Pobre Siza…

Afinal, ao contrário das minhas espectativas, não foi Julian Assange que ganhou o cinto de castidade* do Prémio Trienal-Millennium BCP.
Foi com enorme surpresa que vi anunciado o nome de Siza Vieira pois até pensava que já o tivesse ganho.

Em Portugal, sobretudo no meio da arquitectura, existe este hábito fantástico de premiar alguém que possa prestigiar o prémio, e não o inverso.

(fotografia João Morgado)

Siza, depois de ter passado muitos anos a ser excluído e desqualificado por muitos dos que hoje querem tirar fotografias a seu lado já terá ganho todos os prémios, designadamente, o mais importante na área da arquitectura: o Pritzker. Em 1992, ano em que recebeu o Pritzker era preciso ter coragem para atribuir ao arquitecto comunista qualquer galardão.  Foi preciso ser uma figura incontornável do panorama arquitectónico internacional para começar a receber todos os abraços, todos os prémios e todos os títulos nacionais.

A sua humildade impede-o de recusar os prémios pós-Pritzker como fez, sabiamente, Saramago após o Nobel. Assim, vai tendo de fazer uso da sua fina ironia comentando:

“É um prémio muito especial, mas fica sempre a dúvida se a idade não teve influência na atribuição”

* direitos de autor à anarca.

PRÉMIO TRIENAL-MILLENNIUM BCP

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17 respostas a Pobre Siza…

  1. João Vasco diz:

    Concordo plenamente consigo. Um premiado para prestigiar o prémio. Costume dos prémios pequeninos que se querem tornar grandes … geopolítica …

  2. Marota diz:

    Portugal é uma país de sábios e génios. Paula Escarameia, por exemplo, foi a primeira mulher a ser eleita, no âmbito das Nações Unidas para a Comissão de Direito Internacional. Teve um percurso académico notável, no entanto não suficiente para que a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa lhe reconhecesse o doutoramento feito numa Universidadezeca sem importância nenhuma de nome Harvard. Penso que não foi por ser comunista que Siza foi tão tarde galardoado com este prémio. O profissionalismo e competência não têm qualquer valor num país de doutorecos de letra minúscula. Para que se seja reconhecido no Portogalório saloio, basta ter-se muito parlapié, petulância, e pouca vergonha – estes apretrechos levam-nos longe.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Marota, julgo que não me fiz entender.
      O Siza, em Portugal, teve uma vida profissional tramada por várias razões, entre as quais, pelas posições políticas que nunca se inibiu de tomar. E felizmente nunca precisou de se declarar “inscrito no regime político” ou de fazer fila para integrar as Comissões de Honra dos candidatos vencedores. Por isso teve de construir a sua vida profissional a partir do estrangeiro, como tantos o fizeram e fazem – o José Gil explica bem esta situação do reconhecimento.
      O que é irónico e patético é ver esse regime, com ares de erudição, a querer ser fotografado ao lado dele como a fotografia do João Morgado bem o demonstra.

  3. Von diz:

    off-topic:

    Um professor de uma escola secundária de Cadiz, Espanha, foi denunciado à polícia pela família de um aluno muçulmano por falar em presunto na sala, notícia hoje o diário espanhol ABC.

    O professor do Instituto Menénez Tolosa, em La Línea de la Concepción, Cádiz, estava a dar uma aula de geografia quando, ao fazer referência aos diferentes climas de Espanha, disse que o frio próprio de Trévelez, em Granada, favorecia a cura dos presuntos.

    Foi nessa altura que o aluno considerou que o exemplo era uma ofensa à sua crença. A família apresentou queixa na polícia, que se deslocou à escola para interrogar o professor, segundo relata o jornal Diário de Cadiz. O docente, por seu lado, assegurou ao jornal que nunca fez a “apologia do presunto ou do porco nas suas aulas”.

    O professor, que conta várias décadas de experiência e continua a dar aulas, foi acusado do crime de “maus-tratos de obra com motivações xenófobas”. O artigo 525 do código penal espanhol contempla penas de multa para quem ofenda “os sentimentos de membros de uma confissão religiosa”.

    • koshba diz:

      Hmmm,presunto,jambon,é tão bom,oh Maomé,oh Javé.Religião, é mesmo o ópio do povão!Os palhaços q redigiram essa lei é que são uns atrasados mentais.Puta que os pariu-religião é na igreja,mesquita,sinagoga,chamuçarias,etc.
      Eu,como ateu também me sinto ofendido por uma data de merdices .Sou por um candidato q construa um joelhódromo de Lisboa a Fátima,por causa dos catarros!

  4. antónimo diz:

    já que se fala de autoria intelectual, cá está um movimento que urge contrariar http://www.publico.pt/Tecnologia/associacao-avanca-com-queixacrime-contra-mil-portugueses-por-pirataria-de-filmes-na-web_1471805

    aposto que essa Associação do Comércio Audiovisual de Obras Culturais e de Entretenimento se está lixando para os autores, quer é ver as maçarocas que não lhe tocam no filet mignon da distribuição

  5. miguel serras pereira diz:

    Caro Tiago Mota Saraiva,
    talvez haja, apesar de tudo, razões intrínsecas à “estética” de Siza que ajudem também a explicar que a sua figura seja tão querida às autoridades.
    Este texto de 2000 – mais actual hoje ainda – do Jorge Silva Melo parece-me sugerir que assim é (Carta de Princípios, “Deus, pátria e família” já fizeram filhos). O ponto de vista do Jorge merece, pelo menos, ser tido em conta:

