WIKILEAKS (2): O “filósofo da imagem” pobre, sr. J. Lopes, “respondeu” prontamente ao meu email de há pouco

Começa assim a missiva de resposta (a mim dirigida, depois do post que lhe dediquei) do nosso “pobre filósofo da imagem”:

“A espécie de dimensão social histórica que restaria ainda ao esquecimento sob a forma de culpabilidade, de latência vergonhosa, de não dito, já nem mesmo existe, pois que a partir de agora ‘toda a gente sabe’, toda a gente vibrou e choramingou perante a exterminação [da realidade] (…). Mas o que assim com pouco esforço se exorciza, a troco de algumas lágrimas, não ocorrerá de facto nunca mais porque desde sempre tem vindo, actualmente, a reproduzir-se e precisamente na própria forma em que se quer denunciar, no próprio medium deste pretenso exorcismo.”

Aqui, o nosso “pobre filósofo da imagem” hesita na forma, isto é, melhora-a e muito, retomando uma sua ideia anterior. A sua, muito sua e de sempre (desde que escriba no Expresso foi), denúncia de uma puerilidade informativa libertária que consistiria em “colocar tudo a nu”. Colocar “tudo a nu” é, para o nosso “pobre filósofo da imagem”, inaceitável. Num texto recente e sobre o tema [WIKILEAKS, claro] da nossa troca de emails e impressões, dizia:
“(…) importa reconhecer também que a percepção da sua presença [de Assange, de WIKILEAKS] no nosso mundo se faz através dos mecanismos do próprio universo tecnológico que torna possível a sua presença.”
Sim, é certo, fazer anunciar um projecto de desconstrução da realidade no próprio meio em que esta tende a dar-se-nos é inaceitável. Assange não pode expressar-se “através dos mecanismos do próprio universo tecnológico que torna possível a sua presença” (que belo naco de prosa!!, importa pois saber através de que meios o pobre Assange pode expressar-se segundo J.Lopes).

Mas aqui, continuemos, o nosso “pobre filósofo da imagem” é ainda mais certeiro:

“Todas as mensagens dos media funcionam de maneira semelhante: nem informação, nem comunicação, mas referendo, teste perpétuo, resposta circular, verificação do código. Não existe relevo, perspectiva, linha de fuga onde o olhar e a mente corram o risco de perder-se, mas um ecrã total (…)”, onde o que circula é verdadeiro e é verdadeiro aquilo que circula.

Resumindo, diz o nosso “pobre filósofo da imagem” e crítico acérrimo de WIKILEAKS:

“um mesmo espaço homogéneo, sem mediação, reúne os homens e as coisas, o espaço da manipulação directa. Mas qual deles manipula o outro?”

Tem pois razão o nosso “pobre filósofo da imagem”: o verdadeiro não passa de um momento do falso. Cuidado com Assange. Que vem fazer ao nosso mundo de hoje uma coisa como a WIKILEAKS?? Pois há que resguardar o nosso espaço próprio e perguntar: quem diz a verdade de quê? Quem manipula quem??

(Palavra que não preparei muito este post – limitei-me a abrir ao acaso umas páginas do velhinho Simulacres et Simulation, do bom do Baudrillard)

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34 respostas a WIKILEAKS (2): O “filósofo da imagem” pobre, sr. J. Lopes, “respondeu” prontamente ao meu email de há pouco

  1. xatoo diz:

    que vem fazer uma coisa como a Wikileaks? – parece-nos evidente, como no tal chiaroescuro caravaggiano, é naquilo que não se vê que se pode adivinhar a realidade, o contexto da acção. Ou como no quadro de Magritte com uma natureza morta, onde fora da moldura está uma espingarda. Hoje, aquilo que não se foca, aquilo que não aparece em imagens, não existe. E a Wikileaks não foca pêva sobre o 11 de Setembro nem sobre a natureza opressiva e criminosa de Israel – daí Benjamin Netanyahu, afirmar que “as revelações são boas para Israel”:
    http://www.haaretz.com/print-edition/news/netanyahu-wikileaks-revelations-were-good-for-israel-1.327773
    a Wikileaks é uma empresa de spin pré comprada.

    • Carlos Vidal diz:

      Caro xatoo,
      É, sim, certo que a WiliLeaks nada diz sobre o 11 de Setembro, diferentemente do que eu tentei induzir, neste e no meu post anterior.
      Até pode ser financiada por Israel, como o meu caro afirma, mas tal não deixaria de ser bizarro (tudo é possível, tudo faz sentido, ou melhor, como também lemos no final de “Simulacres et Simulation”, o sentido morreu, a aparência é imortal – aí começa a era da sedução, e o WikiLeaks é sedutor: começará aqui uma segunda vida do velho Baudrillard??). Não deixaria de ser bizarro Israel estimular o ataque ao aliado de que depende. A CIA estuda o impacto desta coisa, nova ou velha, veremos.
      Mas, vamos ao 11 de Setembro.
      Simplifiquemos. Diz-me que o Leaks nada diz sobre o 11 de Setembro. Mas indirectamente diz. Repare, ao 11 de Setembro sucedeu a maior “defesa” de sempre da ideia de “Ocidente” (um cliché, como o de “Oriente”, ambos criados pelo ocidente). Em nome do Ocidente, tudo foi possível.
      Agora, podemos estar numa posição idêntica: em nome do Ocidente, há que acabar com o WikiLeaks – essa é a posição dos neo-conservadores, da Fox, etc. Do muito citado embaixador Cutileiro (irmão da maior aberração da arte portuguesa do século XX, mas isso não vem ao caso), do sub-escritor Sousa Tavares, do “crítico” João Lopes. Veja bem: a luta também é contra esta gente que deve ser feita. Se pudermos aproveitar umas munições de Assange, porque não??

