Como o governo esconde os números reais do desemprego em Portugal

O governo tem procurado esconder a verdadeira situação do desemprego em Portugal (Sócrates, na  sua  mensagem  de  Natal,  não  fala  uma  única  vez  do  desemprego)  tentando  fazer  passar  a mensagem junto da opinião pública que se está mesmo a verificar uma tendência quebra. E isto apesar  do  INE  ter  divulgado,  no  3º  Trim.2010,  que  o  desemprego  oficial  atingiu  609,4  mil,  e  o desemprego efectivo, calculado também com dados do INE, alcançou 761,5 mil portugueses. Para anular  os  efeitos  destes  números,  o  governo  tem  utilizado  o  desemprego  registado  divulgado mensalmente  pelo  IEFP.  O  Secretário  Estado  do  Emprego  manifestou  mesmo  “satisfação”  com este  em  declarações  à  Lusa,  em  17.12.2010.  Por  isso,  interessa  explicar  quem  é  abrangido  e como são construídos os dados que o governo utiliza depois na suas declarações.
Os  dados  do  desemprego  registado  divulgados  pelo  IEFP  não  incluem  a  totalidade  dos desempregados. Todos aqueles que não se inscreveram nos Centros de Emprego (e são muitos) não constam desses dados. E o IEFP para obter os dados que divulga elimina mensalmente dos ficheiros dos Centros de Emprego milhares de desempregados sem apresentar justificação.
Segundo o próprio IEFP, entre 1-Jan2010 e 30-Nov.2010 inscreveram-se nos Centros de Emprego 631.972 novos desempregados (em média de 57.452/mês). Durante o mesmo período de tempo, os  Centros  de  Emprego  arranjaram  trabalho  para  apenas  65.828  desempregado  (em  média  5.984/mês). Assim, o número dos novos desempregados que se inscreveram de Jan./Nov.2010 foi superior ao numero daqueles que os Centros de Emprego arranjaram trabalho em 566.144.
Apesar   do   numero   de   novos   desempregados   ser   9,6   vezes   superior   ao   número   de desempregados  que  estes  Centros  arranjaram  trabalho,  o  desemprego  registado  no  fim  de Nov.2010 (546.926) era inferior ao existente no fim de Jan.2010 (560.312) em 13.386. Como é que os  responsáveis  do  IEFP  conseguiram  este  milagre?  Eliminando  um  elevado  numero  de desempregados  dos  ficheiros  dos  Centros  de  Emprego.  Para  concluir  basta  fazer  as  seguintes contas:  Segundo  o  IEFP,  no  dia  1  de  Jan-2010  existiam  inscritos  nos  Centros  de  Emprego 524.674  desempregados.  Entre  1  de  Jan.2010  e  30  de  Nov-2010  inscreveram  nos  Centros  de Emprego  631.972  novos  desempregados  e,  durante  o  mesmo  período,  os  Centros  de  Emprego arranjaram trabalho só  para 65.828. Logo  somando 524.674 (número existentes em 1.1.2010) a 631.972   (novos   desempregados   que   se   inscreveram)   e   subtraindo   65.828   (número   de desempregados que os Centros arranjaram trabalho) obtém-se 1.090.818. Era este o número de desempregados inscritos que devia existir em 30.11.2010. No entanto, o IEFP divulgou que nessa data só existiam inscritos nos Centros de Emprego 546.926. Consequentemente desapareceram dos ficheiros dos Centros de Emprego, entre 1 Jan-2010 e 30 Nov-2010, 543.892 desempregados. O  IEFP  fez  esta  limpeza  sem  divulgar  no  boletim  que  publica  mensalmente  as  razões  dessa eliminação,  o  que  levanta  naturalmente  sérias  dúvidas  sobre  a  credibilidade  dos  números  do desemprego registado que divulga mensalmente utilizados depois pelo governo.
Mas apesar desta elevada eliminação de desempregados dos ficheiros dos Centros de Emprego, a percentagem de desempregados, calculada em relação ao desemprego registado, a receber o subsidio  de  desemprego  é  baixa  e  tem  diminuído  nos  últimos  meses  de  2010.  Em  Janeiro  de 2010, o número de desempregados a receber o subsidio de desemprego representava 63,8% do desemprego  registado  divulgado  pelo IEFP  nesse  mês; em Fevereiro  aumentou  para  66%, mas em  Novembro  de  2010  correspondia  apenas  a  57,4%  do  desemprego  registado  deste  mês divulgado   pelo   IEFP.   É   clara   a   diminuição  do   apoio   aos   desempregados   em   Portugal consequência da alteração à lei do subsídio de desemprego aprovada pelo governo de Sócrates no  1º  semestre  de  2010.  E  recorde-se  que  muitos  desempregados  não  estão  inscritos  nos Centros. É evidente que, com esta diminuição da protecção aos desempregados, a miséria tem de aumentar,  miséria  que  incomoda  muito  Sócrates  quando  se  fala  dela,  apesar  de  ser  uma consequência da politica que o governo está a seguir. O governo Sócrates até se gaba de reduzir o apoio aos desempregados. A provar isso está a conferencia de imprensa dada pelo  Secretário de  Estado  da  Segurança  Social  em  plena  quadra  natalícia.  Este  “senhor”,  revelando  total insensibilidade  social,  veio  dizer  ufano  que  já  tinha  cortado  o  subsídio  social  de  desemprego  a 10.291 desempregados, que recebiam em média entre 312€ e 347€ por mês, e o RSI (88,86€ por mês) a 8.321 beneficiários (RTP, 18.12.2010). E isto a juntar à redução de 389.827 beneficiários no abono de família, o que significa uma redução anual de 250 milhões € de apoios às famílias com filhos (CM, 26/12/2010). É desta forma que o governo promove a natalidade.

Ver estudo

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6 respostas a Como o governo esconde os números reais do desemprego em Portugal

  1. Rui Dantas diz:

    Eh?
    Longe de mim defender este governo, mas não falta no “subtrair” os que conseguiram emprego sem ter sido o IEFP a arranjá-lo?

    • Alexandre diz:

      A questão é mesmo essa. A saída da situação de desempregado não acontece só através das colocações dos centros de emprego. A autocolocacao, a reforma, a integração em programas de apoio ao emprego, a anulação por incumprimento das regras, etc…
      Mas não se percebe porque é que Eugenio Rosa persiste em preferir continuar a fazer demagogia com um assunto que é suficientemente preocupante para poder ser usado como arma de arremesso. Ainda por cima escondendo a verdade. Enfim…O

  2. Um milhão de desempregados,o exército de reserva de que o governo tem medo e por isso esconde.

  3. Leitor Costumeiro diz:

    OH!!Agora vieram para aqui bufar o Governo?!?!?

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  5. Miguel diz:

    É incrível como querem ocultar o desemprego, quando é totalmente visível. Há mais de um ano que não tenho um bom emprego. Por isso decidi mudar do pais. Já não posso seguir esperando que a situação reverta.
    Estou fazendo uma busca de emprego na Suiça, en este site encontrei muitos anúncios de emprego lá, alem de que um amigo há já muito tempo que fica lá, sem problemas.
    Espero que o governo faça as coisas bem de uma vez e poder voltar!

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