Ò gente ousada!

Uns tipos, 2300 controladores aéreos, que por acaso até ganham bastante bem (melhor para eles), abandonam o trabalho depois de o Governo anunciar a privatização da AENA, a gestora aeroportuária espanhola, e depois de um número indeterminado de controladores já terem esgotado o máximo anual de horas que podem trabalhar, situação para que a AENA já fora prevenida desde antes do Verão e para a qual estava completamente a marimbar-se.

O Governo de Zapatero decreta estado de emergência contra a greve «selvagem» (que horror!) e a militarização dos trabalhadores.

O rei, mesmo estando na Argentina, assina os dois reais decretos que transferem para o Ministério da Defesa as competências da AENA no controlo do tráfego aéreo.

Os trabalhadores que não obedeçam incorrem no delito de sedição, que os sujeita a penas de prisão de entre seis meses e um dia e seis anos.

A Guardia Civil entra no Hotel Auditórium, onde estão reunidos os controladores, para identificá-los e impor-lhes o regresso aos seus postos de trabalho.

Coronéis da Força Aérea são postos nas torres de controlo a controlar os controladores.

O ministro José Blanco ameaça os trabalhadores dizendo que, mesmo depois de terem ido trabalhar, «isto não vai sair-lhes de borla»! Ou seja: os controladores de tráfego aéreo são atacados pelo Governo e pelo rei, com métodos de guerra civil, forçados a trabalhar sob regime militar, num clima de extrema tensão, com os inerentes perigos para o tráfego aéreo que dirigem.

E que vemos nós? Um sindicato borrado de medo que abandona os seus filiados. As centrais sindicais CCOO, UGT e USO lavando as mãos como Pilatos, distribuindo recriminações a torto e a direito, tanto pelos trabalhadores como pelo Governo. O responsável pelas Relações Institucionais do PSOE, Gaspar Zarrías, tratando os controladores de «presumíveis delinquentes». Alguma imprensa faz-se eco de comentários fascistóides: «Esto debería ir por lo penal, por la cárcel, porque esto tiene una responsabilidad civil de mucho calibre. No se puede actuar de una forma tan impune.» (Deia, 4-12-2010).

E por aqui pelos blogues surgem uns quantos a condenar quem? Os «chantagistas», aqueles malandros que ganham demasiado e não fazem greves de forma ordeira e previsível, prejudicando o fim-de-semana à malta – deve ser «a nova burguesia da cintura industrial de Barcelona», parafraseando os burguesotes que a seguir ao 25 de Abril se queixavam dos aumentos «excessivos» de salários de alguns «privilegiados» como os operários da Lisnave!

Ò gente ousada, mais que quantas
No Mundo cometeram grandes cousas!

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35 Responses to Ò gente ousada!

  1. Leo says:

    “Uns tipos, 2300 controladores aéreos (…) abandonam o trabalho” e provocam o encerramento do espaço aéreo ibérico, em tempo de paz.

    E o António acha que devem ser condecorados?

    • miguel serras pereira says:

      Cuidado, Leo – senão ainda acaba, à boleia das coincidências estratégicas dos camaradas chineses com Zapatero e outros expoentes (estilo Blair, Sócrates e tutti quanti) da Internacional Socialista, a advogar senão a adesão, pelo menos, a cooperação fraternal dos comunistas portugueses com o dito clube.

      msp

  2. antónimo says:

    Leo, nunca o tinha visto com icterícia

  3. Leo says:

    Curiosamente, no escrito da controladora aérea (que o Renato linkou) ela dá como argumento “otro decretazo, el de hoy, que hace desaparecer vacaciones, bajas, permisos, reducciones de jornada por maternidad etc y así salen horas por un tubo. Y con efecto retroactivo, que ya es para cagarse”.

    Mas, perspicaz. o António Paço traduz isto por “Uns tipos, 2300 controladores aéreos (…), abandonam o trabalho depois de o Governo anunciar a privatização da AENA”.

