As mulheres portuguesas, essas porcalhonas

O i presenteia-nos hoje com um peculiar alerta. A capa: grande imagem de fetos em várias fases de desenvolvimento, “53 abortos legais todos os dias em Portugal!”! Lá dentro, a jornalista Sílvia Caneco grita Aqui d’el Rei: número de abortos não pára de aumentar! Entre Janeiro e Agosto de 2010, diz um subtítulo memorável, números da IVG “já se aproximam dos totais dos últimos dois anos”! Como: tanto em 2010 como em 2008 e 2009 juntos?! Não, diz-se em letra pequena mais adiante: a manter-se a média actual, 2010 ficará ligeiramente acima de 2009. Aaah… (prolongado)

Números do próprio artigo, cuja fonte não é citada nos gráficos: 2º semestre de 2007, 6257 IVGs; 2008: 18607; 2009: 19572; Janeiro a Agosto de 2010: 13033. Com estes números, temos para 2010: 13033/8 meses = 1629,1 IVGs em média por mês; logo 1629,1*12 = 19 549 IVGs estimáveis para 2010.

Ou seja, em 2010 teríamos menos 0,1% de IVGs que em 2009. Se olharmos só para as que são feitas a pedido da mulher, a maioria, teríamos mais 1% que em 2009. Ligeira subida, sem dúvida. Eu diria mesmo mais: liliputiana.

Qual é a catástrofe então, se até estamos (ligeiramente!) abaixo das estimativas iniciais de 20 mil IVGs por ano? É que os especialistas dizem que na Europa os números estabilizam ao fim de 2 ou 3 anos e depois descem. Os especialistas, como toda a gente sabe, é o doutor Luís Graça, director do serviço de obstetrícia do Hospital de Santa Maria, para quem vamos para o 4º ano e ainda não começámos a descer! Que preocupante tendência estrutural de longo prazo. Também há especialistas não preocupados com a regra dos 2-3-4 anos – aparentemente todos os outros. Pergunta-se-lhes: a crise explicará o aumento de abortos? Por esta altura do espectáculo, com aumentos destes, os bons dos médicos preferem desconversar. Mais vale passar a palavra ao Ribeiro e Castro, que tem da estatística uma concepção estética semelhante à da jornalista.

Mas há outras coisas de maior importância: Luís Graça está desiludido com as mulheres portuguesas. Foi ingénuo, pensava que estimariam uma lei que as protegesse, não que desatariam a fazer 2 e 3 abortos seguidos. 354 mulheres fizeram dessas coisas em 2008 e 2009. 354! 0,9% num universo de 38 179 IVGs (as contas são mais complicadas que isto, mas não há números mais detalhados). Ingratas.

A desilusão, eis uma importante situação que clama por remédio, mormente em tempos de crise. Senhor Doutor: relaxe. Inspire, expire… Se 354 ou 0,9% das mulheres portuguesas são umas grandes putas (que percentagem seria se juntássemos todas as que andam para aí na rambóia mas não abortam? Bolas, não tenho tempo para procurar), olhe antes para as 99% que pelos vistos descuidaram-se, assustaram-se, e portaram-se bem daí em diante. Siga este conselho, verá que o seu ânimo e quotidiano sorrirão um pouco mais. (Disclaimer: não me chateiem com o léxico machão, é ecumenismo de falar a linguagem do Outro com maiúscula).

Conclusões? Sobre a dinâmica do aborto em Portugal, é difícil. Já sobre a imparcialidade da plumitiva e seus editores(as), nem tanto.

Fonte: http://www.ionline.pt/conteudo/94963-ha-53-abortos-legais-todos-os-dias-em-portugal

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

7 respostas a As mulheres portuguesas, essas porcalhonas

  1. Renato Teixeira diz:

    Isto hoje é o dia dos grandes regressos! Magnifico! A tua, a da Diana e a do Vidal.

  2. Sugestão aos ‘homens portugueses’ em relação ao assunto supra:
    Porque não começam a ter filhos, para terem uma opinião que valha a pena sequer considerar ? Não conseguem ??
    Então, “alternativa Juan Carlos”: Porque no te callas ??!
    🙁

  3. helder diz:

    O que gostava de ver era um estudo sobre os motivos destes abortos e de quantos estarão relacionados com o desemprego os baixos salários e sobretudo a precariedade.

    • Renato Teixeira diz:

      Isso sim é tocar na ferida. Espero estar errado mas continuo convencido que o número que escandaliza o i são na verdade superiores. Do que me chega, as ricas continuam a ir a Londres ou a Espanha, e as pobres continuam presas ao vão de escada.

      • José Borges Reis diz:

        Refira-se que o artigo até tenta ir por aí, mas com premissas tão básicas para fenómenos tão complexos as respostas só podiam desconversar que não e tal, não temos elementos para concluir isso. Em três citações aliás só uma refere directamente a crise, é como se quisessem enfiar as respostas à força na pergunta.

    • Marota diz:

      Sr. Helder,
      Para esses casos temos a Casa Pia. Para quê então abortar?
      Um estado social como Portugal, está preparadíssimo para
      fazer frente a situações destas tão precárias?

  4. joão viegas diz:

    Eheheh,

    Bom, diga-se em abono da verdade que, se as raparigas se dedicassem à nobre tarefa de procurar compreender o que significa “aproximar-se dos totais dos ultimos dois anos”, provavelmente nem tempo teriam para aquelas nojeiras que costumam estar ligadas às causas biologicas do aborto.

    Mas como elas andam entretidas a abortar duzias de vezes ao ano, não têm cabeça para isso. Não merecem o pais e os doutores Luis Graça que têm, é o que é.

Os comentários estão fechados.