Nuno Teles, o problema não é a proposta ser “um pouco técnica”, o problema é que ela não desafia a sorte.

Visitar o Ladrões de Bicicletas, por estes dias, é enternecedor. Não há, entre os vários acordes do pensamento na esquerda democrática, uma ideia que rompa com o actual estado de coisas. Este paradoxo, entre não querer isto mas não saber o que querer, deixa o reformismo entre a espada e a parede. Ao não ir além das propostas dos programas inseridos no quadrante social-democrata, ao recusar resgatar as soluções de fundo como a nacionalização dos sectores estratégicos e o não pagamento da dívida externa, continuaremos a assistir ao triste espectáculo pela moralização da exploração capitalista. Afinal a treta do capitalismo humanitário não é só do Fundo Monetário.

A propósito do aniversário do Jornal de Negócios e da recolha de 13 ideias para “desafiar a sorte em 2011”, Nuno Teles avança com a proposta de fazer “uma auditoria à dívida pública soberana”. A falta de clareza das suas explicações são clarificadoras quer das suas boas intenções quer da dimensão utópica desta variante de socialismo de mercado. Enfim, para lá do problema político, também não se percebe o dilema moral. Fica-se com a ideia, porventura errada, que é melhor o corno que sabe a morada da amante do que aquele que apenas se preocupa com o que se passa em sua casa. Sem querer com isto defender a via da ignorância para a felicidade, não creio que adiante saber o que quer que seja sem ser capaz de elaborar um programa para acabar de vez com o que nos deixa tristes.

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7 respostas a Nuno Teles, o problema não é a proposta ser “um pouco técnica”, o problema é que ela não desafia a sorte.

  1. Anónónimo diz:

    O repto para um programa mínimo foi lançado no vias de facto há algum tempo.
    http://viasfacto.blogspot.com/2010/11/o-programa-da-alianca-de-esquerda-unida.html

    Não entendo porque é que a esquerda unida irlandesa optou por ser abertamente anti-capitalista. A meu ver, os ladrões de bicicletas até se revêem no programa.

    Penso que a elaboração de um equivalente a este programa em Portugal que reunisse não só BE e PCP, mas ousasse trazer gente mais moderada para o debate poderia moralizar as tropas. Hoje, o cidadão normal que até se diz de esquerda porque vota PS encontra-se numa zona ideológica cinzenta e está a rezar para que o FMI venha depressa porque é preciso meter as contas em ordem, pelo menos assim lho dizem os meios de comunicação todos. Ora é precisamente essas águas que é preciso agitar.

    Se há oportunidade para reconfigurar a esquerda, ainda que temporariamente, é uma acção conjunta tendo em vista impedir a sangria que se aproxima. O custo é ter de deixar de lado desavenças históricas. Porra, o muro caiu há 20 anos.

    • Renato Teixeira diz:

      Muito bem. Seria um caminho bem mais interessante do que clamar por moral e eleger Manuel Alegre.
      http://www.revistarubra.org/?p=1636

      • Anónónimo diz:

        Seria? Então por que não começar a disseminar essa ideia pela internet? Por que não começar por se debater o que está bem, o que está mal e o que falta naquele programa?

        • Renato Teixeira diz:

          Acho que vários já o têm feito. A realidade ainda terá que dar mais lições para que outros se juntem e sejam capazes de gerar os debates que interessam. Este, em curso, que propõe esquerda nenhuma em alternativa a nenhuma esquerda, só interessa à direita de sempre e aos democratas do costume.

          • AA diz:

            !? Que vários o têm feito? Que lições mais deverá trazer a realidade? (A catástrofe irlandesa não chega?) Qual é “este” em curso?

  2. maradona diz:

    gostei muito plano (também gosto muito de ler, mas isso é outra questão), nunca foi tentado em lado nenhum, e os os países onde nunca foi mais ou menos tentado são hoje dos mais ricos do mundo; só tenho uma dúvida, que é mais da minha área: o que é uma “terra não produtiva”? não poderão existir terras não produtivas porque – sei lá, isto sou eu a sonhar alto – não são mesmo produtivas? ou todas as terras são(-nos) “produtivas” por natureza, tipo aquela narrativa monoteísta de que o mundo foi criado para beneficio do homem? por exemplo, o montado, que tão bem fica ao alentejo? quem criou o montado e, já agora, a rolha? o mundo nunca é aborrecido, às vezes até tenho vontade de chorar. vai tudo correr bem.

    • Renato Teixeira diz:

      Vê. Um dia destes ainda descobre o perigoso esquerdista que se encontra latente dentro de si. Continue a ler, já que gosta, pode ser que acelere o passo. Quanto à pergunta na especialidade, já que aprova o programa no seu todo, não se preocupe. Para compensar a sua aurora socialista fica desde já metida a cunha para que a revolução guarde uma reserva de caça só para si. Mas compreenda, para tamanha concessão teremos que tornar o resto produtivo.

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