Ídolos: a promoção do lixo musical


Audição de Sandra Pereira. Declarações absolutamente vergonhosas do “júri”.

O panorama actual da cultura é o que se vê nas montras das lojas. Entramos numa livraria e as publicações mais vendidas são as obras de Margarida Rebelo Pinto, José Rodrigues dos Santos e Miguel Sousa Tavares. Se passarmos à lista de discos mais vendidos, encontramos todo o tipo de lixo musical que promovem as grandes editoras. E se nos detivermos num ou outro programa televisivo assistimos à formatação da população.

Hoje, vi o Ídolos. O programa do terceiro canal da televisão portuguesa dedica-se a promover jovens músicos. Mas como o faz? Curiosamente, é interessante reparar que o vencedor do ano passado conseguiu ganhar remando contra a corrente comercial. Num estilo mais grunge, arrastou uma audiência, normalmente, afastada deste tipo de programas. Nunca pensei ver no Ídolos alguém interpretar Ornatos Violeta, Nirvana, The Smashing Pumpkins ou Zeca Afonso.

Na primeira audição, o júri arrasou-o. Como é hábito, escolhem quatro tipos que encarnem o pior da cultura e consigam transformar as audições em espectáculos de humilhação pública. O agente de Jorge Palma, Manuel Moura dos Santos, é o pior. Uma espécie rasteira sempre pronto a defender a música comercial e a atacar todos os que se afastem desse caminho. Entretanto, há uma brasileira que ninguém percebe porque está ali, senão por ser bonita e filha do patrão do Rock in Rio. O responsável pelos canais temáticos da SIC e, finalmente, um músico, Laurent Filipe.

Em relação ao Filipe Pinto, atacaram-no por afirmar que não queria tocar música comercial. Acabou por ganhar o concurso. Este ano, a história repetiu-se. Sandra Pereira apareceu na audição a tocar e cantar Zeca Afonso com uma guitarra com a bandeira basca. Foi criticada violentamente quando explicou que tinha um grupo de música de intervenção. O agente de Jorge Palma disse que Zeca Afonso não era música pop e que não fazia parte da linha musical do concurso. Depois de perguntar a idade à concorrente, o responsável da SIC foi nojento: “portanto, deve estar quase a passar essa dimensão retro-hippie-chique-esquerda”. “Queres salvar as focas, os glaciares e os icebergues ou queres ganhar este concurso e ir em frente?”, acrescentou depois.

Já Martim Vicente, o outro finalista deste ano, optou por uma postura mais prudente. Ainda assim, não despiu o seu amor pela música popular portuguesa que tantas vezes expressou na Festa do «Avante!» e em concertos da União de Resistentes Antifascistas Portugueses. Ambos são óptimos artistas mas foram obrigados a ceder às imposições musicais do programa. O objectivo não é promover bons músicos. O objectivo é promover o espectáculo vazio e comercial que dá todos os domingos na SIC.

Depois do programa, o vencedor só terá uma hipótese se quiser afirmar-se no mercado português: despir o carácter mais interventivo das suas letras, abraçar as sonoridades comerciais e apostar na imagem. Prefiro-os desconhecidos a tocar do nosso lado que conhecidos a tocar do outro lado. Da barricada, claro.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

25 respostas a Ídolos: a promoção do lixo musical

  1. Paulo Jorge Vieira diz:

    brilhante análise Bruno…

  2. Nunca gostei, nem vou gostar deste programa.
    Muitos são os talentos que ficam retidos antes de chegarem a este pseudo-júri.
    O que geralmente chega até eles são aqueles pobrezinhos que mal sabem a escala musical, só para ganharem audiência com as macacadas.
    É bem que esses também lá cheguem… é da maneira que o tal pseudo-jurí se coloque no mesmo banco que eles. No relé…

    Soube de uma história que se passou num dos castings dos Ídolos…
    Uma rapariga foi… como cantou a “Flôr de Lis” (da RTP)… não a deixaram passar.

