Igualdade : Mário Dionísio e José Gomes Ferreira

«Olhe, queria uma sociedade organizada de modo a que não houvesse nem exploradores nem explorados, por um lado; em que, por outro lado, as pessoas tivessem as possibilidades de partir do mesmo ponto, quer dizer, à partida todos iguais (…). Isto não quer dizer, como os caricaturistas destas ideias normalmente dizem, que depois sejamos todos iguais porque nós, efectivamente, não somos todos iguais, somos todos muito diferentes e ainda bem porque é isso que faz o encanto da vida, o interesse do mundo… é a desigualdade das pessoas… mas essa desigualdade não tem de ser fatalmente uns terem muitas coisas e outros não terem nada, uns viverem em barracas e outros… enfim, não é preciso descrever, não.»

Mário Dionísio, entrevista para a RDP, emitida em 1 de Maio de 1986, in Entrevistas, Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, Lisboa, 2010

«– É muito fácil… Eu e a Rã, para não termos inveja, combinámos o seguinte: eu minguar um bocadinho e ela aumentar, até ficarmos iguais!
– Mas – aduziu o rapaz – na fábula de La Fontaine o Senhor Boi desdenhava ostensivamente das pretensões da Rã.
– Isso era dantes. Hoje tudo evolucionou no país da Fábula – objectou o paciente ruminante impaciente. – Decidimos ser iguais e ninguém tem nada com isso.
João Sem Medo abanou a cabeça, discordante. E preparou-se para abandonar os dois bichos na sua luta pela igualdade. Mas à laia de despedida foi-lhes dizendo com tacto hábil de pessoa bem educada:
– Considero a vossa atitude muito louvável, embora, confesso, o método me pareça um pouco… como direi… Bem… Talvez primário…
– Porquê? – bramiu mestre Boi sempre a babar-se de estupidez suave.
Como resposta, João Sem Medo começou a meter os pés pelas mãos numa tentativa de atinar com as palavras justas para exprimir o seu pensamento um pouco tataranha:
– Bem… Porque… Ou me engano muito ou… Bem… não devemos confundir igualdade com identidade… baralhada muito comum, aliás… Do ponto de vista exterior vocês serão sempre desiguais.
E bem fincado ao fio do raciocínio, para não se perder:
– Imaginem, por exemplo, que a Senhora Rã, alcançado o tamanho do mestre Boi, lhe invejava os chifres. Como solucionariam o caso?
– Ora! Falou a Rã pela primeira vez. – Encomendava uns postiços. De borracha… Ou plástico…
– Está bem. Era uma solução… – aprovou João Sem Medo. – Mas… E se ao mestre Boi lhe apetecesse coaxar?
João Sem Medo aproveitou o silêncio embaraçado dos dois comparsas para prosseguir:
– Só se o Senhor Boi engolisse um disco com os coaxos gravados da Senhora Rã… Não vejo outra forma… Desenganem-se, pois. Façam os esforços que fizerem, haverá sempre desigualdades externas entre ambos… que, a bem dizer, não constituem propriamente desigualdades, mas diferenças…
– E então? – ruminou o Boi com os olhos meigos de quem não percebia patavina.
– Então, nada. Sigam o meu conselho e voltem ao estado normal. O Senhor Boi, grandalhão… e a Senhora Rã, pequenota… E se aspiram a ser iguais conquistem a liberdade de não serem idênticos e de poderem atirar as desigualdades à cara um do outro. Ou então…
»

José Gomes Ferreira, As aventuras de João Sem Medo, 1963.

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