    “Conta-se a seguinte história do arquitecto Siza Vieira (e mesmo que seja falsa eu acredito e divulgá-la-ei porque não posso com o homem). Em Serralves, esse templo impoluto onde só me apetece colar chicletes às paredes de tão brancas que elas são (para encontrar o caminho de regresso como no Hansel und Gretel) , a escada do auditório é muito mal desenhada e várias pessoas já caíram por não verem o limite dos degraus. Quando eu próprio tropecei, contaram-me que tinham ido relatar isso ao arquitecto. E que o santo homem respondeu: ” Na rua as pessoas também caem”.
    Aquela escada não é, assim, para melhorar a realidade, não é para contrariar a gravidade, não é para dominar a natureza, não é para ser usada pelas pessoas, não é para irmos de um ponto alto para um ponto mais baixo do edifício (ou vice-versa) como a escada que o Cassiano Branco desenhou no prédio onde habito.
    É para ser admirada com a indiscutibilidade da natureza.
    É para ser um objecto natural.
    A arquitectura é assim tão natural como o Deus de Salazar: não se discute. Nem se usa. Adora-se, admira-se, venera-se, a ela se apela em dias de trovoada embora a Estação do Oriente do Calatrava não seja muito interessante em dias de nortada com chuva…
    O artista – sobretudo se é arquitecto – é tão indiscutível como o santo de outros tempos. Mas esse tinha a vantagem (em alguns casos) de ter feito alguma coisa pelas outras pessoas. São Martinho que deu a capa ao nu, por exemplo. Ou São Sebastião que posou como modelo, coitado, a mil e seiscentos pintores e com aquelas setas todas enfiadas no corpo.
    Não é por ser arrogante que a resposta de Siza me escandaliza. Com a arrogância dos artistas posso eu bem e até aprecio e à minha medida pratico.
    Uma resposta como esta atribuída a Siza Vieira é a resposta do poder arbitrário. Sempre baseada na “natureza” ou na certeza das leis naturais. É o ” é assim” e o “para sempre assim” do antes de Galileu. A resposta de quem manda que só se pode “autorizar” com o definitivo argumento da natureza natural.
    Não é a resposta da arte. Que é uma resposta que pode ser tão arrogante como esta. Duchamp poderia ter respondido se tivesse tido a inépcia de fazer aquela escada “Mas é assim que eu quero que o meu nu desça”. Hitchcock responderia que “uma escada sem suspense não é escada”, para Raoul Walsh ou Homero é óbvio que “uma escada exige a superação do humano e só o esforço é humano”. Buñuel diria que assim as senhoras perdem os sapatos e ele, como se sabe, excitava-se mais com os sapatos do que com as senhoras.
    Tudo respostas “discutíveis”. Arrogantes, divertidas, espertalhonas (o que de facto acontece é que a escada está mal feita) mas os artistas são por regra maus pagadores também nas respostas, e sobretudo não se pode pedir respostas modestas a essa gente que da arrogância sempre fez uma posição”.

    Que me diz, o Tiago, a isto? Não será Siza Vieira – ou não se terá tornado – um arquitecto emblemático do “bloco central” cuja arte degenerou em “ornamento”, “adorno”, ou “chinesice” e “ostentação” social-cavaquista?
    Seu fiel leitor, muitas vezes discordante, outras tantas solidário, mas sempre atento

    msp

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Caro msp, não aprecio a estória. Do que conheço da personagem (Siza), a arrogância não é a sua principal virtude, mas até pode ter sido mais ou menos assim.
      Sobre a questão que coloca não me parece nada que Siza se tenha transformado no arquitecto do bloco central até porque, para tal acontecer, teria de projectar para Portugal, o que não sucede. Repare que Siza não teve nenhum presente da Parque Escolar ou das entidades públicas que mimam as arquitecturas do bloco central – a propósito, um dia destes escreverei sobre a ARS Norte.

    • LAM diz:

      MSP, digamos que o mesmo se poderia aplicar ao autor dessa crítica. Considerará Silva Melo que, também o teatro, é para ser visto pelas pessoas e não um mero exercício das vontades do autor? Acontece que, por azar, foi logo aí que Jorge Silva Melo foi bater, ele…

  6. miguel serras pereira diz:

    Caro Tiago,
    é difícil não considerar o CCB uma obra de regime.
    E, não pondo minimamente em causa a sua (dele) honestidade pessoal, é também difícil considerá-lo perseguido ou sequer marginalizado pelas autoridades. Talvez seja comparativamente menos prebendado do que outros e é, sem dúvida, mais sério.
    Mas, claro, apesar desta divergência, fico à espera com impaciência da nova série de posts que o Tiago aqui promete. As coisas que até agora foram por si publicadas sobre o assunto são, do meu ponto de vista, exemplares, e é pena que não as edite num suporte mais clássico e mais sólido (estou a falar de um livro), talvez ligeiramente refundidas e talvez enquadrando-as através da explicitação de alguns aspectos da perspectiva que é a sua. Não quer deitar mãos a essa obra?

    Seu fiel leitor

    msp

  7. Francisco diz:

    Curiosa inversão dialéctica da Lusa-Saloiice: o gajo é bom porque alguém lá fora diz que ele é bom.

  8. eheheheh

    Olha, agora! a Arquitectura do Siza é vermelha-má … estes gajos fumam-se bem enquanto teclam …
    O Jorge Silva Melo é 1 gajo LX-aceitável … mas não é propriamente um MagníficO ( a propósito da sua referência … ) … enfim …

    ehehe Portugal tb está mal Feito! A gente anda sempre a tropeçar …

  9. miguel serras pereira diz:

    Sim, caro Tiago – obrigado pela correcção; foi um lapso evidente: queria referir-me a Serralves (Museu de Arte Contemporânea)…

    msp

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