A defesa do jornalista como bufo do Estado

‘Em boa verdade, a não ser no espaço específico da pornografia, ninguém alguma vez postulara uma tal reivindicação de totalidade – nem mesmo Sade, cujo radicalismo nasce, antes de tudo o mais, de uma prática exaustiva, eminentemente intelectual, da escrita (e sabemos como muitas formas dominantes de jornalismo menosprezam as singularidades da escrita, apresentando-se como “naturais”, quer dizer, tentando rasurar a especificidade de qualquer linguagem). Agora, vivemos num aquário de “transparência” dominado por esse jornalismo da totalidade, tendo a totalidade os contornos e os limites do seu próprio imaginário de anárquico infantilismo televisivo. Tal jornalismo, ao ver no WikiLeaks a promessa de um mundo apaziguado pela sua própria transparência, incorre numa responsabilidade central, com a qual, sintomaticamente, evita lidar. Ou seja: que fazer com o Estado — e a concepção do mundo que nele se exprima e transfigura — a partir do momento em que deixa de haver domínio específico do saber e da informação estatal?’
Esta passagem que a Câncio cita com sofreguidão – ao lado de outras que o mesmo João Lopes produz, argumentando com o estafado argumento do “anti-americanismo” de Bush e aparentados – , na prática quer dizer, retirando as lantejoulas intelectuais que a disfarçam, que os jornalistas devem ser os garantes dos segredos dos estados. As razões que a dona Câncio não querer que se saibam as pequenas/grandes mentiras do governo português são evidentes. Tivessem os telegramas do Wikileks revelações sobre conspirações, violando a lei, do governo do Vaticano e dos EUA contra os casamentos gay, e não haveria criatura mais disposta ao trabalho jornalístico.
Mas, bastante mais grave é o discurso de João Lopes. Esse disfarça a alma do pequeno censor por detrás das citações culturais. Entendamo-nos, não vi nenhum jornalista propor que deixe de haver, para determinadas matérias, segredo de Estado. Não cabe é aos jornalistas defender esse segredo. Pelo contrário, se a revelação desses documentos for de interesse público e provar que os Estados violaram as suas leis, é dever do jornalista noticiar e direito do cidadão conhecer. Ao contrário daquilo que João Lopes defende, o papel do jornalista não é ser agente da polícia política de qualquer Estado, mas fazer notícias de interesse público que escrutinem o comportamento democrático desses mesmos estados. O segredo do Estado não pode ser usado para camuflar comportamentos ilegais e anti-democráticos. A tese de João Lopes é de um profundo cinismo. No fundo, a democracia não seria mais do que uma ilusão. Os Estados necessitariam de aldrabar, matar e torturar e caberia ao jornalista ser o funcionário estatal que colaboraria com o seu silêncio activo para que nada disse se conhecesse. O desconhecimento dessas violações seria a garantia natural para que os cidadãos se imaginassem em democracia, mesmo que essa fosse constantemente torpedeada pelos governos.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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