    Afinal quem é que tem razão, a Cristina ou o António Paço, Antónimo?

  4. fernando andré rosa says:

    esta questão dos controladores fez-me lembrar um ex chefe meu, que quando eu estava a tirar a licenciatura, me disse: “es um mau exemplo para os outros trabalhadores, não gosto da tua prestação, ausentas-te para fazeres os exames. o pessoal efectivo, já tem emprego, não devia estudar. os contratados sim, desde que não faltem ao serviço para o fazer”

  5. Bolota says:

    Eu sou p´ro controladores porque uma razão simples.

    Se num jogo de futebol por exemplo, cujas equipas dispõem de 11 elementos e em pleno jogo passasse uma a ter 10 e a outra 12, apesar de o numero de elementos em campo serem os mesmo, não era a mesma coisa. Dai, o que o governo socialista espanhol fez, foi o que faz qualquer ditador barato impõe a força

    • Leo says:

      Há por aqui alguém anti-controladores, Bolota?

      • Bolota says:

        Leo,

        Uma coisa ficou bem patente, quando há união, a união faz a força.
        Pena é que outros profissionais não os tenham no sitio como os controladores tiveram.

        Foi selvagem o procedimento dos controladores como defendeu o Ingenheiro Socrates, mas não é selvagem fugir ao pagamento do salario minimo assumido em concertação social.

        Mais, se tudo é global porque não é global as questões de trabalho???

        Controladores de todo o Mundo, UNI-VOS

        • Leo says:

          Foi pena que estes controladores não se tivessem unido aos restantes trabalhadores espanhóis na recente greve geral. Disso, o Bolota não fala.

  6. o da boa-fé says:

    [Para que fique guardado nos anais da coisa:]

    Pérolas dessa ave rara revolucionária (!?), chamada Leo, só no post anterior de Renato Teixeira sobre este tema:

    Ou

    Uma série de perguntas imaginadas por mim com respostas da ave rara:

    P – O que pensa que devemos fazer desde já para melhorarmos as nossas condições de vida?
    R – “Há regras e leis a respeitar.”

    P – O que lhe parece do boato de que os controladores espanhóis estariam feitos com o PP?
    R – “A “mando” do sindicato deles, não estavam. Talvez alguns a mando do PP? Sabe-se lá, mas provavelmente…”

    P – Acha que o método dos controladores deve ser considerado ‘de luta’?
    R – “Quem parou os aeroportos foi uma doença súbita que atingiu os controladores. Não foi nem sindicato nem luta.”

    P – Qual é então a forma que o Leo defende de luta?
    R – “Legal. Com pré-aviso.”

    P- Ao fim de tantas décadas, para que lhe parece que servem os sindicatos? Considera os sindicatos uma muleta a que os patrões recorrem para negociar as formas da exploração?
    R – “Os sindicatos servem para apresentar pré-aviso de greve. E para negociar com a entidade patronal.”

    • Leo says:

      Uma greve tem que ser previamente comunicada à entidade laboral e ninguém está disso isentado por muita razão que pense ter. O que é que acontecia se todos os que temos problemas e pensamos que a legalidade não nos ampara saltássemos por cima dela? Seria o caos.

      À frente dos direitos estão as obrigações. Para todos nós. Menos para os controladores, ó auto-proclamado da boa fé? E se sim, porquê?

  7. J. Madeira says:

    Só um pequeno pormenor…esqueceram-se de avisar que iam fazer a greve e começaram
    a meter baixa deixando o local de trabalho!

    • o da boa-fé says:

      O aviso, claro, o aviso…

      Eu aviso
      Tu avisas
      Ele avisa
      Nós avisamos
      Vós avisais
      Eles avisam

      QUE É PRECISO AVISAR SEMPRE QUE SE COÇAR OS COLHÕES OU LUTAR POR UMA VIDA MELHOR!

  8. Abilio Rosa says:

    Afinal, esses contradores prejudicaram, quem?

    O Rei, o Zapatero, o Mourinho?

