Encruzilhada no Curdistão


Entre os documentos publicados pelo WikiLeaks, encontram-se dados sobre a colaboração dos Estados Unidos com o PKK do Curdistão. Quando estive, em 2007, em Gaziantep, tive a oportunidade de contactar com várias famílias curdas. Da experiência, escrevi uma pequena crónica, que deixo aqui, com um desabafo que volto a repetir. A imagem da luta pela autodeterminação do povo curdo pode ser seriamente afectada pela colaboração do PKK com o imperialismo norte-americano.

Mais de uma dúzia de jovens juntaram-se para nos receber. O extraordinário, parece, é o facto de termos afirmado ser comunistas e, em determinado momento, termos participado em campanhas de solidariedade com Abdullah Ocalan. Fizemo-lo num ambiente de confidência a três amigos antes da nossa viagem à Síria. E com isso fizeram-nos prometer voltar. Não podiamos partir para a Europa sem desfrutar de um jantar e de um baile curdo.

O prometido é devido. E naquela tarde abafada de Agosto, largámos as mochilas no Yunus Hotel e esperamo-los na rua. Os nossos três amigos chegaram com o batalhão de gente desconhecida. Com uma alegria contagiante levaram-nos pelas ruas de Gaziantep. Metade deles não sabia uma palavra de inglês. E nós pouco sabíamos de curdo ou de turco.

Primeiro, levaram-nos à casa de chá arménia. Provavelmente, a visita não teve qualquer significado político mas a verdade é que havíamos conhecido na Síria vários arménios que apontavam o dedo acusador à Turquia pelo genocídio contra o seu povo. Aquela visita terá sido casual ou terá sido propositada? Nunca saberemos.

Mas depois de nos conduzirem pelo mercado levaram-nos a casa. À porta, recebe-nos a mãe. Não sabe quem somos mas ainda assim abraça-nos. Somos amigos das suas filhas e isso basta-lhe. Convida-nos a descalçar e puxa-nos para uma sala acolhedora. Senta-se num cadeirão e observa-nos sorridente. Não participa na conversa porque não sabe falar outra língua que não o curdo e o turco. São as filhas quem lhe vai explicando o tema.

Saltam-lhe lágrimas quando lhe dizem que falamos sobre o problema curdo. Só nesta família, houve quem tivesse que fugir para a Alemanha e houve quem tivesse optado por pegar em armas, ao lado do PKK. Algures, lutavam nas montanhas pela dignidade do seu povo. Mas não deixavam de ser sangue do seu sangue e isso fazia-a sofrer. Na guerrilha, o combate é de vida ou de morte.

Entretanto, os jovens estendem uma toalha no chão da sala. Há pão, salada, sopa de grão e pimentos recheados com carne e arroz. Nós, cumprindo as costumeiras regras, trouxemos a típica baklava para a sobremesa. Querem saber o que se come nos nossos países. Falo-lhes do famoso peixe que vive no Norte do Atlântico e que é o protagonista da gastronomia portuguesa. Sentamo-nos de pernas cruzadas e num ambiente jovial, enquanto se come, conversa-se e discute-se.

Não sei quando começaram mas num determinado momento todos dançavam. Também nós. Fui arrastado por uma rapariga que me obrigou a acompanhar os passos de forma disciplinada. Demos as mãos, fizemos um circulo e deixamo-nos levar pela guitarra de um dos jovens. Eles cantavam em coro enquanto eu lutava para manter os passos no ritmo acertado.

Levados pelo entusiasmo, entoámos canções revolucionárias. Houve tempo para o Hino de Caxias e para a Bella Ciao. A mãe, sempre alerta, mandou-nos baixar o tom quando cantámos a Internacional. Alguém nos podia denunciar. Mas era um momento solene. Todos eles, em curdo ou em turco, e nós, em português e em italiano, cerrámos os punhos.

Não sei como estarão. Não sei se estarão a preparar o próximo Newroz. Não sei se algum terá sido morto, preso ou partido para o exílio. Não sei se a mãe teve de derramar mais lágrimas. Tudo indica que sim. A Turquia lançou uma ofensiva sobre os guerrilheiros curdos. O próprio PKK – que depois da autonomia curda no Norte do Iraque havia tolerado, de forma vergonhosa, a intervenção norte-americana – encontra-se encurralado. Mas sempre que penso naquela noite recordo-me da voz de Manuel Freire: “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”.

em Rádio Moscovo

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5 respostas a Encruzilhada no Curdistão

  1. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Alguns nacionalistas palestinianos e irlandeses colaboraram com os nazis, não me parece que a causa da autodeterminação da palestina e da irlanda se tenha tornado injusta por isso.

  2. Bruno Carvalho diz:

    O PKK é a força que está mais à esquerda de todos os grupos curdos. É também a força mais conhecida e prestigiada onde a luta é mais encarniçada e onde há mais curdos, na Turquia. Nos últimos anos, o PKK tem assumido posturas desastrosas. Ainda em Setembro, o líder do PKK afirmava disposto a depor as armas se o Curdistão obtivesse uma autonomia como a da Catalunha. Já Ocalan renunciava, há um ano, desde a prisão, a violência e o socialismo (não sei em que condições estaria para fazer tais afirmações). Em contactos com membros do TKP (Partido Comunista da Turquia), apercebi-me que antes havia alguma colaboração entre ambos os partidos e que agora o ambiente é de total hostilidade. E temos de admitir que a colaboração com o imperialismo abrindo as portas à ocupação de outro país é uma postura gravíssima. Enquanto que na Palestina ou na Irlanda não faltavam alternativas e forças capazes de seguir uma linha consequente no Curdistão não vejo isso. Contudo, como sempre, quando os partidos operários traem, os povos devem construir as suas próprias alternativas.

  3. Só acho estranho é como é que os meios de comunicação social que estão nas mãos do Grupo de Bilderberg (ou seja, da Reserva Federal Americana, da CIA, da Comissão Trilaterla, etc. – tais como o New York Times, The Guardian, etc.), estão a ser os principais divulgadores deste vazamento.

    Será o governo oculto o próprio criador deste “vazamento”, utilizando-o como mais um impulsionador da crise mundial?

  4. Nunca pús os butes no Kurdistão, nem no ‘turco’ nem nos outros, e a maior parte da gente que conheço nakelas bandas são turcos e gajús/ahs porreiríssimos e civilizados e inteligentes (os/as).
    Portanto calo-me, é o melhor que tenho a fazer.
    :-/

  5. Sasha Shuker diz:

    Vou recomendar sua página no Facebook. Eu acho que é muito bom

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