A cultura do desprezo pela cultura

Embora não conheça a realidade descrita, fiquei sensibilizado com este texto da Ana Beatriz Rodrigues sobre o desinvestimento cultural em Tomar. Como estou certo que é uma realidade que se espalha um pouco por todo o país, não só com objectivos economicistas, mas também na perspectiva da estupidificação cultural de um povo (à imagem dos ilustres PR e PM que temos), publico-o aqui na íntegra:

“Lembro-me de”

Ao cuidado do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Tomar, Dr. Côrvelo de Sousa; do Senhor Vereador da cultura da Câmara Municipal de Tomar e das juventudes políticas de Tomar: JSD, JS, BE e JCP

Durante dezoito anos da minha vida, morei em Tomar. Uma cidade bonita, é certo; uma cidade histórica, com património digno de ser visitado; uma cidade onde as crianças não têm (tinham?) receio de brincar na rua até tarde; uma cidade repleta em serviços. Em serviços e… Mais o quê, realmente?

Quem anda pela geração dos 20 – 30 anos lembra-se, certamente, das míticas sextas-feiras à noite no Cine-Teatro Templários, onde me lembro de ter chorado e rido acompanhada por Jeunet, Lynch, Tarantino, Cronenberg ou Almodovar, onde me lembro de encontrar todos os meus amigos e conhecidos que andavam nos liceus locais e onde, acima de tudo, me comecei a formar, onde iniciei o processo de aquisição de uma identidade que se quer rica e vasta.

Já estava na faculdade, mas sempre a acompanhar a vida da minha cidade, quando soube que o cinema fechou. Mas, alegria!, o Cine-Teatro Paraíso, onde está integrado o Theatro Bar, tinha reaberto uns meses antes, remodelado, após anos de abandono. Inicialmente, a programação do Paraíso até proporcionava algumas coisas interessantes (mesmo que, em alguns casos, não fosse, propriamente, fã das mesmas): lembro-me de lá ter visto o Carlos Barretto e de achar que o jazz português era, afinal, saudável: lembro-me de ter dançado e sorrido a ouvir o Paulo Furtado e os seus Wraygunn e, até, de encontrar ali algumas das melhores peças do teatro nacional, mesmo que esporadicamente. Lembro-me, igualmente, de acordar cedo ao Domingo de manhã para levar o meu pequeno irmão a ver os clássicos da Disney ou as novidades da Pixar, nas matinés para crianças a custo zero.

Agora, sete anos depois, dá-me tristeza em abrir a chamada “Agenda Cultural” da Câmara Municipal de Tomar (CMT): a programação do Cine-Teatro Paraíso é inexistente (já nem o meu irmão pode ir ao cinema); o pouco cinema que há é totalmente comercial/blockbuster – sem alternativa-, os mesmos filmes permanecem entre duas a três semanas na programação, já para não mencionar o atraso com que chegam à cidade. Começando por aqui e lembrando o que eu disse acima, pego num exemplo curioso: eu cresci a ver Lynch ou Almodovar. O meu irmão terá a mesma sorte? É que, esquecendo a qualidade da oferta, temos de ter em conta a escassez e a sua regularidade. Aliás, actualmente, quando estou pela cidade, tenho de pegar num carro para ir a Torres Novas (30 km de distância), se quero ver algum filme, ou caso seja noite disso, ir ver um concerto ao Teatro Virgínia. Mas atenção, isto sou eu, privilegiada, que pode dar-se ao luxo de gastar X euros em combustível para aceder a cultura. E os outros jovens, cidadãos de Tomar, não devem ter o direito de aceder à cultura, que, aliás, está contemplada na Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Dando um olhar pela cidade, é com pena que vejo que 90 % das pessoas na escala dos 20 – 30 anos não podem habitar em Tomar. Porquê? Pese embora termos as infra-estruturas de desporto de qualidade ou rotundas muito ornamentadas, não temos emprego. Eu não posso trabalhar em Tomar; a indústria é, literalmente, chutada da cidade por complicações que a CMT gosta de gerar; os serviços vão-se mantendo abertos, mas é certo e sabido que a função pública não precisa de mais gente. A saúde e a educação? O hospital renovado tem menos serviços e o Instituto Politécnico de Tomar não consegue que os seus licenciados ali fiquem a trabalhar. Mais argumentos? Tomar é uma cidade congelada no tempo: posso ir lá de mês a mês e vejo sempre um pedaço da minha infância a decair – ou a loja que fecha, ou o senhor que ficou desempregado, ou as empresas históricas (como a Adega Capítulo ou a FerroTemplários) que abrem falência ou insolvência.

Onde é que quero chegar com isto? Quero chegar à conclusão óbvia – o ser humano só se pode desenvolver, beneficiando de enriquecimento a vários níveis e um deles é, exactamente, a cultura. Como é possível que uma autarquia que está com “problemas monetários” invista [sarcasmo no verbo investir] mais 3000 euros em iluminação de Natal (já agora, não vivemos num estado laico? Que eu me lembre, o Natal é uma data do calendário cristã); como é possível que se perca tempo nos jornais nacionais a difamar e a brincar com a disponibilidade de um dos maiores autores portugueses (goste-se ou não do senhor), como António Lobo Antunes? Como é possível que se retire o pouco apoio à iniciativa privada do Theatro Bar, que dá a hipótese a que pequenas e grandes bandas nacionais/internacionais conheçam o nome da cidade e que os habitantes da mesma possam desfrutar de alguma diversidade?

Podemos não nos esquecer da catástrofe que a cidade sofreu há pouco tempo: felizmente não fui directamente afectada, mas conheço quem tenha sido e sabem que mais? O Theatro Bar – e os seus responsáveis – estava a ajudar na realização de um concerto de solidariedade para com as vítimas da intempérie. Se não fosse o Theatro Bar, nunca, jamais, em tempo algum, nomes reputados como Long Way To Alaska, Nancy Elizabeth, Noiserv, ou Toro Y Moi tinham, sequer, vindo a Tomar. Se não fosse o Theatro Bar e, novamente, a iniciativa privada, nunca jovens tomarenses (e não só) poderiam ter tido a hipótese de terem um travo ao tal crescimento cultural, que a União Europeia tanto gosta de apregoar. Se, como eu, quiserem que a pouca cultura que Tomar (ainda) tem se mantenha, é favor assinar esta petição.

Posto isto, pergunto: senhores dirigentes, agora que passou um ano após terem sido eleitos, fazem estas coisas? Tudo bem. E daqui a três anos, pensam dar financiamento à cultura, novamente? Pergunto isto com extrema e carinhosa preocupação para com V. Exas. É que não quero, de modo algum, que se esqueçam do vosso calendário e das promessas/cacique que têm de fazer para ganharem os nossos votos.

NOTA: Este texto vai ser enviado para o Executivo Camarário, para os jornais O Templário, O Mirante e o Cidade de Tomar

(texto originalmente publicado no blog musical Ponto Alternativo)

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3 respostas a A cultura do desprezo pela cultura

  1. Grande crónica!

    Novo texto sobre as máquinas partidárias:

    Leais são os carneiros militantes que seguem a manada partidária

    http://arsenaldosinvalidos.blogspot.com/2010/12/entre-deslealdade-e-verdade.html

  2. Ana Beatriz Rodrigues também conheço essa zona (e Tomar em particular) quando por lá andei em trabalho fiquei hospedado na tropa, e também em casa de amigos na Corredoura.
    Também estive no dito cinema.
    Tenho a impressão que a ‘cultura’ em Tomar, se continuar assim, vai ficar-se pela Festa dos Tabuleiros

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