Grande texto do mano sobre a crise

Não se trata de uma nova lição. Talvez seja uma lição antiga que ainda não foi aprendida pelos Governos. E está por saber se haverá força política para obstar ao poder do dinheiro.

Em traços grossos, a lição retira-se do desmantelamento da regulamentação dos mercados financeiros. Sem baias, a propensão do sector financeiro foi para, em enxame, apostar em produtos financeiros sem cobertura de activos. A miragem de lucros exponenciais funcionou até que se quebrou um dos elos – os empréstimos subprime. A “bolha” rebentou, as instituições financeiras ficaram com os balanços a descoberto e alguns Estados foram chamados a financiar os “buracos” para evitar o contágio à economia real. Mas o aperto geral do crédito repercutiu-se em recessão. Os Estados endividaram-se nos mercados financeiros de dívida pública, alguns foram forçados a programas de austeridade e acabaram na mão das agências de rating, financiadas pelo próprio sector financeiro. Pelo caminho, os pobres foram ficando mais pobres e os ricos mais ricos.

Algo assim aconteceu no início do século XX. Aconteceu no início do século XXI. E nada está a mudar.

Leia-se o Prémio Nobel da Economia Paul Krugman – em particular o seu livro A Consciência de um Liberal. A seguir à Grande Depressão, as políticas do New Deal teceram a regulamentação que limitou um sector egoísta e despreocupado. Preveniu-se a corrida aos balcões dos bancos que pulverizara poupanças privadas e sugado milhões para a pobreza. As bases da Segurança Social nasceram aí. Os salários cresceram e a sociedade tornou-se mais equilibrada e feliz. Os partidos Democrata e Republicano aproximaram-se, porque os segundos já não queriam destruir o New Deal.

A crise actual nasceu quase de uma “vingança” política, com a motivação do dinheiro. Os republicanos – imbuídos da ideia de auto-regulação do mercado asfixiada pelo peso regulador do Estado – desmantelaram, no último quarto do século XX, o edifício legal do New Deal e fragilizaram o papel do Estado. O sistema financeiro dependeu cada vez mais de paraísos fiscais, balcões-“biombos”, contabilidades dúbias, produtos financeiros sem cobertura de activos reais, multiplicados sem fim em sistema de apostas. O entrosamento dos bancos e seguradoras com o poder político, autoridades monetárias e economistas optimistas, todos embriagados com os milhões que ilusoriamente insuflavam a riqueza dos países, viabilizaram a nova desordem social.

E tudo se agravou quando a música parou em 2007. Os empréstimos sub-prime detonaram a crise. Apanhadas em contra-pé, as instituições exigiram socorro pelos Estados. Aprovaram-se pacotes de ajuda. Mais tarde, ouvido pelo Congresso, Alan Greenspan, que esteve à frente do board da Reserva Federal (banco central) de 1987 a 2006, que sempre defendeu a desregulamentação convencido da capacidade dos accionistas de proteger os interesses de longo prazo das firmas, que poderia ter impedido esse tipo de produtos e empréstimos e que nada assinalou, foi exemplar ao afirmar: “Ainda não percebi bem por que é que isto aconteceu. (…) Descobri uma falha no meu modelo ideológico”.

O fecho da firma Lehman Brothers a 15 de Setembro de 2008 espalhou a crise pelo continente europeu. A Alemanha impôs que a salvação das instituições seria paga por cada Estado, indiciando um desprendimento que viria a fragilizar países do euro.

Os cidadãos europeus assistiam à sucessão de fechos como um imenso tsunami a progredir em câmara lenta, mas descrentes que chegasse à sua praia. Governos – como o português – ajudaram à ilusão de que a maré não atingiria a costa. Mas chegou.

Em Janeiro de 2009, os números do desemprego explodiram. Aprovaram-se apoios aos desempregados, às empresas. Mas mesmo quando a administração fiscal já alertava para a quebra de receitas em larga escala, o Governo negou o evidente até às eleições de Setembro. Um défice superior a 7 por cento do PIB em 2010 chamou a atenção.

Foi nesse período que se abriu a crise grega. O Governo Papandreoudenunciou o anterior: as contas orçamentais tinham sido marteladas e o défice era bem superior. Os mercados pressionaram nos primeiros meses de 2010 e em Maio foi aprovada a ajuda comunitária à Grécia. No dia seguinte, em ambiente de crise, o Governo de Portugal aprovou o seu PEC2.

As agências de rating aproveitaram o efeito de contágio da crise grega, da irlandesa e voltaram-se para Portugal. Exigiram medidas abruptas que serviram de pretexto para baixar o rating do país. Adoptadas no PEC3 e insensíveis à degradação orçamental que ajudaram a criar, argumentaram que as medidas eram recessivas e que Portugal teria então piores condições para cumprir as metas. E baixaram o rating. As taxas de juro da dívida pública galgaram diante de um Governo impotente. O limiar de insustentabilidade da dívida aproximou-se velozmente e arrastou para a discussão pública o regresso do FMI e, a prazo, a “purificação” do euro.