  2. xatoo diz:

    “porque não?”, porque sim!
    claro que é através do enfrentamento a essas aventesmas menores que se produz o combate no nosso quotidiano
    mas repare, carissimo professor, uma luta radical pressupõe uma investigação radical às raizes das questões (“radical”: do latim radix, que significa “raiz”)
    E o mundo que temos e que pretendemos transformar (certo?) nasceu do 11 de Setembro (há dúvidas sobre que tenha sido um “inside job” terrorista produzido pelo falido poder imperialista?), ou seja, jamais se conseguirá transformar seja o que fôr se partirmos de premissas erradas, manipuladas, dando apenas corda às sombras que se alimentam do neoconservadorismo que produziu o crime e o paradigma.
    Sobre este assunto, obviamente, daqui dos infra-comentadores do portugalinho não se espera nada. Mas há um movimento nos EUA (apenas urbano, é certo) que reclama insistentemente uma investigação ao factos e relatórios ao 11/9 e é por aí que temos de estar atentos.
    Mais preocupante porém é o debate dentro das tocas de coelhos intelectuais. Nada mais benéfico para quem distribui as cenouras do Poder: – “My opinion of Christian Zionists? They’re scum, but don’t tell them that. We need all the useful idiots we can get right now.” ~ Bibi Netanyahu.
    Logo, são preciso cuidados redobrados quando se pretende discutir apenas as teorias em nome de egos intelectuais sem ver nelas imediatas aplicações práticas de transformação.
    Mas enfim, pela minha parte as ilusões são poucas; o marechal de campo Jeffery Amherst, o primeiro governador britânico das colónias norte-americanas (o nobiliárquico barão da casa de Amherst que mandou distribuir os tais cobertores infectados com varíola para “pacificar” os indios nativos) dá hoje nome a cidades, universidades e equipas de futebol no Canadá e EUA – Amherstburg, a taça Jeff, etc. sabemos como a classe dominante trabalha através dos mitos na construção das identidades de grupo
    Portanto, os meus desejos de ano novo à malta aqui do blogue é que não se deixem envolver na construção de um qualquer prémio Bush em nome da “civilização” ocidental, (em processo acelerado de substituição pelo modelo misto oriental que o Graham Vick nos sugeriu como inevitável no “crepúsculo dos deuses”)

  3. xatoo diz:

    áh, e aqui o James Petras ajuda a desmontar a natureza da Wikileaks

  4. Z diz:

    The introduction of set theory allows Badiou to put in axiomatic terms what for Lacan had been decisive in breaking from the ancient dialectic of the many and the one. A multiplicity can be ‘counted as one’ on the basis of the terms by which its elements are gathered. Through the axioms of set theory, we may say, ‘the one is not’, which provides a rigorous model for the operation of proper names, as follows: the empty set is the only unique set, because, as the only set lacking members, it is the only one that cannot be duplicated. The proof of this can be found in the so-called principle of extensionality, according to which sets may be compared in terms of elements they share. The empty set is the only set that
    cannot be compared with any other, for it has no elements. Badiou’s application
    of this set theoretical curiosity implies that if the empty set is unique then its mark ∅ operates as a proper name and as the negative inscription of existence. Existence accordingly can be affirmed only on the basis of the negative inscription, the mark of the empty set. That something is can only be affirmed on the basis of the one that is not.”

    John W.P. Phillips
    Art, Politics and Philosophy : Alain Badiou and Jacques Rancière
    Theory Culture Society 2010 27: 146

    Concorda com esta interpretação da relação do Multiplo com o Um em Badiou, Vidal?

  5. Carlos Vidal diz:

    Caríssimo, teria de ler o texto completo atentamente. Não o fiz, assim, limitar-me-ei a assinalar o que me parece lógico e certo, numa interpretação que eu próprio proponho do que diz John Phillips, autor que me irá interessar, pois também, duma forma muito específica (ligando tecnologias militares a possibilidades ou “tecnicidades” perceptivas – note que parte do meu trabalho tem sido o estudo do que chamo “regimes de ocularidade”, do Iluminismo a Derrida, e é daí que vem o interesse por Caravaggio, por ex.), duma forma muito específica, dizia, trabalha com questões ligadas ao “olhar”/”percepção”.
    Mas, vamos ao Badiou.
    Interpreto o que diz Philips no sentido de o levar ao encontro do que teoriza o próprio Badiou (ou, por exemplo, o “badiano” Peter Hallward, que citarei).
    Não sei de onde vem a conclusão das últimas três linhas, nem como se diz tal a partir do conjunto vazio.
    Já quanto a «Through the axioms of set theory, we may say, ‘the one is not’ (…)», tal me parece correcto, pois, em Badiou, o Um não tem Ser (“L’un n’est pas”). Só existe o múltiplo. O Um vem a partir do ponto em que contamos os “Uns”, que incluem o Um, naturalmente.
    O outro ponto que me interessa é este:
    «(…) sets may be compared in terms of elements they share.»
    Tal quer dizer que no conjunto somos iguais, partilhamos, possuímos co-pertença.
    A igualdade verifica-se nessa partilha.
    Ou seja, nós somos diferentes de estrelas e cadeiras, porque pertencemos a conjuntos diferentes. Mas, no mesmo conjunto, somos iguais em co-pertença. Logo, os conjuntos comparam-se a partir dos elementos que partilham.

    Um excerto de Peter Hallward, «Badiou: A Subject to Truth» (Minnesota U Press):
    «[Badiou] accept that be-ing is not one, while recognizing nevertheless that ones are made to be: “L’un n’est pas” – There is no be-ing of the one – but “Il y a de l’Un”, a statement whose meaning might be best rendered as “There is a One-ing”. The one is not, but there is an operation that “one-ifies” or makes one. There is no one; there is only an operation that counts as one. And if the one is not, only the multiple is.»

    Não sei se respondi à sua questão, caro Z.

  6. Z diz:

    Caro Vidal,

    Obrigado pela elucidação.
    Não concordo com a formulação de Badiou.
    N disponho de tempo agora. Mas prometo regressar a este post dentro de dias. Tenho que ler+umas coisinhas. N tenho mt tempo.

