurá-lo (eu), ou arranjarei quem o procure por mim, assim que conseguir amortizar o rombo que levei com o casal de tradutores (abençoados).
      Bom ano para ti também!

  9. ana cristina, fiquei curioso, alguém (que não eu…) há-de ir descobrir esse numa FNAC ou num Corte Inglishe perto de eles…

    Petersburgo – Andrei Béli

    A história de Petersburgo decorre no Outono de 1905 e inclui reaccionários, niilistas, uma tentativa de parricídio e uma bomba escondida numa lata. No entanto, a personagem principal é mesmo a cidade que dá título ao romance. no coração do livro está a questão que durante gerações tem atormentado os russos: a identidade nacional.

    «As grandes obras em prosa do século XX são, por esta ordem, o Ulisses de Joyce; A Metamorfose de Kafka; Petersburgo de Béli, e a primeira metade do conto de fadas Em Busca do Tempo Perdido de Proust.» [Vladimir Nabokov]

    «Andrei Béli é um poeta de primeira ordem e o autor mais admirável ainda das Sinfonias em prosa, de O Pombo de Prata e de Petersburgo, romances que, antes da Revolução, operaram nos seus contemporâneos uma radical mudança de gostos, de onde jorrou a primeira prosa soviética.» [Boris Pasternack]

    «A literatura do período entre as duas revoluções (1905-1917), decadente no seu humor e no seu alcance, extremamente refinada na sua técnica, uma literatura do individualismo, do simbolismo e do misticismo, encontrou em Béli (Branco) a sua expressão mais alta e, ao mesmo tempo, mais directamente prejudicada pela Revolução de Outubro. Béli acredita na magia das palavras.» [Lev Trotsky]

    «Um romonce que resume a Rússia inteira.» [Anthony Burgess]

    «Um homem de percepções estranhas e inauditas – um homem mágico e, na tradição da ortodoxia russa, um louco sagrado.» [Isaiah Berlin]

    «O romance Petersburgo, seja qual for o modo como se aborda a sua concepção, é um acontecimento imenso na história da prosa russa…» [Ilia Ehrenbourg]

    «O romance russo mais importante, mais influente e mais perfeito do século XX.» [New York Review of Books]

  10. Justiniano diz:

    Caríssima Morgada, um bom ano, desejo eu, a si e aos seus e a todos os leitores, seus, que possam le-la!!

  11. Já encomendei “o bicho”.
    🙂

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