    Que acabe o tal lixo musical e televisivo… sff.

  3. Renato Teixeira diz:

    Tens toda a razão quanto à qualidade da treta televisiva, mas apesar de achar a treta televisiva muito pouco democrática, este até é dos programas que mais pop singers aceita no seu casting. Isso não retira uma virgula de justiça à tua critica, mas ninguém se pode queixar de se meter na boca deste lobo (Ídolos), sem saber ao que vai.

    A rapariga canta bem e foi forte ao não ceder na patranha do reaccionária do júri, mas se calhar a carreira que procura na musica popular portuguesa ficaria melhor servida se quando lhe foi dado o voto a escolher optasse por sair da palhaçada.

    • Von diz:

      Detesto o Moura Santos e a sua anti-pedagogia, mas reaccionário? Também detesto este tipo de programas, mas se eles existem, as suas regras são claras. E se o júri alerta para as regras, não pode ser criticado. Se se excedem na forma de falar (como parece ser constante e publico), ok critique-se, agora por cumprir as regras são reaccionários?… A cultura, está demasiado politizada, isso sim. Fui há uns dias à Casa da Achada, com os meus filhos. Não deixei de ter sido bem recebido, mas fui tratado de uma forma exageradamente paternalista, quase como um ignorante e linear cidadão “burgeso”, e apenas porque não vestia a “farda” que aquela casa entende ser a correcta para compreender arte. É este forma de estar, elitista por si só, que me irrita e me tira do sério.

      • fuser diz:

        eu penso mais ou menos isso, mas o responsável pela moderação dos comentários entende que o meu, apesar de não ser desrespeitoso e não conter linguagem ofensiva, não foi aceite.

        naturalmente que essa pessoa tem todo o direito a não aceitar um comentário. curioso é criticar quem produz um programa de TV e institui as regras que bem entende, não forçando ninguém a concorrer.

        Que moral.

    • Marota diz:

      A única pessoa que demonstrou alguma grandeza foi só ela, pena ela não ter mandado tudo dar uma volta.

  4. PP diz:

    Contra a corrente comercial?

    Os Smashing Pumpkins venderam 21 milhões de albuns. Os Nirvana 24 milhões. Isto sem contar com os concertos, o merchandising, os dvds, os videos, os livros, etc…

    o que é que há de contra a corrente comercial aqui?

  5. fuser diz:

    Este seu post enferma de várias contradições e incongruências.

    Primeiro, quem não quiser “despir o carácter mais interventivo das suas letras” tem uma solução: não participa. Eu não fui a esse programa. Estou em crer que o Bruno também. O que me faz acreditar que a participação nesse espectáculo não é obrigatória.
    Segundo, não vejo o problema de um elemento do júri ser de nacionalidade brasileira, mas pelo que se lê, o Bruno tem um problema qualquer com isso.
    Terceiro, a produção do programa estabelece os seus critérios de avaliação e define o estilo de músico (?) que pretende para participar no programa
    Quarto, a falta de educação dos apresentadores, segundo me é possível perceber, são marca do franchising do programa. E se eu, que não raramente ligo a TV a não ser para ver informação e algum desporto, sei disso, então devo assumir que qualquer aspirante a concorrente está por demais informado sobre o tipo de gente que vai ter pela frente a avaliar (?) o seu potencial.

    De resto concordo com o facto de estarmos perante lixo televisivo. Mas não incomoda porque tenho sempre a possibilidade de desligar a TV ou mudar para o Rui Santos, se me apetecer rir.