    Apenas isto, agora:

    “The one is not, but there is an operation that “one-ifies” or makes one. There is no one; there is only an operation that counts as one. And if the one is not, only the multiple is.”

    However: the operation the counts as one…IS.

    Parece-me que Badiou chega ao não-ser como condição ontológica, ao so-called empty set (que, ao contrário do que diz, não se caracteriza por uma co-pertença a um set porque a extensionalidade (de um mesmo atributo na multiplicidade) não se efectiva nunca no empty set (there are no elements in the empty set…o que é que aconteceu ao multiplo que existe?)

    Qual é o aparente erro de Badiou: Confundir o multiplo que resiste à unificação conceptual do 1 com o Nada. Ou seja, é a “impossibilidade” de postular um 1 no contexto da multiplicidade radical (ausência de atributos comuns nos elementos do multiplo) que o leva a postular o Nada e o Não-ser.

    Meras impressões. Não sou um estudioso de Badiou. Sou um mero curioso.

    A multiplicity can be ‘counted as one’ on the basis of the terms by which its elements are gathered. (Phillips, ibid.)

    On the basis of the TERMS by which its elements are gathered.

    O gathering dos elementos é arbitrário?? Claro que não.

    Percebe onde quero chegar?

    Há muito mais a dizer sobre este assunto. Regressarei a este post dentro de alguns dias. Depois de ler o resto do Logiques e ++ alguns papers.

    Gostaria muito de ler a sua Tese. Tenciona publicar?

    Obrigado

    Cumprimentos
    Feliz Natal

    z

  7. Z diz:

    PS: repare: uma coisa é o Nada como algo que existe Indeterminado (O nada referir-se-ia à ausência de determinação unitária de uma multiplicidade e NÃO ao não-ser)

    O Nada de Badiou refere-se à impossibilidade de Unificar (no 1) uma multiplicidade e NÃO ao não-ser, apesar do seu não-ser ser distintamente Hegeliano ou Lacaniano..não designa um não-existente mas uma relação de incomensurabilidade entre simbolo e existente)

    ciao
    z

  8. Z diz:

    errata:

    Perdi-me aqui.

    Parece-me que Badiou chega ao não-ser como condição ontológica, ao so-called empty set pela via de uma dificuldade imposta pelo múltiplo (que, ao contrário do que diz, não se caracteriza por uma co-pertença a um set porque a extensionalidade (de um mesmo atributo na multiplicidade) não se efectiva nunca no empty set (there are no elements in the empty set…o que é que aconteceu ao multiplo que existe?)

    Outra coisa: Para Badiou, o nada é aquilo que ainda-não-é (not yet, da lógica de hegel, o empty signifier de Lacan, como diz Phillips e muito bem) não é o NADA do NÃO-existente sem ser!! O seu Nada emana do múltiplo. (a condição da sua possibilidade é o ser pleno do múltiplo e não o sem-ser)

    Vidal,
    se desejar envio-lhe o paper do Phillips

    cumps
    z

    • Carlos Vidal diz:

      Por agora, caro Z, apenas uma questão:
      dizer que o “nada” é, dizer que o ser é uma multiplicidade pura ou uma multiplicidade inconsistente (uma vez que o UNO só pode ser teológico), dizer que aquilo que “é” se move/vem do vazio, mesmo ligar a existência, o desenho do ser, ao conjunto vazio, implica duas coisas: que tanto a inconsistência, como a consistência (o “contar por um”, que já é “situação”), encontram correspondências na teoria dos conjuntos; por outro lado, confundir o “vazio”, ou o “nada” com o “negativo” (ver texto John Phillips), parece-me um salto grande de mais (talvez mediado por Hegel possa “funcionar”). De qq modo, vou voltar ao paper de Phillips logo que tenha tempo.
      E falta aqui (nos nossos comentários) um outro tema: o do infinito como entidade autoconsistente (Cantor axiomatizado por Zermelo / Fraenkel).
      (Continua – possivelmente)

      • Carlos Vidal diz:

        O nazi-sionista ezequiel, Z ou outra merda qualquer, e são muitos os “nomes” que o tipo inventa, o cobardolas dos mil e um pseudónimos, depois de falinhas mansas e de dizer que estava a preparar-se para falar sobre estes temas da ontologia badiana, voltou, enfim, não se preparou e veio para insultar, insultando o autor do post (por causa de outro post e da polémica em torno da questão dos senhorios, onde interveio de novo cobardemente sob anonimato e nick), veio insultar um trabalho académico que não conhece, veio dizer algo que nada tem a ver com a matéria do post, nem com a conversa que aparentava querer encetar.
        Um estalinista assumido como eu não gosta nada de cobardes sob pseudónimos, e ainda por cima tão trôpegos e mentacaptos que não o sabem disfarçar.
        Porque um texto de ezequiel cheira-se a léguas.
        Veio dizer que eu não sabia isto e aquilo, nem de Badiou nem de nada.
        Rasurei-o claro. Se deixar de ser cobardolas e se tornar um homenzinho será publicado.
        Mas o seu erro é o seguinte: o que eu disse sobre Badiou está dito, está nos meus comentários em cima, e disponível para a leitura de todos. Contudo, e aqui é que reside o problema do sionista atrasado mental, confesso que não li a merda dos 4 ou 5 comentários seguidos (SEGUIDOS!) que o fulano me envia e enviou para esta caixa. Não o li, não sei o que acima ele me disse. E, depois, falei de Badiou como me apeteceu, sem ler o nazi-sionista ezequiel, pois não dá, não dá mesmo para ler os comentários do tipo, que são sempre 4 ou 6 textos seguidos e desconexos.
        Entendido?
        Volte sempre.

  9. Carlos Vidal diz:

    Lá fui ler as dejecções em catadupa de ezequiel.