O preço será caro, sobretudo para os mais pobres. Mas desde 2008 – seja por falta de coragem, seja para não agravar a crise da banca – ficou por concretizar uma regulação séria do sector financeiro.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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5 respostas a Grande texto do mano sobre a crise

  1. Francisco diz:

    O Mano é um economista sensacional. Nem no Readers Digest consigo ler análises como esta. Como economista, sei do que falo. Parabéns ao Mano e ao Nuno envio os meus agradecimentos por nos ter apresentado ao pensamento Manoniano.

  2. V. KALIMATANOS diz:

    Verdadeiro manoncial de novidades económicas! Fico à espera das tiorias dum tio sobre sobre como vamos desenrrascar-nos desta sem voltar ao escudo.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Francisco, duvido que saiba do que fala. Pelo menos limita-se a puxar dos galões. E não é certamente o único economista deste post. À conta de grandes crânios como o nosso caro Fernando, todos eles economistas, é que chegamos onde chegamos. Você é mesmo dos bons. Bummm!

  4. Francisco diz:

    Galões? Ser economista é uma distinção?

    Kalimatanos,

    O Tio saiu. Está neste preciso momento a lanchar com a Tia.
    Voltar ao escudo? Não se precipite. Os Alemães vão tratar de assegurar a sobrevivência do Euro, apesar de muitos desejarem o regresso do DM. Se voltássemos ao escudo, a nossa economia, intrinsecamente débil e cada vez mais sujeita à boçalidade de governantes, capitães de indústria e sindicalistas, seria presa fácil dos especuladores. As nossas exportações beneficiariam, sem dúvida, mas a nossa economia seria sujeita às mais implacáveis oscilações especulativas. Quanto ao texto do Mano, recomendo-o. Já não se pode ser irónico, apre.

  5. Como dix o teu irmão, caro Nuno, depois de tudo o que aconteceu o mais imperdoável é que …”ficou por concretizar uma regulação séria do sector financeiro.”.
    Eu acrescentaria que ficou igualmente por castigar/ignorar/desmantelar as famosas Moody’s e Fitch’s e quejandos que a troco de dinheiro atribuíam automáticamente ratings triple A a toda a merda que lhes aparecesse na frente, e aos tipos que embrulhavam esses produtos financeiros em ‘ramalhetes’ que depois chamavam COD’s e assim, e repassavam a coisa afiançada a toda a espécie de ingénuos gananciosos, embolsando a respectiva comissão.
    E agora somos supostos acreditar que se tornaram sérios ? e ‘credíveis’ ??
    Pequeno ‘pobrema‘: têm que ser todos (ou pelo menos os maiorzinhos…) a fazer a mesma coisa ao mesmo tempo, senão quem o fizer sózinho fica de mexilhão nesta história toda.
    E como a visão global destes políticos (?) UE é a de um burro com antolhos, só sabem ler sondagens e ‘press-releases’ (não têm tempo para mais, dizem…) andam todos a tratar da própria vidinha e alguns na volta a servirem-se antes que o diabo as teça.
    A ‘tugalhada’ em geral segue-os nisto: este ano gasta-se desesperadamente.
    P’ró ano vai ser horrível ? Ah, logo se vê, alguma coisa há-de acontecer.
    Sai uma dose de sebastianismo com molho mítico para todos, faxavôr !.

    P.S.
    Acabei finalmente por ver isto abaixo… esclarecedor.

    Charles Ferguson – Inside Job (2010)

    Anyone seen this docum floating around ?
    ‘Inside Job’ is the first film to provide a comprehensive analysis of the global financial crisis of 2008, which at a cost over $20 trillion, caused millions of people to lose their jobs and homes in the worst recession since the Great Depression, and nearly resulted in a global financial collapse.
    Through exhaustive research and extensive interviews with key financial insiders, politicians, journalists, and academics, the film traces the rise of a rogue industry which has corrupted politics, regulation, and academia.
    It was made on location in the United States, Iceland, England, France, Singapore, and China.

    Peeps here say it’s very very good.
    Haven’t found it in my ‘usual places’.

    ———————————————–

    Me too… I’m particularly interested in what the docu has to say about the actual criminals who foisted derivatives onto the worldwide investment groups.

    I want to know their names, so I can avoid investing any money, anywhere that these people work…
    __________________
    When you were born, you cried while the world rejoiced. Live your life in such a way that when you die the world cries, while you rejoice.

    Cherokee Proverb

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