WIKILEAKS: O pobre sr. João Lopes e a Câncio (em forma, como é hábito)

Infantilismo?? Ó pobres detractores, cresçam e apareçam!…

1. “Pensamento português” em saldo e fatinhos Massimo Dutti (Boss? Não creio)
Sempre achei o jornalista João Lopes [doravante, sr. J.Lopes ou apenas sr. Lopes] um profissional esquisito: uma mescla de cavalheiro mundano com tiques (“semiológicos”?, atenção às aspas) que pouco percebe do que diz e recita (dedicado em 75% ao lixo americanóide por coleccionismo e provocação inócua), enfatuado (Massimo Dutti?) 5 ou 6 vezes por dia e noite, tudo nele bem vincado e televisivamente correcto, isso mesclado com a ligeireza do boçal vendedor de DVDs que, ao mesmo tempo, se esforça (muito, mesmo muito) para passar uma espécie de “pensamento” da imagem (que, nas mãos do sr. J.Lopes, não quer dizer absolutamente nada). Alguém o qualificou, num determinado momento, como um mero pedante, mas eu nunca diria tal. Porque o pedante é aquele que escolhe bem, apesar de tudo escolhe bem, mas não sabe o que fazer operativamente  com as suas escolhas. Neste particular, o sr. J.Lopes nem escolhe nem nunca escolheu, limitou-se sempre a consumir e a carreira já vai longa. E a vender em saldo requentado. Ou seja, anda nisto há décadas comprando e vendendo velhos livros de Baudrillard, o bom do Baudrillard.

2. “Só percebo isto até 1995”
Mas fica-se pelo que o francês teorizou até mais ou menos 1995. Contudo, não percebe nada nem até aí nem depois.  Aí se queda o “jornalista-crítico” português, reduzindo um pensamento com alguma originalidade e devaneio salutar, de recorte e provocação habilidosamente barroca, a uma coisa inodora, kitsch e decorativa, apenas para deleite de tias, as câncios que vão ao seu blogue e aos seus “textos”, onde o fascínio por Madonna já foi substituído por Lady Gaga, escolhas não desinteressantes devo dizer, mas que denotam substituições apressadas, amor fútil ao “espírito do tempo” tratando os seus objectos como lixo ornamental. E o Sound + Vision é isso, ornamento e vácuo, um sítio onde se publicitam eventos, mais casamentos do que concertos, onde se compram e vendem bilhetes para tudo e para nada (ou melhor, se aconselham as “boas escolhas-transacções”): um caixote de lixo banal de coisas parecidas com “ideias” descartáveis (por vezes, lá vem uma crítica a um concerto apenas para dizer que o coro esteve bem, apesar de uma cantora ter de sair por estar mal disposta).

3. J.Sócrates e W. Bush
E o problema reside aqui: não se percebe muito bem como é que a personagem se dedicou afanosamente a repudiar o recente caso Wikileaks, um caso que veio para ficar e não se coaduna com a reciclagem/lavagem que move o “pensamento” do sr. J.Lopes. Um pensamento fiel à efemeridade frívola de fato e gravata. E fiel a J.Sócrates, aqui uma outra vez; que, nestes textos do sr. J.Lopes, aparece não de todo despropositadamente ligado a Bush filho.

4. Será que um facto é aquilo que não circula??
No seu blogue, surgiu agora o sr. J.Lopes, pela enésima vez (recorrente na sua carreira de “crítico”), com uma velha ideia agora destinada ao ataque a Wikileaks: a de que o site coordenado por Assange pretende fazer-nos crer que um facto é apenas aquilo que circula. Desconhecendo que dele, sr. J.Lopes, se pode inferir que pensa o contrário: julgará então ele que um facto é facto por não circular? Então, quando é que um facto é facto, sr. Lopes, diga-nos lá, o sr. que tanto se incomodou com as investigações jornalísticas ao (seu) J.Sócrates? Estará o sr. Lopes a pensar em Wittgenstein? Não acredito. Leu o ponto 95 das Investigações, foi? “Se dizemos, e temos em mente que as coisas se passam assim e assim, então não nos detemos diante do facto – mas temos em mente que isto e isto é assim e assim”.

5. Uma espécie de Baudrillard de 20ª divisão
Mas arrisco a pensar que o “campeonato” do sr. Lopes não, não é Wittgenstein, é mais o de um Baudrillard de 20ª divisão, e por isso a tese central do sr. Lopes é esta: Wikileaks vem maldosamente enganar-nos pretendo fazer-nos supor que o seu “aquário de transparência” é a condição redentora da trágica sociedade actual. Esta prosa do sr. JLopes é o que chamos Baudrillard de tias e para tias. Por isso, regressemos ao original, ao verdadeiro Baudrillard de 1981:

Hoje a abstracção já não é a do mapa, do duplo, do espelho ou do conceito. A simulação já não é a simulação de um território, de um ser referencial, de uma substância. É a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real. O território já não precede o mapa, nem lhe sobrevive. É agora o mapa que precede o território – precessão dos simulacros – é ele que engendra o território cujos fragmentos apodrecem lentamente sobre a extensão do mapa.

