Não posso esquecer-me de dizer isto

Nos vastos planos de reorganização social que tenho em preparação, darei prioridade ao encerramento dessas autênticas escolas de vício que são as lojas dos museus: o público (e o público dos museus é, a mais das vezes, suspeito) não se contenta em contemplar as obras dos mestres: compra reproduções, absolutamente inúteis e redundantes, porque não se contenta em contemplá-las e as quer levar para casa, tornando-as para sempre suas: não significará isso que as quer roubar? O mesmo instinto, a mesma pulsão criminosa, está presente nos falsos amigos da natureza que colhem flores ou apanham borboletas: são todos ladrões a merecer castigo (e exceptuo apenas os apanhadores de trufas, porque esses comem tudo aquilo que colhem: são performers). Coisas tão boas da vida, e as pessoas não lhes chega vivê-las: querem guardá-las, repeti-las, gastá-las. Não lhes chega viver: querem contar tudo, com a redundância das palavras.

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SEXTA | António Figueira
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