    Fico sempre admirado quando dizem que este blog é «conotado com o PCP».

    Com o PCP, um partido de classe, só vejo aqui o Leo, o Carlos Vidal e moi-même.

    • antonio olaio says:

      Estes controladores mostraram que os trabalhadores têm muita força.
      Agora não percebo é que raio de comunista é você pra alinhar dessa forma com o governo daquela “democracia” borbónica. Há qualquer coisa que não bate certo.

      • Leo says:

        Estes controladores “esqueceram-se” de alinhar com os restantes trabalhadores espanhóis na muito recente greve geral.

        Sim, de facto há muita coisa aqui que não bate certo. Primeiro não alinharam na greve geral e agora abusaram do direito à livre circulação doutros cidadãos, prejudicando 600.000, ao se terem ausentado do trabalho sem prévia comunicação.

  9. antónimo says:

    Óh, Abílio,

    Vitor Dias depois continua mas, e cito, diz que:

    «Entendamo-nos pois: que, em vários blogues, se manifeste simpatia e solidariedade com a greve (não antecipadamente marcada) dos controladores aéreos espanhóis, que se relatem as suas reais condições de trabalho e se condenem as medidas de excepção (criticadas firmemente pela Izquierda Unida) decretadas pelo governo do PSOE são tudo coisas que me parecem respeitáveis e apreciáveis.»

  10. Abilio Rosa says:

    O Vitor Dias também acha que os controladores de tráfego aéreo são a vanguarda da classe operária?
    Serão agora a nova aristocracia da classe operária, como eram os metalúrgicos, noutros tempos?
    Realmente o mundo está a mudar mais depressa do que eu julgava…
    Então por que é que o Vitor Dias não aconselha o camarada Carvalho da Silva a fazer parar o país desta forma. sem pré-avisos e outras merdices?
    Não seria tudo isso «respeitável» e «aceitável»?

  11. Breve como o Pepino (alusão ‘históriquética’) e por pontos:
    01. Uma mão não “laca” a outra, uma indecência não se combate necessáriamente com indecências de sinal contrário, curto e grosso, entre os ‘air traffic controllers’ e o spanish govt. venha o diabo e escolha, ninguém é obrigado a tomar partido entre uns e outros, só quem não tenha nada entre as orelhas…

    02. Uma mudança radical (e eu por acaso até gosto do conceito de reformas radicais) não é um “chá das cinco”.
    Vai doer a algumas pessoas, se calhar até a mim, as coisas são como são.

    03. Tenho uma severa dúvida que jornalistas, candidatos a ‘isso’, controladores aéreos ou pilotos de aviões façam parte da afamada ou infamosa ‘vanguarda revolucionária’ ou sequer do proletariado (quéqué ‘isso’ hoy, meus ??) e ainda menos dos que vão ‘herdar o mundo’ ( a essa axo muita graça, ‘herdar’ é um conceito quase tão revolucionário quanto________ <<–preencher aki)

    04. Tá aki uma semi-enorme tempestade, portanto bai-bai, tenho que ir ver se a casa não cai…

    ;-)

  12. koshba says:

    O Fascismo aí está em potencial força……não abram as pestanas,não….

    • Abilio Rosa says:

      Não te preocupes que o Social-Fascismo também está aí para as curvas e não vai ser fácil removê-lo….

      • miguel serras pereira says:

        Foi você que disse “social-fascismo”, justiceiro Abílio?
        Caso saiba que está a dizer, não quer explicar, por favor, o que entende por isso e a quem aplica o qualificativo?
        Entre as duas guerras, foram as direcções estalinizadas dos partidos da III Internacional que usaram o termo para definir os social-democratas e socialistas (insistindo, por vezes, que isso se aplicava especialmente às tendências de esquerda que não se reconheciam nem no Comintern nem nas social-democracias oficiais), definidos como “inimigo principal”, com menosprezo dos partidos nazis e fascistas.
        Durante o PREC, e já antes dele, o termo foi usado essencialmente por organizações e partidos ditos “m-l” – PCP (m-l), MRPP, UDP, FEC-m-l, etc. – para atacar o PCP (“socialista em palavras, fascista nos actos”) e para caracterizar o regime da URSS (por contraste com o chinês e o albanês).
        Talvez você não se refira a nenhuma destas duas acepções clássicas do termo. Caso em que deve explicar-se melhor, pois estaremos, a ser assim, perante uma ambição de renovar e aprofundar o sempre genial pensamento do grande José Estaline.