6. The Return of The Real
Mas – o que de todo escapa ao sr. J.Lopes - Baudrillard era um pensador muitíssimo arguto, porque sabia que esta precessão ou expansão dos simulacros (Wikileaks? Não, claro que não, Assange é muito mais e melhor do que um simulacro) como “nova realidade” (hiper-real), era sinal de que a realidade já antes do triunfo dos simulacros nada mais era do que um amontoado de códigos e simulacros (é a tese de L’Illlusion de la fin, 1992). Por isso é que eles, os simulacros, triunfaram, percebe sr. Lopes? Portanto, a noção de que a realidade nunca foi mais do que uma acumulação de simulacros é anterior ao triunfo do simulacro, ou, nas palavras do sr. J.Lopes, ao triunfo do “infantilismo televisivo” que me parece que, pelo menos para o sr. Lopes, não se deve combater “pondo tudo a nu” como faz Assange. Exactamente, pôr tudo a nu, isso nunca, diz o sr. Lopes (que mistura Wikileaks com pornografia, desconhecendo o que diz o bom do Zizek, quando demonstra que a pornografia oculta mais do que revela). Mas há um Baudrillard que o sr. Lopes nunca entenderá. Diz o francês que não é o real que morre nas mãos da ilusão, é esta que morre nas mãos do triunfo de um “real integral”, de um mapa que é tão parecido que veio instalar-se para susbtituir o próprio território. Aqui, o que escreve o sr. Lopes parece aproximar-se de Baudrillard? Acham? Bom, passemos pelo facto de que o sr. Lopes apenas copia Baudrillard desde que em jornais escreve sem nunca o citar, o que não é ético. Refira-se apenas que ele se esquece de citar completamente, pois o bom Baudrillard, digamos assim, é aquele que percebe que quando o mapa já cobre todo o território, aí se encerra o ciclo do simulacro, ou o ciclo da “greve do acontecimento” (“greve” que quer dizer que o real se desertificou no seio de fluxos de informação que ilusoriamente tornaram tal real numa permanente representação, “greve” gerada por objectos como Wikileaks julga o sr. Lopes); e, pensará depois Baudrillard, e bem, quando se encerra o ciclo do simulacro e da “greve do acontecimento”, o real antes desertificado aí está emergindo de novo.

7. AGORA JÁ NÃO HÁ NADA PARA SALVAR (fique-se pelos fatos bem vincados, meu caro, vamos lá)
A ideia inicial de Baudrillard (que fez furor nos anos 80, década onde ainda habita o sr. Lopes), no fundo, era a de se devia denunciar o hiper-real (o mapa) para salvar o real (o território). Mas o real (aqui, o Wikileaks) reemerge agora intensamente, tonitruante, precisamente porque desta feita já não pode ser salvo. Ou seja, o que Wikileaks nos vem dizer é isto: como anteviu Baudrillard (os textos coligidos em Power Inferno, 2002, são nesse ponto exemplares), chegará um ponto em que já não há nada para salvar! Precisamente, a concepção de Estado e de mundo do sr. Lopes acabou, morreu meu caro, e morreu às suas próprias mãos. O que corresponde a uma outra tese de Baudrillard: a mundialização está agora a braços consigo mesma. E aqui, sim, J.Sócrates, Bush e um “qualquer ditador sanguinário” (nas palavras do sr. Lopes para nos pedir “respeito” quanto à nossa – ASSUMIDA! – equivalência entre o “sanguinário” e o “democrata”, Bush, por exemplo, um humanista que apenas quis espalhar a boa nova da “livre iniciativa”) não são lá muito diferentes. É que não são mesmo, sr. Lopes. Não são.

A mundialização, ou seja, os privilegiados da globalização – nós – estamos pois a braços connosco mesmos, pelo menos desde o 11 de Setembro, sobretudo desde que alguém decidiu chamar de imoral ao atentado contra as torres gémeas, esquecendo que o atentado não era para que os donos do mundo o classificassem, mas para que nós, os que tentamos pensar e não somos donos de nada, precisamente nós e poucos mais o pensássemos. Por isso disse Susan Sontag que os protagonistas do atentado nada tinham de cobardes (isso, precisamente, era o que não se lhes podia chamar!), e Baudrillard pôde mesmo dizer que se imoral foi o 11 de Setembro, ele foi uma imoralidade contra a imoralidade da mundialização (americana, evidentemente sr. Lopes!!) (Le Monde, 3/11/2001). Humilhados por uma virtualização esmagadora e uma tecnologia integral, desejamos com toda a força que claudique o poder supremo. Mesmo que seja o nosso. E se Wikileaks fosse disso mesmo o princípio já não era nada mau! Então, esperemos que sim. E não esbraceje, sr. Lopes, que não vale a pena. Agora, não vale mesmo a pena. Já é tarde. Muito tarde.

8. E esqueci-me de uma coisa…
Parece-me que o título do post refere uma tal F.Câncio. Mas sobre tal não comento. Alguém acha que Câncio é comentável?

LER mais: por exemplo, os textos do Ricardo Noronha no Vias de Facto (1 , 2 , 3 , 4). E isto, ainda fresco. Ou isto.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

13 Responses to WIKILEAKS: O pobre sr. João Lopes e a Câncio (em forma, como é hábito)

  1. Pingback: WIKILEAKS (2): O “filósofo da imagem” pobre, sr. J. Lopes, “respondeu” prontamente ao meu email de há pouco | cinco dias

Os comentários estão fechados.