A refinada Ajuda de Berço

 

É natal, é natal… Saem das tocas inúmeras instituições de solidariedade a pedir dinheiro e dinheiro e dinheiro. Uma delas é a Ajuda de Berço, por muitos tida em muito boa conta…

Fundada em Março de 1998, é logo prendada no mês seguinte com um espaço na Avenida de Ceuta, cedido pela Câmara Municipal de Lisboa. A isto se chama uma sorte do caraças – tanta gente a querer um espaço para fazer vários tipos de coisas…

Um ano depois, o centro de acolhimento é oficialmente inaugurado e as instalações recebem a benção do Cardeal de Lisboa, D. José Policarpo, com a presença do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o Dr. João Soares. Ficam sempre tão bem os poderes todos juntos, em nome das criancinhas… Em Maio de 1999 a Ajuda de Berço é reconhecida como pessoa colectiva de Utilidade Pública. Em Julho, assinam um protocolo de cooperação financeira com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Em 2000 é-lhe atribuído o estatuto de Mecenato.

Em Julho de 2002, a Câmara Municipal de Lisboa cede-lhes mais um espaço, em Monsanto. Também aqui o terreno não podia deixar de ser benzido pela igreja… Na ocasião da benção e lançamento da primeira pedra estão presentes o Patriarcado de Lisboa, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Pedro Santana Lopes, o presidente da Swatch internacional e Maria José Ritta.

Estes dados que aqui ponho vêm da «barra cronológica» que está na página electrónica da Ajuda de Berço, uma cronologia que conta com entradas como:

«18 de Outubro de 2003 – Beatificação da madre Teresa de Calcutá em Roma pelo papa João Paulo II.»

No dia 1 de Janeiro de 2004, o Protocolo de Cooperação Financeira da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é «transferido» para Segurança Social. Gostava de saber mais sobre isto. No dia 1 de Junho a Jazztell oferece-lhes uma linha telefónica para angariação de fundos. A nova casa de Monsanto, oferecida pela Swatch e em terreno cedido pela CML, é oficialmente inaugurada por Santana Lopes e as instalações mais uma vez benzidas, não vá o céu cair-lhes em cima.

Ainda nesse ano é apresentada a mascote «Colinho», que é apadrinhada pela Bárbara Guimarães com o apoio do Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e as Lojas Jacadi.

Saltemos dois anos e passemos pelo «Chá para angariação de fundos no Hotel Mirage em Cascais». Em Novembro de 2006, é apresentada a campanha «Ser solidário» que é a culpada por aquela coisa estranha de irmos ao multibanco e aparecer-nos no écrã o título de um disco e de uma música de José Mário Branco:

Em 17 de Março de 2007, «Os Presidentes dos órgãos sociais da Associação Ajuda de Berço, respectivamente o Prof. Doutor Fernando Maymone, o Dr. António Maria Pinheiro Torres e a Dr.ª Sandra Anastácio, foram agraciados por sua Alteza D. Duarte Pio, com a medalha de mérito da Real Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, pelo serviço prestado na defesa da vida.» Defesa da vida… precisamente um mês depois do referendo do aborto. Participam também nesse ano no «evento anual das Barrigas de Amor, evento de promoção da maternidade em Portugal», e ainda no Congresso Pastoral da Saúde em Fátima, para apresentarem os objectivos da Ajuda de Berço.

Em 2008, a Ajuda de Berço faz dez anos, uma ocasião a comemorar com uma missa na capela do Hotel Penha Longa seguida de um jantar. Mas mais doce e importante momento é a visita à instituição da Rainha da Suécia, Sílvia, que acompanhada por Maria Cavaco Silva conhece as instalações e as crianças da casa de Monsanto. «Esta visita foi sem dúvida uma honra para a nossa Associação e também um momento muito emotivo», lê-se na cronologia.