    Basta isto (por agora):
    “Parece-me que Badiou chega ao não-ser como condição ontológica, ao so-called empty set (que, ao contrário do que diz, não se caracteriza por uma co-pertença a um set porque a extensionalidade (…)”
    (Ezequiel)

    – Seu burro,
    É o ser-enquanto-ser, é a ciência do ser-enquanto-ser, a ontologia, é esta e apenas esta que se pode considerar a ciência da pura e inconsistente multiplicidade, presentificação nela-mesma, este múltiplo puro é afactado pelo “nada”, o conjunto vazio. Ou seja, Badiou mostra que a tse de Platão é esta: “se o Um não é, então o Nada é”. Logo, o “não-ser” não tem nada a ver com o “so-called empty set” porque o não-ser já é aquilo que é o “contar por um”. O não-ser não é o ser, o conjunto vazio, como diz ezequiel, “Badiou chega ao não-ser como condição ontológica, ao so-called empty set”.
    Agora, pode-se dizer que não são incompatíveis: o múltiplo e o “Um” não são incompatíveis, por isto: “a multiple is not one, but it is referred to with ‘multiple’: one word”.
    O múltilo não é UM, mas, como eu disse acima, pode ser “definido” por múltiplo, “UMA” palavra.
    Logo, voltamos ao que eu disse acima:
    «(…) em Badiou, o Um não tem Ser (“L’un n’est pas”). Só existe o múltiplo. O Um vem a partir do ponto em que contamos os “Uns”, que incluem o Um, naturalmente.»

    Que o nazi-sionista venha aqui insultar sem mais (só porque noutro post eu insultei senhorios), sem saber de nada disto, é não publicável.
    Se se portar como homenzinho, já pode ser publicado.

  10. Carlos Vidal diz:

    E agora, dejecção à ezequiel para clarificar (um 4º comentário seguido):

    – o não-ser não é nunca o “empty set”; o não-ser é sempre referente ao “Um”:
    percebido??

  11. Z diz:

    Z é o nick do meu nome. uso-o quando n tenho tempo n pachorra para escrever ezequiel.
    não há qualquer tentativa de ocultar seja o que for. (o sr sabe quem é o Z, sempre usei este nick aqui) um nickname não é um pseudónimo. não usei um pseudónimo. usei um nick.

    cobardolas é o sr que “responde” ao meu comentário sem o publicar.
    tudo o que escreveu acima parece-me correcto.
    mas não foi do múltiplo-1 que eu falei no meu comentário.
    mencionei a forma como definiu IGUALDADE

    então o sr não sabia que o Z sou eu. é evidente que sabia.
    mas fez a festa de qq forma, como se eu usasse o Z como pseudónimo. ok.
    é um nick que eu uso há anos.

    PS: estou-me a borrifar para os Senhorios, meu caro.
    a sua perspicácia é deveras notável.

    • Carlos Vidal diz:

      “tudo o que escreveu acima parece-me correcto.”, diz Z.
      Repito Z: “tudo o que escreveu acima parece-me correcto” !!

      Ora, o respeito é muito bonito. Assim, sim, entendemo-nos.

      Sobre os enganos de Z/ezequiel, sobre o termo “não-ser” por ele usado incorrectamente (diz-se não-ser do Um, e não-ser – como faz Zizek – ou melhor, trans-ser, aquando da transfiguração da situação protagonizada pelo acontecimento, acontecimento que é a vinda “ao de cima”, digamos, do vazio da situação), sobre tudo o que Z disse, e mal, eu resumi. Sobre o que ele disse do meu trabalho académico sem o ter lido, eu não poubliquei nem tenho de publicar. E só publicaria se o indivíduo estivesse a falar do que leu!

      Se um sionista se quer vingar e ainda por cima sem qualquer razão ou fundamento, que escolha outro meio: por exemplo, um duelo (físico, apesar de movido por razões políticas).
      Que se meta comigo profissionalmente, vá bardamerda – como irá, pelo menos comigo, qualquer nazi-sionista. Que eu sei acalmar, a bem ou a mal.
      Se é fanático e doente, que se trate.

      Quando à IGUALDADE, não foi propriamente isso que eu disse, nem tratei – eu falei do contrário – da DIFERENÇA. E é certo – uma estrela é diferente de uma cadeira porque pertencem a conjuntos diferentes.
      Ponto.
      Não desenvolvo isto mais, pois não respeito o interlocutor.

  12. Z diz:

    Respeitinho?

    n tem rigorosamente nada q ver com respeito, sr prof.
    tem q ver com a forma como definiu a igualdade (em relação ao pensamento do dito)

    o não ser do 1 (da multiplicidade que não é 1) que pode, não obstante, ser contado como 1.(bizarro)
    o não ser no sentido de algo que não pode ser postulado (dada a multiplicidade pura)
    acho que percebi.

    o que o Vidal n percebe é que a operação de contar aplica-se à multiplicidade existencial-ontológica e à postulação (transcendental, com qualificações) do 1 múltiplo (que é sempre singular)

    como separar a operação de contagem dos atributos da multiplicidade que é contada?

    ou, melhor, como separar o acto de contagem (que para Badiou é mera atribuição subjectiva sem ser subjectivista) do discernimento da multiplicidade? perspectivar a multiplicidade é um acto de contagem, de inscrição do existente na consciência do sujeito (badiouano).

    “b.That thought, as subject-thought, is constituted through a process means that
    the universal is in no way the result of a transcendental constitution, which would
    presuppose a constituting subject. On the contrary, the opening up of the
    possibility of a universal is the precondition for there being a subject-thought at
    the local level. The subject is invariably summoned as thought at a specific point of
    that procedure through which the universal is constituted. The universal is at once
    what determines its own points as subject-thoughts and the virtual recollection of
    those points. Thus the central dialectic at work in the universal is that of the local,
    as subject, and the global, as infinite procedure. This dialectic is constitutive of
    thought as such.”

    8 teses acerca do Universal.
    Alain Badiou

    A imersão da consciência no múltiplo (aletheia, late heidegger) é um fenómeno universal independentemente da natureza do múltiplo.

    ok, Vidal.