  6. Nunca tinha visto isto, para pop prefiro os meus arquivos ou a MTV.
    ‘Atão a moça faz uma versão ‘pop’ de uma música do Zeca Afonso, e aqueles ‘animais’ ficam todos abespinhados, no Zeca não se toca, é uma ‘vaca sagrada’ assim como o Lúcio Costa e o Niemeyer em Brasília (apesar de haver lá coisas que têm que ser modificadas e outras que já o foram senão ninguém conseguia viver/trabalhar lá) ??
    Agora: ou é dos youtubos ou a moça (que até sabe cantar) devia ter lições de voz, não achei nem o timbre nem a colocação muito agradáveis, just my 2 damned cents…

  7. João diz:

    Vamos lá, nunca vi uma sessão completa do concurso, não faz o meu género. O júri faz um papel triste, mas que os concorrentes conhecem à partida. Se houvesse um concurso de ídolos da MPP seria legítimo admitir um concorrente que cantasse muito bem versões dos Xutos ou Rádio Macau? Será que essa malta “de esquerda” não arranja outra maneira de se tornar conhecida em vez de vender a sua orientação musical?
    Prontos, já ganhei o dia pq conheci o Martim. Espero que siga carreira com música retro-chic de esquerda. Brilhante a interpretação da Lisboa que Amanhece.

  8. antónimo diz:

    O Ídolos é o mais canalha dos programas televisivos, não pela promoção de lixo musical mas sim pela forte carga de humilhação que transporta e que, em horário nobre, intoxica toda a gente.

    Sob uma falsa ideia exigência acoberta-se a ideia de que a humilhação e os maus-tratos rasteiros são toleráveis no espaço de trabalho profissional. Assim se formatam desde cedo as audiências, que têm uma estranha pulsão em ver o outro ser rebaixado.~

    Como numa praxe, formatam-se gerações. Não a pensar por elas mas em submeterem-se, como se o mundo evoluísse à custa dos que comem e calam.

    • LAM diz:

      Isso sim. Grande comentário. A formatação dos jovens concorrentes na submissão e na aceitação do insulto como “fazendo parte” da carreira, dessa ou outra qualquer, é o mais negativo do programa. Ainda por cima quando é visto por muitos outros jovens que ali vão “aprendendo” a vida.

      • jonybarz diz:

        Penso que ninguém é obrigado a ir os idolos. Logo, se a Sandra Pereira quer singrar no mundo da musica já devia ter percebido que não é em programas como o Idolos que isso vai acontecer. Há quem considere esta percepção cultura musical…alguns têm, outros não. Mas para estes, a tentação do estrelato é muito grande!
        Eu acho muito bem que os sujeitos que concorrem ao programa sejam insultados e rebaixados, sobretudo, quando não sabem cantar. Mais, devia ser em directo, para os telespectadores poderem participar também na humilhação, agora que as novas tecnologias tudo permitem…Pessoas que não sabem cantar e pensam que sabem, são ainda mais irritantes que as escolhas do júri. Os primeiros episódios do Idolos são deveras hilariantes, com o desfilar de personagens absurdas que se querem vender. Que se vendam… que se sigam vendendo…

        • antónimo diz:

          se acha muito bem a humilhação seja de quem for, parece que não temos muito que conversar. citando um cantor português, “eu sou d’outra condição”

  9. agent diz:

    Mais que não seja, a edição deste ano já valeu a pena por fazer alguém engolir de uma só vez todas as tontices, preconceitos, enfim boucherices, que emitiu na primeira vez que a viu. Imagine-se: parece que é possível cantar bem, salvar focas e dar um enorme tabefe a um pinguim pseudo-beto ao mesmo tempo.

  10. Pingback: A Mesa de Café

  11. Miguel diz:

    O “Idolos” é um programa que tem como objectivo encontrar um cantor que tenha sucesso numa determinada área da musica internacional. Obviamente todas as pessoas que não correspondem ao objectivo a que o programa se propoe são eliminados. Mais uma vez este post só demonstra rancor e um complexo enorme por tudo o que não seja “comunista” ou que não tolere o “alternativo”.

