O béu béu, Nixon e a Wikileaks

“O errado em Nixon, sabemos agora pelo que vai por aí de elogios ao tal Assange, não foi ter espiado um partido legítimo – foi não ter partilhado connosco o que diziam os escutados à sorrelfa. Tivesse sido Nixon o Garganta Funda que falou com os jornalistas do Washington Post – não para denunciar os microfones postos, mas para contar o que os micros escutaram – e hoje ele seria um herói romântico, um defensor da liberdade de imprensa”, Ferreira Fernandes, in DN.

É difícil explicar o que é o jornalismo ao Ferreira Fernandes. A sua veia criativa é inversamente proporcional ao seu trabalho no terreno. Transformado em arauto do império, faz fretes, mesmo que a lógica sofra com isso. Mas pelas alminhas, alguém lhe explica que o exemplo é exactamente o contrário do que ele pretende concluir na croniqueta. Se vivesse no tempo do Watergate, Ferreira Fernandes teria defendido que o Washington Post não tratasse jornalisticamente as informações fornecidas pela garganta funda, devido que esses dados não lhes tinham chegado por meios legais. O velho parlapatão não percebe que o crime não estava no conteúdo das escutas do Partido Democrático, escutado às ordens de Nixon, mas no facto de um presidente ter mandado espiar, violando todas as leis, o seu concorrente directo. Os jornalistas do Washington Post perceberam isso e trabalharam sobre os dados dados pela garganta funda (William Mark Felt, o antigo director-adjunto do FBI que clandestinamente denunciou o ex-Presidente norte-americano Richard Nixon) , como os verdadeiros jornalistas, entre os quais os do Diário de Notícias, trabalham sobre os documentos de interesse jornalístico e público revelados pelo Wikileaks. Simples? Menos para o Ferreira Fernandes.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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9 respostas a O béu béu, Nixon e a Wikileaks

  1. antónimo diz:

    De manhã, na sic, apanhei uma coisa que nunca tinha visto. O hernâni carvalho (por quem tive algum respeito quando ficou em Timor com jorge araújo, josé vegar e luciano alvarez) dizia asneiras atrás de asneiras sobre a wikileaks, e se primeiro falou de ligações à al-jazeera acabou com outro tipo (nem sei quem era) depois concluiu que isto estava ligado aos chineses. Mais um para os jornalistas pelo segredo.

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  3. este raciocínio do FF parece-me tipicamente português. e é por estas e por outras que, assim como assim, prefiro a américa. têm lá os seus tea party mas ao menos enquanto tomam chá não se põem com estes argumentos retorcidos. é mais, cacem o gajo e prendam-no. ao menos percebe-se.

  4. Diogo diz:

    Ferreira Fernandes é uma besta e a lógica que utiliza é obtusa. Nem vale a pena continuar a dissertar sobre a inteligência do Ferreira. É pago para mentir e está tudo dito.

    Posto isto, como teve Assange acesso a tanta informação? Este caso lembra-me os muitos milhares de fotografias que foram tiradas em Abu Ghraib e divulgadas aos quatros ventos. Qui bono?

  5. Infelizmente, Ferreira Fernandes não é uma voz isolada, mas sim a face actual do jornalismo português.
    Um jornalismo que, salvo raras excepções, navega entre a subserviência e os fretes aos poderes de cá. Um jornalismo que opina muito e quase nada investiga (e os poucos que ainda se atrevem a investigar são vistos como párias entre os seus pares).
    Se no mundo vingasse o jornalismo “respeitável luso”, não teríamos tido Watergate. Nem Wikileaks.

  6. @ antónimo eu tenho a Aljazeera na posição 207 da da TiVuscaCablesca, e gosto do canal, além de que o inglês deles é perfeito, não preciso de subtítulos/legendas para entender o que estão a falar.

    @ Nuno e os outros, sempre axei que esse tipo F.F. escrevia muito razoávelmente, mas não conheço, do resto não tinha ideia, surpreendido…
    :-/

    • antónimo diz:

      major, eu por princípio nada tenho contra a al-jazeera. apenas referi o facto de já haver alguns jornalistas empenhados em asociar a wikileaks a tudo que o mainstream amanuense das helenas matos e josés manuéis fernandes consideram nocivo.

      o ferreira fernandes escreve muito bem. infelizmente, perdeu o tino desde o 11 de Setembro. o irmão dele é professor de engenharia electrotécnica no técnico

  7. antónimo dessa não sabia…
    Não ponho os butes no Técnico há umas décadas, semearam para lá umas torres gigantescas e horrendas pelo meio da arquitectura «estilo fascista», creio que do arq. Pardal Monteiro. Mais uma ou outra e akilo desliza tudo até à Fonte Luminosa…
    😉

    Ao lado: cheguei a casa, liguei a TiVú, e deparou-se me o espectáculo no canal que lá estava (axo que era a TiVu binte e 4trús): a mulher do V.P.V. (se é que ainda…) a “moderar” um ‘debate’ entre o Freitex e o Boccheches… em que ele estão de acordo com tudo, e batem na gajózima alemoa, porque ela era da DDR e m#$%&”s assim, e portanto isto e akilo… chama-se morder na mão de quem te alimenta, e o que me vale é que como estou aki sózinho nem sequer tenho que me rir p’ra dentro…

  8. fnv diz:

    Estive escrever uma nota destas. Como é possível num jornal, e nacional, fazer tamanha confusão?

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