    Esta absurda tensão reaparece aqui:

    I will call particular whatever can be discerned in knowledge (of, mine) by means of
    descriptive predicates. But I will call singular that which, although identifiable as a
    procedure at work in a situation, is nevertheless subtracted from every predicative
    description. Thus the cultural traits of this or that population are particular.

  13. Z diz:

    Um duelo?

    Lugar, data e hora, Vidal?

    parece-me uma solução civilizada para este nosso diferendo, gorduchinho.

    lol 🙂
    surreal.

  14. Z diz:

    faça-se acompanhar dos seus amiguinhos resistentes, como o renato, por ex. serão testemunhas e não só.
    seria um prazer.
    lol lol lol

    só visto.
    contado ninguém acredita.

  15. Carlos Vidal diz:

    “o não ser do 1 (da multiplicidade que não é 1) que pode, não obstante, ser contado como 1.(bizarro)”

    Burrice, nada de bizarro.
    Pode ser contado por 1 na medida em que o 1 é o conjunto que inclui o conjunto vazio.
    E na medida em que Badiou diz que “a ontologia é a situação”.
    Quando perceber isto, telefone.

    Outra coisa:
    “a operação de contar aplica-se à multiplicidade existencial-ontológica “, sim para que a situação não deixe transparecer o vazio de que é composta. O “contar por um” sinaliza aquilo que Badiou chama, na situação, um excesso do Estado/estado (o que significa estado da situação e Estado como figura política).

    E se continua revoltado, marca-se o duelo. Não sou eu que apareço aqui sem dados – nem e-mail (hhhh@nullhhhhh.com e bardamerda), não sou eu que tenho dez nicks (todos denunciados pelo texto-diarreia), não sou eu que tenho morada incerta.
    Vá e não volte. Ou melhor, apenas para o duelo; de resto, não volte.
    Não tenho tempo.

  16. Z diz:

    dez nicks!?
    eu n uso dez nicks: ou Z ou ezequiel
    já o outro dia o António atribuiu-me um comentário que não era meu.
    vocês estão a ver a minha pessoa por toda a parte.
    que se lixe.

    o vazio que compõe a situação!!

    ou, em VidalianoBadiouano, “para que a situação não deixe transparecer o vazio de que é composta…”

    situação, vazio. (o não 1 da multiplicidade transformado em VAZIO?)

    por favor, Vidal, poupe-me.

    isto é nonsense.

    boa sorte com os seus estudos peripatéticos.

    Badiou é uma fraude. e o sr também, pelos vistos.
    apenas a minha opinião.

    revoltadíssimo. mal consigo conter a minha revolta contra o Vidal. 🙂

  17. Z diz:

    o prob

    situação, vazio. (o não 1 da multiplicidade transformado em VAZIO?)

    uma situação, qualquer que seja, não é composta ou emana ou etc de um vazio. a ausência do 1 não é = a vazio (e, se bem me lembro, é o próprio Badiou que usa o termo ontologia NEGATIVA)

    disse e repito: o badiou e o sr confundem as dificuldades geradas pela multiplicidade com o VAZIO.
    erro elementar.

  18. Carlos Vidal diz:

    Situação, vazio, sim. Se não fosse não existiria o “contar por um” e não poderia da situação irromper o acontecimento. Pois o acontecimento vem da situação. Ou melhor, como diz e muito bem o Badiou, o acontecimento está entre ele-próprio e a situação. Percebido??

    Já agora, a situação não é o não-UM. A situação é o Um, ou melhor, “contar por Um”.

    Meu caro, chega, vá dormir.
    Onde vive? Canadá? Açores?
    Por aí, não faz noite?
    Vá chatear outro.
    Descanse: Deus há-de voltar à terra. Diz o Badiou numa das teses sobre o Universal.

  19. Niet diz:

    Meus caros: Um módico de modéstia e bom senso! Caramba! Estas questões sobre a metafísica – negativa, quasi-científica Ontologia !- só nos podem fazer mal. São hegelianices muito torcidas e tremidas, segundo nos aponta Trent Schroyer. Ainda devo uma resposta ao bom do Ezequiel, eu sei. Mas tenho que ir estudá-la lá para as bandas do ” materialismo vital ” tão caro a Adorno; e cria-se aqui mais um problema por causa da pretensa lógica dialéctica no interior da linguagem como Vatimo explica. Faço minha a proposição de Walter Benjamin: ” Só aos desesperados será concedida a esperança !”Niet

  20. Z diz:

    Este naco de prosa de Spinoza aplica-se ao pensamento de Badiou:

    Thus it is brought prominently before us, that superstition’s chief victims are those persons who greedily covet temporal advantages; they it is, who (especially when they are in danger, and cannot help themselves) are wont with Prayers and womanish tears to implore help from God: upbraiding Reason as blind, because she cannot show a sure path to the SHADOWS they pursue, and rejecting human wisdom as vain; but believing the PHANTOMS of imagination, dreams, and other childish ABSURDITIES, to be the very oracles of Heaven.”

    The origin of superstition above given affords us a clear reason for the fact, that it comes to all men naturally, though some refer its rise to a dim notion of God, universal to mankind, and also tends to show, that it is no less inconsistent and variable than other mental hallucinations and emotional impulses, and further that it can only be maintained by hope, hatred, anger, and deceit; since it springs, not from reason, but solely from the more powerful phases of emotion. (14) Furthermore, we may readily understand how difficult it is, to maintain in the same course men prone to every form of credulity. (15)
    For, as the mass of mankind remains always at about the same pitch of misery, it never assents long to any one remedy, but is always best pleased by a NOVELTY which has not yet proved illusive.
    (16) This element of inconsistency has been the cause of many terrible wars and revolutions; for, as Curtius well says (lib. iv. chap. 10): “The mob has no ruler more potent than superstition,” and is easily led, on the plea of religion, at one moment to adore its kings as gods, and anon to execrate and abjure them as humanity’s common bane. (17) Immense pains have therefore been taken to counteract this evil by investing religion, whether true or false, with such pomp and ceremony, that it may, rise superior to every shock, and be always observed with studious reverence by the whole people – a system which has been brought to great perfection by the Turks, for they consider even controversy impious, and so clog men’s minds with DOGMATIC formulas, that they leave no room for sound reason, not even enough to doubt with.”