Escusado será referir os incontáveis protocolos e parcerias que a Ajuda de Berço realizou ao longo destes 12 anos com as mais diversas empresas do capital. Em 27 de Novembro de 2008 é a vez da campanha com a Kazzo. Como não percebemos bem em que é que isto consiste, a cronologia explica: «A TMN associou-se à Generation Kazzo, o serviço Kazoo, a primeira solução de comunicações móveis disponibilizada em Portugal com o objectivo de apoiar Instituições Particulares de Solidariedade Social. Através do Kazoo, um cartão recarregável para telemóvel, os utilizadores podem reverter 5% de todos os carregamentos efectuados a favor de uma Instituição Social à escolha, entre um conjunto de entidades com as quais foram estabelecidas parcerias específicas para o efeito.» A melhor forma de ser solidário, já se sabe… é consumir. Ganham as criancinhas, a igreja e o capital.

A Ajuda de Berço é apoiada por uma centena de instituições, as primeiras das quais são o Ministério da Segurança Social e do Trabalho, a Câmara Municipal de Lisboa, o Patriarcado de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e os Jogos da Santa Casa. Na lista, inúmeras empresas e lojas que estamos fartos de conhecer: Swatch, AR Telecom, Pingo Doce, RTP, SIC Mulher, Montepio Geral, Body Shop, Jardim Zoológico, Bertrand, Banco Espírito Santo, Casino Estoril, Optimus, Siemens, BPI, Imaginarium, Telecom, Vobis, etc.

Em outubro de 2009, diz-nos a cronologia: «organização da 2ª edição do Restaurant Week, de 8 a 18 de Outubro em Lisboa, e também no Porto, de 21 a 31 de Outubro, foi possível poder provar o melhor da Nouvelle Cuisine e ajudar a construir uma Nouvelle Maison para a Ajuda de Berço. Nos restaurantes aderentes ao Restaurant Week, cada menu com o custo fixo de 19€ mais 1€ que reverteu para a Ajuda de Berço.» E remata assim e muito bem: «Ajudar sabe sempre bem, mas durante estes dias teve um sabor ainda mais refinado.»

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22 respostas a A refinada Ajuda de Berço

  1. Joana Silvério diz:

    Mas afinal o que é que a Diana pretende dizer com este arrazoado? Que a Ajuda de Berço é apoiada pela igreja e por multinacionais e que é contra o aborto? Isso é ilegal, imoral ou desleal? Diga-nos, isso sim, se a Ajuda de Berço fugiu ao fisco ou se serve para lavar dinheiro da droga. Senão mais vale estar quietinha – que a internet já está cheia de vacuidades e de pessoas desinteressantes.

    • Diana Dionísio diz:

      Ui! Incomodei alguém?

    • Youri Paiva diz:

      Pronto. Não se fale disto mais, nem um bocadinho.

      Acho sempre estranho que estas empresas de eventos finos recebam apoios do Estado. E depois mistura-se a Igreja Católica como se esta não tivesse interesses e umas empresas que assim vendem melhor.

      Abro a página da Ajuda de Berço e aparece uma janela imperceptível: «Dar colo à Ajuda de Berço é muito fácil. Seja fã desta causa» e aparece o símbolo do Facebook e do Almada Fórum. Clico. Então parece que por cada fã no Facebook da Ajuda de Berço o Almada Fórum dá 1€ à IPSS. Lá vou ao Facebook da coisa (http://www.facebook.com/profile.php?id=100001055422150#!/pagina.ajudadeberco) e o que se encontra? Publicidade. Além do 1€ do Almada Fórum, recomendam a LifeCooler para fazer compras de Natal; a SIC, a Worten e Arredonda apoiam esta causa; um concurso; Future Health contra o encerramento da coisa; aparece uma notícia: «Ajuda de Berço regista diminuição de mecenas»; outra «Donativos caíram 40%»… Chego a um post de Julho de 2009 e finalmente percebo que esta coisa serve para alguma coisa: ajudar mães que não querem abortar, mas que não têm como suportar uma criança.» É um pouco óbvio o que pretendem, não?

