Sócrates tem os intelectuais que merece

Eduardo Pitta vem elogiar a aprovação de um aditamento a um processo de licenciamento de um projecto de arquitectura. Pouco tenho a dizer sobre um projecto que não conheço mais do que as imagens e nada me apetece dizer sobre o facto da associação de direito público que representa os arquitectos se ter imiscuído no processo de licenciamento.
Duvido que Pitta conheça o projecto mas, na sua ânsia de ser o mais célere a agradar ao regime, nem sequer se preocupou em perceber o que havia sido aprovado (ver a proposta do vereador Manuel Salgado), declarando que o município teria aprovado “a emissão da licença de construção”. Esperemos que o pobre promotor imobiliário que Pitta defende não o leia como uma fonte fidedigna e não procure levantar a licença num destes dias. Mas o que é particularmente interessante no texto de Pitta nem é a sua falta de rigor.
No parágrafo em que o “poeta, escritor e ensaísta português” procura desenvolver alguma teoria sobre cidade, refere que “defender a Lisboa «romântica» é não permitir a degradação do espaço público” passando para a enumeração de alguns edifícios demolidos nos anos 50/60 na referida avenida e rematando que “a Duque de Loulé tem buracos de extremo a extremo, árvores mortas, passeios laterais com menos de um metro de largura e a placa central atulhada de carros”. Percebo que o autor do post tenha um carinho especial por uma rua/avenida em particular, mas o paralelo entre as duas situações parece-me, no mínimo, tonto (para utilizar uma expressão com que Pitta qualifica todos os cidadãos que subscreveram a petição contra a intervenção no Largo do Rato). Não se contendo nos paralelismos tontos remata que: “Descaracterizado como está, o Largo do Rato até aguentava uma mini-Défense”.
Conhecerá Pitta o projecto a que se refere? Saberá definir a Lisboa «romântica»? O que defende para o espaço público, para além do arranjo das estradas e dos passeios? Que reflexão pretende fazer sobre o património? Conhecerá o projecto de La Défense, e qual? Quem deverá ser o agente de planeamento da cidade preponderante: o Estado ou os privados? Eduardo Pitta saberá do que fala?

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

9 respostas a Sócrates tem os intelectuais que merece

  1. Desconhecia esse (in)famoso «intelectual», mas se ele é um, vou imediatamente para cavador ou calceteiro ou pescador, e nunca mais ponho os butes na York House nem no restaurante do Museu de Arte Antiga, não vá ter que me cruzar com semelhante luminária.
    Como andei no Técnico, a Duque de Loulé (comprida e horrível, horrível e comprida) e as respectivas transversais não são um mistério para mim.
    Creio até que o Chico Loiça pr’a lá tinha casa (foi ele que o disse, públicamente…).
    Façam dakilo o que quiserem, as Avenidas Novas do outro lado (da Av. da República) são bem mais interessantes, mas akilo está tudo a cair, pudera, o que os patos-bravos de Abrantes e Torres fixeram há décadas não se aguenta p’ra sempre.
    Tinha ideia que La Défense era o único place em Paris (na grande Paris) em que se podia espetar com torres, na medida em que o solo da cidade (o ‘undergroundeh’) se parece com um queijo Gruyère, túneis que não acabam, do tempo do barão Haussman e provávelmente de antes…

    Isso dos carros é uma absoluta chatice.
    Agora todas as horas são de ponta em Lxª e há automóveis poisados em tudo quanto é lado, se as pessoas pudessem entravam com o carro para dentro dos estabelecimentos, a lei do menor esforço em toda a sun a pujança e massacre.

    Devia-se arranjar maneira de interditar toda ou quase toda a cidade antiga (excepto os grandes eixos, 24 de Julho, Norte-Sul, 2ª circular, Liberdade, República, 5 de Outubro, Duarte Pacheco, D. Joao V, Escola Politécnica, Marquês de Fronteira, Estrada de Benfica, Conde de Almoster, etc.) ao trânsito automóvel privado, toda a gente a deixar o carrito nas entradas da cidade e a navegar em metro, autocarros e nos elécticos que ainda houver.
    Mas p’ra isso era preciso uma revolução (nas mentalidades) e um polícia em cada esquina…
    Eu cá limito-me a ir a Lisboa o menos possível, e claro, também assinei (p’ra quê?) a petição p’ra não estragarem mais o Príncipe Real.
    🙁

  2. Niet diz:

    Eduardo Pitta está na corrida ao lugar vago de ” João Gaspar Simões ” da crítica literária portuguesa. Ele desunha-se e dá cambalhotas sem parar! Andou a ler o último livro traduzido do Zizek, diz ele, para óbviamente” tentar neutralizar ” a crítica da extrema-esquerda ao seu projecto de poder ” crítico ” pessoal…A ” colagem ” a Sócrates é, no mínimo, obscena…mas determinada e fria. Só bajula as vedetas-da-hora dê lá por onde der! E faz do seu blogue unipessoal um campo de minas & armadilhas de muito baixo nível: há dias publicou uma foto do Eduardo Lourenço a apertar as mãos da Kátia Guerreiro; tudo isto- em sádica telescopagem mediática e política – poucos dias depois da historieta que Defensor Moura travou com Cavaco Silva…por causa do pagamento da actuação da fadista no 10 Junho de Viana…Fogo sobre o Pitta, antes que seja tarde !. Niet

  3. António Figueira diz:

    Niet, há algum de injusto nesse comentário: com todos os seus defeitos e limitações, João Gaspar Simões era uma pessoa respeitável e estimável; está a ver o Eduardo Pitta a escrever a biografia do Eça, por exemplo?

    • Niet diz:

      A. Figueira: Como diria Hobbes, o poder é ele-próprio o seu fim… Gaspar Simões escreveu muito sobre o Eça e o Fernando Pessoa, de quem foi amigo e confidente mas, paulatinamente, foi sendo ” integrado ” nos aparelhos ideológicos do regime ditatorial de Salazar e Caetano- no DN- Suplemento Literário dirigido por Natércia Freire, como sabe – com lancinantes folhetins literários que, quer Mário Sacramento, E. Prado Coelho ou João-Palma Ferreira, entre muitos outros, se esforçavam por desconstruir e relativizar na sua batalha semanal pela emancipação de uma Nova Crítica. Niet

  4. Eu nessa estou com o António Figueira, tudo o que li do João Gaspar Simões gostei…
    🙂

  5. Núncio diz:

    A fraqueza de muitos intelectuais é viverem completamente descontextualizados e fora da realidade social e económica do burgo. Daí que resumam as suas preocupações políticas às causas “fracturantes” (grrrrr!).
    Daí a adorarem o PM mais bem vestido da Lusitânea e arredores é um saltinho!

  6. Pingback: Da Arrogância dos Pittas | cinco dias

  7. Pingback: A estética segundo Eduardo de Pitta | Aventar

Os comentários estão fechados.