        msp

        • Abilio Rosa says:

          Acho que o camarada Estaline, pai dos Povos, enquadra-se bem na classificação de social-fascista.
          Se há, como dizem um «fascismo» em andamento e em progressão, o camarada Abílio não quer ser surpreendido com essa avalanche e cá estará para combater essas hortas fascistas com foice e martelo na braçadeira, uniforme e não vai ficar chateado que lhe chamem social-fascista.
          Para combater um veneno nada melhor do que um veneno mais forte!
          Os fascistas e oseus colaboracionistas esquerdistas que ponham as barbas de molho…

  13. Mariazinha says:

    Caríssimos

    Vejam também a opinião da Mariazinha sobre a greve dos controladores espanhóis em

    http://fogemariafoge.blogspot.com/2010/12/coragem.html

    Bem hajam meus queridos

  14. Zegna says:

    O governo espanhol é caricato….quando lá os enfermeiros faltam ao trabalho agradecem quando os controladores aereos faltam dizem que é total irresponsabilidade e vão ser castigados………..de espanha nem vem bom vento nem bom casamento ……..vamos lá entender este zapatero…….afinal 500 trabalhadores param a Espanha? Aqui parece que houve greve de 3 milhões dizem os entendidos e o nosso governo diz que Portugal nem sentiu nada. Já sei, os nossos controladores têm é de fazer o mesmo pode ser que o governo sinta alguma coisa.

    • Leo says:

      Os nossos controladores alinharam na greve geral e não se ausentarão do trabalho sem aviso prévio.

      Os controladores espanhóis não alinharam na greve geral e ausentando-se do trabalho sem aviso prévio provocaram o encerramento do espaço aéreo da península ibérica e o tiro saiu-lhes pela culatra.

      • miguel serras pereira says:

        Era bom para todos que o Leo explicasse preto no branco se é sempre e contra todas as greves selvagens ou se discorda apenas do modo de luta e/ou das razões dos controladores espanhóis.
        Se a resposta for que é contra todas as greves sem aviso prévio, é porque a legalidade vigente no momento é para ele sagrada e não há objectivos ou razões que justifiquem a sua transgressão: lá se vai de uma assentada a legitimidade possível da insurreição, das campanhas de desobediência civil, de acções como a presente divulgação de documentos classifcados por Wikileaks.
        Se a resposta for que sem negar a eventual legitimidade democrática de transgressão da legalidade estabelecida, terá de arranjar outros argumentos para condenar a greve dos controladores aéreos e justificar a intervenção dos quartéis contra os grevistas.

        Terá, nomeadamente, de arranjar uma resposta convincente ao que escreve o João Tunes sob um aspecto do caso de que o Leo foge como o diabo da cruz: “parecendo que perderam na refrega, os controladores espanhóis ganharam, e todos nós com eles, ao evidenciarem como perante gente, governo e empresários, que passa a vida em abuso selvagem, roubando salários, direitos e regalias, se põe de repente em pânico e a vestir a farda à pressa quando do outro lado se explora o efeito de surpresa e que dói. Face à desregulação completa das condições sociais de quem trabalha ou trabalhou, à sangria de direitos laborais, e da missa das intenções ainda só conhecemos metade, o “estado de alerta” não só já está declarado como se transformou em rotina social” (http://viasfacto.blogspot.com/2010/12/luta-e-nojos.html)

      • Manuel Monteiro says:

        Este gajo é um papagaio, sempre a repetir a mesma frase…
        MM

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