      • JSM diz:

        Ah, arranjam dinheiro para acção social através de mecenato e referências aos parceiros que investem. E?

        • Youri Paiva diz:

          O problema não é simplesmente o mecenato. É esta IPSS viver, aparentemente, apenas para angariação de fundos.

          Nem ponho em questão o seu trabalho social, mas pouco se compreende no que esse consiste. Quando a mensagem que passa para fora é que precisam de fundos e mais fundos, e não existe o mesmo esforço para passar cá para fora o trabalho social que fazem.

          Além de que, no meu entender, isto tem outros interesses para além da «ajuda» a mães com problemas financeiros. Aparece com o objectivo da luta conservadora contra a despenalização e legalização da IVG.

          Ora, uma associação que tem uma agenda de propaganda contra um direito social e que, de resto, só passa para fora que apenas pede dinheiro através de publicidade a empresas não pode ser questionada?

  2. Ibn Erriq diz:

    Ó Diana, admito que este post tivesse, pelo menos, um objectivo, eu é que não estou a ver qual será, pode por favor ajudar-me?

  3. Isabel Branco Pires diz:

    A mensagem da Diana deve ser “eles querem ter a casa cheia de gente infeliz, cercada de gente com um sorriso de escuteiros quando ajudam uma velhinha a atravessar a rua”

    Foi isso que eu percebi….

    As grandes vocações dos portugueses são sinaleiros e escuteiros……

    Seja feita a sua vontade!

  4. bluesmile diz:

    Tanta generosidade evangélica e espírito de despojamento a favor das criancinhas pobezinhas, mas muito boazinhas deixa-me suspirante.

  5. Simão diz:

    “…ajudar mães que não querem abortar, mas que não têm como suportar uma criança.”

    E, cingindo-nos à frase……….há algum mal nisso?
    Será que quem não quer abortar (acho que ainda há direito a não querer abortar,certo?) e não tem meios para suportar a criança não pode pedir ajuda a quem muito bem entender?

    ps – votei SIM no referendo mas entendo que quem não quer abortar tem direito……………a não abortar, certo?????

    • Youri Paiva diz:

      Claro que o aborto não é obrigatório e que devíamos viver num mundo em que os problemas económicos não deveriam ser motivo para um aborto. Não é nada disso que está em causa, o que está em causa é o funcionamento desta instituição e os seus verdadeiros objectivos.

  6. Utópico diz:

    se calhar ajudou mais famílias do que 2 submarinos, ou do que os blindados para a cimeira da NATO, ou do que pagar 8 milhões de euros por um 1km de estrada de acesso ao hospital de braga.

  7. Bruno Carvalho diz:

    http://www.youtube.com/watch?v=VDNjIuY1Z2w

    Vamos brincar à caridadezinha…

  8. pedro diz:

    A ajuda de berço não diz apenas que ajuda quem não quer abortar… Faz campanha anti-escolha (quem quer inverter as coisas fala do “direito de não abortar”, mas deve saber que pelo contrário o direito à escolha das mulheres é que há muito pouco tempo existe na lei em Portugal, coisa que zanga muitos intolerantes). Essa instituição mexe com MUITO dinheiro, dá a ganhar a muita gente (marketing, publicidade, imagem, mais reduções de impostos, é quase só isso o mecenato em Portugal, não é bem sabido?) e faz pouco, muito pouco. Reconheço que há instituições ligadas à Igreja que fazem trabalho válido. Mas ajudar é dar reais condições de autonomia e independência às pessoas, não dar esmolas, usá-las para o marketing e fingir bondade. Mas a ajuda de berço faz trabalho errado, apoia e é apoiada pela intolerância, ajuda pouquíssima gente tendo em conta os meios que gere, tem uma mensagem paternalista, ajuda a manter tudo como está, tem apoios do estado incompreensíveis (pois, é que o estado não quer fazer acção social a sério), está metida numa máquina gigantesca de patrocinar. Solidariedade é outra coisa – não o paternalismo, nem clicar no rato ou premir no multibanco. Ser solidário é combater a pobreza e ajudar realmente as pessoas a serem livres e autónomas. Organizar chazinhos de caridade é, para algumas pessoas, “acção social”. Para mim não é.
    Acho curioso os comentários que não percebem o post. Eu cá acho que percebi: é Natal, tias!