    Baruch Spinosa, A Theologico-Political Treatise

    Fique com o seu Badiou, Vidal.
    Hoje acabei as minhas leituras do fraudster Badiou. Já
    Poderia demonstrar, tintim por tintim, o quão absurdo e estúpido Badiou de facto é.

    Mas eu tb n tenho paciência.

    Apenas isto: o acontecimento vem da situação (múltipla)

    o múltiplo é e tem que ser acontecimento
    o múltiplo é o evento da potencialidade

    já ouviu falar da escola de Connectionism da Ciência Cognitiva? Apenas uma das disciplinas que demonstra que o evento é uma estrutura tão primordial (e não algo post facto) quanto o múltiplo. mas este n é o lugar para debatermos estes temas.

    Badiou: o acontecimento está entre ele-próprio(1) e a situação(2).

    1 badiou (acontecimento) 2 situação

    Wrong: não há distância (entre) acontecimento e situação.
    o que há é a confluência simultânea (sob a forma de gestalt, indecomponível em termos temporais e espaciais)

    Ouça uma coisa: Badiou é um imbecil. Fez pouco mais do que sintetizar, com cuspo e muito fervor revolucionário, uma multiplicidade de argumentos desconexos. rien plus. esta é a forma mais patética de criatividade filosófica. pastiche. nada mais.

    Feliz Ano Novo.
    ezequiel

  21. Z diz:

    PS: opinião de um curioso, evidentemente.

  22. Z diz:

    errata:
    não há distância (entre) badiou-acontecimento-situação.

    precisamos de um novo vocabulário.

  23. Z diz:

    Prima facie, the world is a pluralism; as we find it, its unity seems to be
    that of any collection; and our higher thinking consists chiefly of an
    effort to redeem it from that first crude form. Postulating more unity
    than the first experiences yield, we also discover more. But absolute
    unity, in spite of brilliant dashes in its direction, still remains
    undiscovered, still remains a _Grenzbegriff_. “Ever not quite” must be
    the rationalistic philosopher’s last confession concerning it. After
    all that reason can do has been done, there still remains the opacity
    of the finite facts as merely given, with most of their peculiarities
    mutually unmediated and unexplained. To the very last, there are the
    various ‘points of view’ which the philosopher must distinguish in
    discussing the world; and what is inwardly clear from one point remains
    a bare externality and datum to the other. The negative, the alogical,
    is never wholly banished. Something–“call it fate, chance, freedom,
    spontaneity, the devil, what you will”–is still wrong and other and
    outside and unincluded, from _your_ point of view, even though you be
    the greatest of philosophers. Something is always mere fact and
    _givenness_; and there may be in the whole universe no one point of
    view extant from which this would not be found to be the case.
    “Reason,” as a gifted writer says, “is {ix} but one item in the
    mystery; and behind the proudest consciousness that ever reigned,
    reason and wonder blushed face to face. The inevitable stales, while
    doubt and hope are sisters. Not unfortunately the universe is
    wild,–game-flavored as a hawk’s wing. Nature is miracle all; the same
    returns not save to bring the different. “

  24. Z diz:

    William James

  25. Carlos Vidal diz:

    Este pode ser o lugar para debater todos os temas, meu caro, desde que com pés e cabeça.

    Diz-me que não há distância entre acontecimento e situação. Esse é o maior disparate que se pode dizer numa discussão sobre Badiou. A não ser que se faça/escreva como diz: “Badiou é um imbecil e uma fraude”.
    Aqui, sim, então está tudo resolvido.
    Mas, voltemos ao enunciado: não há distância entre acontecimento e situação. Se não há distância nem oposição entre acontecimento (verdade) e situação, então é porque a verdade está na situação (e não pode estar: ela é o que acontece e revela na situação: se não houver “acontecimento”, não há verdade).
    Mas se, para si, não há distância entre acontecimento e situação, e se a verdade está (reside) na situação, então entramos no terreno que a filosofia analítica chama de teoria da coprrespondência da verdade, ou seja, verdade é aquilo que corresponde a um facto.
    O que é negado pelo pragmatismo e por, precisamente, o “seu” William James.
    Ou seja, o pragmatismo (James, Peirce) opõe-se à verdade como correspondência ao facto.
    Pelo seguinte (cito de um texto meu ainda inédito):
    «(…) o pragmatismo, em William James e Charles Peirce, opõe-se à teoria da correspondência. Deve sublinhar-se que o pragmatismo, no espaço anglo-americano e no século XIX, e o idealismo alemão, desde o século XVIII, desafiaram a velha tese, em vigor desde uma antiguidade remota, que uma verdade se definia ou constituía numa correspondência com o mundo.
    Central em William James é a equivalência entre crença verdadeira e crença útil. Daqui advém a primeira tese de James: uma crença é verdadeira se tiver utilidade prática. James interessa-se pelas consequências das verdades. Mas mais pelas cognitivas do que pelas consequências no mundo (o que é parte da teoria da correspondência). Portanto, cognitivamente, uma verdade é algo de assimilável, pode ser validada, corroborada e verificada. Tudo aquilo que podemos validar pertence à verdade. O que se aparta do domínio da experiência pertence por maioria de razões à verdade absoluta – que é, neste contexto, inalcançável, ininteligível, irrelacionável ou intocável pela experiência.»

    Mas eu prefiro outra teoria da verdade (que também não passa pelo acontecimento): a deflacionista – conhece??