    Da mesma forma que uma Lady Gaga não vai ao Avante, um Zeca Afonso não vai ao Rock in rio. Isto não tem nada a haver com politicas. O Zé Moura Santos que o Sr denomina como “rasteiro” com certeza percebe mais de musica que todos os participantes deste blog nomeadamente o Sr.

    Eu quando vou a um Super Bock ou a um SW não vou nem quero encontrar o mesmo tipo de artistas que vão a um RR. Quero algo que corresponda ao genero de musica que mais aprecio, não sendo neste caso a “pop” ou “comercial”.

    Deixe lá os seus complexos de lado, seja feliz…

  12. Daniel Lopes diz:

    Efectivamente os comentários foram imensamente tristes. Particularmente o: “Queres salvar as focas, os glaciares e os icebergues ou queres ganhar este concurso e ir em frente?”
    Percebo que o formato do programa não seja o mais indicado para o estilo musical dela, mas ter declarações daquele nível é simplesmente triste…

  13. Começo por admitir que o Ídolos é o meu “guilty pleasure”. O que não me impede de admitir naturalmente a mediocridade do programa e concordar com o que dizes. Em todo o caso, quando um programa é apoiado por uma rádio-lixo como a RFM e que tem no júri alguém que percebe tanto de música como eu de ballet e que organiza o festival mais pimba da cultura portuguesa, o que é que esperavas (aquele festival em que 95% das pessoas só vai para dizer que esteve lá)?

    Só discordo quando falas do Manuel Moura Santos. Ao contrário do que dizes, ainda é ele que vai contestando as mediocridades comerciais que habitualmente por lá se cantam. Lembro-me da crítica assertiva que expressou sobre esse verdadeiro crime chamado Amália Hoje, quando um concorrente cantou “A Gaivota”. E quando os concorrentes cantaram o que os ouvintes da RFM escolheram, e as músicas eram obviamente deploráveis, foi ele quem insultou aquele repertório, perante o desconforto natural de apresentadores e, presume-se, da produção.

    Ao menos, ficaram os dois melhores, o que é de louvar. Não só os que têm mais talento, mas os que têm algum sentido de cultura musical. Espero que não se percam por aí…

  14. Estaline de Fernão Ferro diz:

    é espectacular como a vossa retórica se desmente a si própria. Então o concurso é para formtar, mas o vencedor do ano passado e os potenciais vencedores deste ano são não formatados. Tá giro, sim senhora.

    Por acaso vi essa audição de que falas, do Filipe, e ele não foi atacado, pá. Foi armado em bom, como os miúdos da idade dele com o jeito dele são e levou uma rabecada, que é o que aqueles jurados estão ali para fazer. Espectáculo televisivo, e tal.

    em relação à crítica, partilhada por outros comunas aqui, de que há talentos que não têm hipóteses de se afirmar, é mais uma contradição da vossa malta: então queixam-se da quantidade deste tipo de programas e depois dizem que não há chances? Cá em Portugal qualquer tipo publica, seja o que for. Aliás, não é à toa que falam da Rebelo Pinto, certo?

    Qualquer tipo que escreva num blog e queira publicar, publica. Se quiser e não deixarem, então é porque é mesmo mau.

    abraços

  15. Marota diz:

    Bem, normalmente quem faz o papel do idiota é aquele que lá vai sem saber cantar. Na minha terra tinha que ser ao contrário. Para mim era uma afronta ser julgada por pategos daquele calibre, cada um pior que outro. Mein lieber Scholli!!!! Às vezes até fico feliz por não ter que aturar esta pequenez de tão perto.

  16. antónimo diz:

    pq é que tenho um comentário aqui para ser aprovado desde as 13h01?

  17. CD diz:

    “Vivam as energias renováveis”… vivam os fdp dos burros que o sistema “salva”.

  18. Pingback: OS CÃES DE GUARDA DO LIXO COMERCIAL « OLHE QUE NÃO

  19. Pingback: Tweets that mention Ídolos: a promoção do lixo musical | cinco dias -- Topsy.com

Os comentários estão fechados.