  9. helder diz:

    Diana,
    em vez de andares a “cirandar” pelos “apoios”, vai ao cerne da questão e segue o dinheiro.
    follow the leader , e escusas de andar a levar com esta turma de “anjinhos”.

  10. O que eu acho disto e eu entendi fácil o ponto da Diana D. é que algumas destas ‘instituições’ pretensamente ‘caritativas’ servem é mais para dar qualquer tipo de projecção social aos ‘cabecilhas’ nelas envolvidos, encostar-se a nós todos e ao estado (nós todos outra vez).
    Enquanto fanno finta de servirem uma causa respeitável, na realidade vão-se mas é servindo.
    Vergonha na cara é um conceito que lhes é desconhecido.

    🙁

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  12. Zé Maria diz:

    Diana,

    se tem dúvidas sobre a ajuda de berço tem boa solução. Pegue em si e vá a Quinta do Cabrinha (zona onde abunda o crime e a droga) e visite lá a casa que a Câmara ofereceu à Ajuda de Berço. Vá lá e veja as crianças que lá estão e as pessoas que dirigem a Ajuda de Berço perdendo horas e horas da sua vida.

    Depois, se não gostar do que viu conte-nos. Agora atacar uma instituição que já ajudou e ajuda dezenas de crianças sem sequer mexer o rabo para se informar é de um baixo nível inacreditavel.

    Se acha que não deve ajudar mulheres grávidas em dificuldade é lá consigo, agora não chateie quem o faz!

  13. dfz diz:

    Acho que ajudar quem quer que tenha dificuldades, de qualquer tipo, é uma função do estado, por isso pagamos impostos e temos deveres. Temos cada vez menos direitos, mas os deveres vão crescendo. A ajuda de berço pode proceder da forma que quiser, ajudar quem quiser e defender os valores morais (ou pseudo-moralistas, na minha opinião) que quiser. Não tenho nada a ver com isso, sob o ponto de vista de liberdade de expressão. Só não admito que o faça com os meus/nossos recursos, sendo que não é uma instituição estatal. O apoio financeiro, as ofertas de recursos do estado, tudo isto é bastante promíscuo, na minha opinião.

    A acção social é uma função do estado e deve sê-lo sempre, não porque ache que faça melhor ou pior trabalho que os privados, mas como cidadão português, tenho o direito de pedir explicações aos funcionários públicos, aos políticos e discutir as leis que suportam o seu funcionamento. O mesmo não acontece com instituições privadas. E penso que este é o cerne da questão.

    Se existe quem diga que deveríamos todos ir ver os locais que alojam e ajudam crianças em dificuldades, acho que também deveríamos todos ir à sede desta instituição, auditar contas, validar quem recebe o quê e perceber quão metidos estão na lavagem de dinheiro, pois estas contribuições não são desprovidas de segundas intenções. Como dizia o Pacheco Pereira no outro dia “o povo tem que se capacitar que as empresas não funcionam com o objectivo social e de ajudar as pessoas mas com o objectivo de criar lucro” (nem acredito que estou a parafrasear este indivíduo).

    Na minha opinião, os meios nunca justificam os fins.

  14. Gita diz:

    A Ajuda de Berço é um pouco estranha ,há cerca de 15 dias um grupo de 4 estudantes ,telefonaram para esta instituição ,com a finalidade de a Visitar, para realizarem um trabalho na Área de Projecto,a resposta foi :Não há possibilidade.Se precisam assim tan-to de Voluntarios nada como abrir as portas as estes jovens para estes até ficarem sensibilizados com os problemas da sociedade…….

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