    A teoria deflacionista é a única «que não considera que a verdade tenha uma substância ou qualquer carga metafísica. Deflacionada, uma verdade não acrescenta nada a um veículo informativo e àquilo que ele contém. Veja-se a fórmula:

    < <φ> é verdadeiro > = < φ>

    Isto é, dizer «o céu azul é uma verdade» é o mesmo que dizer «o céu é azul». O valor de verdade (deflacionado) não tem qualquer vínculo ao que quer que seja além do carácter assertivo do statement que acompanha. Como para aos deflacionistas a verdade nem é propriedade nem substância, dizer que algo é verdadeiro porque cabe numa definição de verdade (por ex: coerência, correspondência, etc.) é uma redundância. Dizer «é verdade que César foi assassinado» é o mesmo que dizer «César foi assassinado». Portanto, diremos que a teoria deflacionária se ocupa da verdade inserida em actos linguísticos na proposição – o predicado de verdade é uma mera ferramenta lógica de uma concordância. É uma redundância a sua presença na proposição. Daí que as várias correntes da teoria deflacionária da verdade tenham nomes e conceitos como os seguintes: redundância, minimalismo ou desreferencialismo/descitacionalismo (disquotationalism). Na teoria deflacionária, uma verdade é desreferencializada, porque não é apoiada em nenhuma substância que possa integrar ou compor uma definição de verdade. Como não há grupos nem definições de verdade – no deflacionismo cada verdade é uma coisa desirmanada – dizemos que as verdades são entidades desreferencializadas ou descitacionalizadas.» [do mesmo texto]

    E para que é isto?
    Para que você pense nas teorias da verdade, e não negue Badiou de forma ignorante, e não diga que, nele, um acontecimento (verdade) não se distancia de uma situação.
    Está a colocar-me um tema que diz respeito não a Badiou, mas à teoria da correspondência da verdade. Aí, sim, a verdade “está” na situação. Em Badiou “vem” da situação.
    Percebido??

  26. Carlos Vidal diz:

    E não esquecer que estes nossos cerca de 28 comentários, ezequiel, passam ao lado (acho que sim) do pobre Baudrillard, tão mal tratado anda (e ando agora a relê-lo), e que é permanentemente copiado levianamente por João Lopes, um absoluto ignorante nestas e outras matérias – que copia descaradamente o Baudrillard dos anos 80, e que, como o ezequiel, gostaria de ver o Assange morto.

  27. Z diz:

    «Diz-me que não há distância entre acontecimento e situação. Esse é o maior disparate que se pode dizer numa discussão sobre Badiou. A não ser que se faça/escreva como diz: “Badiou é um imbecil e uma fraude”.
    Aqui, sim, então está tudo resolvido.
    Mas, voltemos ao enunciado: não há distância entre acontecimento e situação. Se não há distância nem oposição entre acontecimento (verdade) e situação, então é porque a verdade está na situação (e não pode estar: ela é o que acontece e revela na situação: se não houver “acontecimento”, não há verdade).
    Mas se, para si, não há distância entre acontecimento e situação, e se a verdade está (reside) na situação, então entramos no terreno que a filosofia analítica chama de teoria da coprrespondência da verdade, ou seja, verdade é aquilo que corresponde a um facto.
    O que é negado pelo pragmatismo e por, precisamente, o “seu” William James.
    Ou seja, o pragmatismo (James, Peirce) opõe-se à verdade como correspondência ao facto.
    Pelo seguinte (cito de um texto meu ainda inédito):
    «(…) o pragmatismo, em William James e Charles Peirce, opõe-se à teoria da correspondência. Deve sublinhar-se que o pragmatismo, no espaço anglo-americano e no século XIX, e o idealismo alemão, desde o século XVIII, desafiaram a velha tese, em vigor desde uma antiguidade remota, que uma verdade se definia ou constituía numa correspondência com o mundo.
    Central em William James é a equivalência entre crença verdadeira e crença útil. Daqui advém a primeira tese de James: uma crença é verdadeira se tiver utilidade prática. James interessa-se pelas consequências das verdades. Mas mais pelas cognitivas do que pelas consequências no mundo (o que é parte da teoria da correspondência). Portanto, cognitivamente, uma verdade é algo de assimilável, pode ser validada, corroborada e verificada. Tudo aquilo que podemos validar pertence à verdade. O que se aparta do domínio da experiência pertence por maioria de razões à verdade absoluta – que é, neste contexto, inalcançável, ininteligível, irrelacionável ou intocável pela experiência.»

    Mas eu prefiro outra teoria da verdade (que também não passa pelo acontecimento): a deflacionista – conhece??

    A teoria deflacionista é a única «que não considera que a verdade tenha uma substância ou qualquer carga metafísica. Deflacionada, uma verdade não acrescenta nada a um veículo informativo e àquilo que ele contém. Veja-se a fórmula:

    < é verdadeiro > =

    Isto é, dizer «o céu azul é uma verdade» é o mesmo que dizer «o céu é azul». O valor de verdade (deflacionado) não tem qualquer vínculo ao que quer que seja além do carácter assertivo do statement que acompanha. Como para aos deflacionistas a verdade nem é propriedade nem substância, dizer que algo é verdadeiro porque cabe numa definição de verdade (por ex: coerência, correspondência, etc.) é uma redundância. Dizer «é verdade que César foi assassinado» é o mesmo que dizer «César foi assassinado». Portanto, diremos que a teoria deflacionária se ocupa da verdade inserida em actos linguísticos na proposição – o predicado de verdade é uma mera ferramenta lógica de uma concordância. É uma redundância a sua presença na proposição. Daí que as várias correntes da teoria deflacionária da verdade tenham nomes e conceitos como os seguintes: redundância, minimalismo ou desreferencialismo/descitacionalismo (disquotationalism). Na teoria deflacionária, uma verdade é desreferencializada, porque não é apoiada em nenhuma substância que possa integrar ou compor uma definição de verdade. Como não há grupos nem definições de verdade – no deflacionismo cada verdade é uma coisa desirmanada – dizemos que as verdades são entidades desreferencializadas ou descitacionalizadas.» [do mesmo texto]

    E para que é isto?
    Para que você pense nas teorias da verdade, e não negue Badiou de forma ignorante, e não diga que, nele, um acontecimento (verdade) não se distancia de uma situação.
    Está a colocar-me um tema que diz respeito não a Badiou, mas à teoria da correspondência da verdade. Aí, sim, a verdade “está” na situação. Em Badiou “vem” da situação.
    Percebido??
    ————————————–
    “Diz-me que não há distância entre acontecimento e situação.”

