Não posso esquecer-me de dizer isto

Nos vastos planos de reorganização social que tenho em preparação, darei prioridade ao encerramento dessas autênticas escolas de vício que são as lojas dos museus: o público (e o público dos museus é, a mais das vezes, suspeito) não se contenta em contemplar as obras dos mestres: compra reproduções, absolutamente inúteis e redundantes, porque não se contenta em contemplá-las e as quer levar para casa, tornando-as para sempre suas: não significará isso que as quer roubar? O mesmo instinto, a mesma pulsão criminosa, está presente nos falsos amigos da natureza que colhem flores ou apanham borboletas: são todos ladrões a merecer castigo (e exceptuo apenas os apanhadores de trufas, porque esses comem tudo aquilo que colhem: são performers). Coisas tão boas da vida, e as pessoas não lhes chega vivê-las: querem guardá-las, repeti-las, gastá-las. Não lhes chega viver: querem contar tudo, com a redundância das palavras.

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SEXTA | António Figueira
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7 respostas a Não posso esquecer-me de dizer isto

  1. ovotas diz:

    Ainda há lojas? E museus? Tudo pífio.

  2. susana diz:

    danto explica bem isso: faz parte do programa da massificação da arte. numa sociedade de consumo a integração dessa vertente foi exactamente o que levou as massas ao museu.

    a reprodução não é assim tão nefasta, pela evocação da obra real que ela comporta. quando vejo uma reprodução de rothko lembro-me da primeira hora, com dezoito anos, em que me colei a uma pintura para ficar dentro dela. (mas se tivesse visto a reprodução sem conhecer o original seria uma chachada.) claro que deveria era ser oferecida, só que o pessoal gosta de comprar. é ver como as reproduções distribuídas gratuitamente nas exposições se encontram de novo no caixote de lixo do passeio mais próximo.

    • António Figueira diz:

      Danto, Arthur?
      E num comentário às 05:19am?
      A realidade ultrapassa-me, o 5dias é demais para mim
      (e a culpa é do Carlos mais dos Caravaggios dele).

  3. Von diz:

    E por falar em ladrões:

    “Dilma ganha aumento de 134 por cento
    Mesmo antes de tomar posse, a presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, ganhou um grande presente do Congresso Nacional, um aumento de 134% no ordenado que vai receber.Pela decisão tomada na madrugada de quinta-feira, com uma tramitação tão veloz que deixou tontos até os mais atentos, os parlamentares brasileiros igualaram os ordenados de deputados, senadores, ministros, presidente e vice. A partir de Fevereiro, todos ganharão 11.800 euros, o mesmo que um juiz do Supremo Tribunal Federal, cujo salário é considerado o máximo que um funcionário público brasileiro pode receber.”

  4. joão viegas diz:

    Certo, e a mania de se precipitar para ver em postal o quadro exposto na galeria, como se algumé pudesse VER o que quer que seja numa reprodução, leva a perguntar se ainda tem algum sentido haver museu. Isto para não falar do turista que insiste em ver tudo atravês da lente da sua objectiva.

    Não merecem ter olhos, é o que é.

    Mas MUITO MAIS preocupante do que isto, e digno de varios postes, é o desaparecimento programado das livrarias à saida dos museus. Tratava-se, muitas vezes, de verdadeiras livrarias de referência. Lembrem-se do espectacular fundo século XIX du Musée de Orsay, ou da riqueza da livraria do Louvre ainda ha uns anos.

    Ora bem, todas, e também em Portugal, se estão a transformar em loja de venda de merdas (ha um nome técnico de que me não recordo para esse tipo de bibelôs suvenires, mas prefiro usar o nome substancial), com o imparavel argumento comercial de que é mais rentavel vender um brinco do que um livro. Em certos museus, os livreiros deixaram pura e simplemente de ter a liberdade de escolher os livros que querem pôr à venda, sendo obrigados a expor em montes catalogos feitos a martelo e molhos de postais…

    Eu ja tomei providencias para que a posteridade não saiba que vivi nesta época imbecil…

  5. a anarca diz:

    LOL
    So what?
    Se a loja do museu não é boa 🙂 nem entro no museu !

  6. mdsol diz:

    Bem se vê que este pessoal não conheceu a D. Clotilde que gostava tanto, mas tanto, do “quadro” do menino da lágrima que só na sala, “só na minha sala tenho 5”. [Devia ser um para cada dia, digo eu]

    :)))

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