    Vidal, eu não estava a falar de Badiou quando escrevi esta frase. Pretendia apenas afirmar o seguinte: não faz sentido pensar o acontecimento como uma determinação ontológica que emana da multiplicidade porque, bem vistas as coisas, o múltiplo é um acontecimento per si.
    O multiplo, ao contrário do que pensa Badiou, é discernível (pluralismo, complexidade), possui atributos (= definições). A apreensão de qualia e a sua determinação (multiplicidade) é um evento. Ou seja, Badiou deveria recuar as fronteiras ontológicas do “evental”.

    A forma mais simples de demonstrar a veracidade desta tese é esta: O evento (revolução Francesa, o contar por 1: a revolução) preserva a multiplicidade (o contexto histórico) como condição ontológica e a sua fluidez (as muitas perspectivas sobre o evento). A multiplicidade persiste no evento. Não existem eventos objectivos, unidimensionais, destituídos de perspectivas. A multiplicidade persiste, sob outras formas. (ver Gadamer)

    A verdade, como atributo universal, encontra-se na situação, no acontecimento e na multiplicidade. A sua universalidade deriva de uma mesma essência (universal, claro) que se manifesta sob a forma de diversas interrogações. (o ? persiste em todos os quadrantes ontológicos) Logo, preservamos essência (?) e multiplicidade (respostas diversas a interrogações situadas). Poderá o (?) ser entendido como uma essência? (Heidegger)
    Se a questão da verdade é um universal hermenêutico(Heidegger, outra vez) então é plausível supor que ela se manifesta de formas diversas (a correspondência, a coerência etc)

    Todas as concepções de verdade filosoficamente justificáveis são COMPLEMENTARES. Exemplo: os factos inegáveis (Hitler foi um nazi) podem e geralmente estão sujeitos às mais diversas formas de complementaridade (Hitler foi um nazi bem sucedido devido ás imposições de Versailles; Versailles foi trivial, devemos considerar o contexto politico-cultural; etc etc…um facto inegável, demonstrável, pode ser complementado por uma diversidade de interpretações. Serão todas igualmente válidas? É claro que não. A plausibilidade, a coerência ou a veracidade factual são relações da verdade que co-existem na multiplicidade.

    W James e Peirce não tem a mesma concepção da verdade. Peirce preserva elementos da teoria da correspondência (preserva o conceito de realidade). Para James há muitas realidades (para ele a crença em x é o elemento vital da concepção da verdade)
    Não assuma uma equivalência precipitada entre James e Peirce. Tenha cuidado.

    Quanto à sua teoria: o céu não é azul sempre. Pode ser cinzento ou branco, por exemplo.
    Todavia, a questão da cor do céu persiste: A formulação correcta seria: o céu pode ser azul, branco, cinzento, negro, multicolor (viu: potencialidade na factualidade). O maior erro da filosofia contemporânea é o de pensar a potencialidade apenas como algo ainda inexistente.

    Como é que é possível afirmar que o conceito e prática da verdade não tem qq dimensão metafísica: a interrogação da verdade é prática ubíqua, presente em todos os domínios existenciais. A verdade como fenómeno existencial é metafísica: está por toda a parte. Além disso, quando falamos de eventos sociais, processos naturais, há uma dimensão MATERIAL (desde os neurónios até ao uso de armas e à destruição) SUBTANTIVA que a “sua” concepção de verdade não contempla.

    O problema está na forma como definimos os termos metafísicos. Badiou nem sequer considera a possibilidade de uma essência complexa. Poderá uma essência ser complexa? (ser uma multiplicidade?) Contradição insustentável? Não me parece. O que é necessário para conceptualizar esta tese de forma não-contraditória?

    🙂

  28. Z diz:

    Posso sugerir um pequeno exercício, Vidal?

    Va até aà universidade onde lecciona.

    Escolha um blackboard gigantesco (physics classroom, é um bom lugar)

    Faça uma compilação de TODAS as concepções de verdade que conhece.
    Um quadrado para cada uma. Os atributos desta ou daquela concepção discriminados)
    Depois, tente pensar em fenomenos ou eventos que poderiam ser considerados verdadeiros em TODOS os regimes epistemológicos (ou aspectos dos) de verdade. Pode começar pela Aletheia de Heidegger, por ex.

    Um facto é, simultaneamente, uma manifestação da Aletheia (desvelamento em Português, certo?) e uma proposição validada (ou não) por factos (correspondência estrita).

  29. Z diz:

    “What does the century have to say about ITSELF (the multiplicity speaks!!)? In any case, that it is not the century of promise, but that of realisation. It is the century of the act, of the effective, of the absolute present, and not the century of portent, of the to-come. The century experiences itself as the century of victories, after millennia of attempts and failures. The cult of the vain and sublime attempt, bearer of ideological enslavement, is assigned by the actors of the 20th century to the one preceding, to the unhappy Romanticism of the 19th century. The 20th century declares: no more failures, the time of victories has come! This victorious subjectivity outlasts all apparent defeats, because IT IS NOT EMPIRICAL, but constitutive (o tal acto universalizante do sujeito). Victory is the transcendental theme that commands failure itself. ‘Revolution’ is one of the names of this theme. The October Revolution of 1917, and then the Chinese and Cuban revolutions, as well as the victories of the Algerians and the Vietnamese in their wars of national liberation, all of this counts as EMPIRICAL PROOF of the theme, and amounts to the defeat of defeats, redressing the massacres of June ’48 or of the Paris Commune.”

    Alain Badiou, aqui: http://www.lacan.com/divide.htm

    Já percebeu porque é que ele, Badiou, é muito criativo mas pouco perspicaz!!?

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