“Quando há uma luta entre David e Golias, o nosso lado só pode ser um: David. Estamos do lado da vitória militar da ditadura ocupada contra a ‘democracia’ ocupante; estamos do lado da vitória militar da ditadura resistente contra o império ‘democrático’”

Contra capa da revista Rubra

Hoje, às 15h, no Marquês.

A última convocatória que recebi para a manifestação desta tarde chegou-me por sms já durante esta madrugada. Perdi a conta aos chamados que se foram tornando mais ou menos públicos, o que dá garantias que amanhã a poesia vai sair à rua e que a sua rima vai tão livre quanto a vontade constitucional dos seus autores. O mesmo se pode dizer relativamente às acções. Cada pessoa em seu nome individual, e cada organização em seu nome colectivo, responderá pelas suas.

Do outro lado esperemos encontrar apenas e só os polícias da NATO, que a quilómetros da cimeira e com todas as organizações a afirmarem o carácter pacífico do protesto, não têm grandes razões para carregar. Se o fizerem, a pretexto de danos secundários ou fomentando, ela própria, a desordem, toda e qualquer violência deve ser imputada às forças comandadas a partir do castelo em que se transformou o Parque das Nações.

O nome desta zona de Lisboa ganhou finalmente sentido.

“COMUNICADO

Pela derrota da NATO. Pela vitória militar da Resistência Islâmica!

Aqueles que no terreno estão a morrer a combater a NATO são hoje maioritariamente resistentes que reivindicam o islamismo ou são militantes de organizações islâmicas. O trauma do 11 de Setembro de 2001 e a vaga islamofóbica que não pára de crescer desde então, e que é parte da estratégia da NATO, levou o movimento contra o império para a encruzilhada. Como defender a derrota de um império recusando defender a vitória de quem lhe faz frente?

Sempre se defenderam povos e movimentos independentemente dos seus perfis religiosos. Martin Luther King era um fervoroso pastor evangélico, Malcolm X, um islâmico radical, Ximenes Belo, um alto quadro da Igreja Católica. Na verdade, e infelizmente, uma boa parte das sublevações populares mundiais são dirigidas por religiosos e não por ateus conscientes.

Como somos ateus, não cremos que haja uma superioridade moral de umas religiões relativamente a outras. Todos os movimentos de libertação dirigidos por religiosos, islâmicos, católicos, protestantes, professam os mais reaccionários credos, e todos eles mereceram o apoio da esquerda laica e socialista na defesa da sua autodeterminação e independência, na sua vitória militar contra os países imperiais.

Toda a esquerda europeia e norte-americana, intelectuais, trabalhadores que defenderam os povos ocupados não invocaram o carácter retrógrado que os seus credos advogavam para ficarem à sua margem. Por exemplo, na forma como tratavam as mulheres. A esquerda europeia nunca pôs como condição para apoiar uma luta de libertação o respeito pelas mulheres. Denunciamos qualquer desrespeito pela igualdade humana, mas não deixamos de tomar posição numa guerra por causa desse facto.

Quando há uma luta entre David e Golias, o nosso lado só pode ser um: David. Estamos do lado da vitória militar da ditadura ocupada contra a ‘democracia’ ocupante; estamos do lado da vitória militar da ditadura resistente contra o império ‘democrático’. A maior ameaça à paz mundial é o imperialismo e os seus exércitos. Não há ninguém que tenha espalhado mais terror pelo Mundo do que a aliança militar dos países centrais ocidentais, a NATO.

O nosso apoio à resistência islâmica não significa um apoio político às direcções islâmicas. Não temos nenhum respeito pela brutalidade sobre as mulheres, não acarinhamos o atraso, não defendemos uma ditadura. Sobretudo, não deixamos de denunciar que o pior destas direcções islâmicas é que são burguesas, e por isso um obstáculo à emancipação dos trabalhadores desses países. Podemos e devemos lutar pela construção de uma resistência anticapitalista entre os povos árabes. Mas enquanto esta é débil, não podemos ficar agarrados ao vazio das declarações solidárias mas inconsequentes. Defendemos a unidade táctica em conflitos onde é claro para todos quem é a vítima e quem é o agressor. Fazer unidade com a vítima não é professar todos os seus desejos nem calar toda e qualquer crítica.

Defendemos a retirada imediata da NATO dos países onde está e a autodeterminação destes povos, o que significa que somos contra a ida da ONU ou qualquer outra organização dos países centrais para estes países, com o disfarce de promoverem o bem-estar mundial. Nunca é demais lembrar que a guerra do Afeganistão está a ser feita com a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. A defesa da autodeterminação dos povos implica isso mesmo: que se respeitem as suas determinações e a sua forma de serem livres.

O Governo português comanda as tropas da NATO na Somália, um país onde estão a ser despejadas todos os anos toneladas de lixo tóxico e cujos chamados piratas defendem as suas águas territoriais da rapina e da poluição dos países centrais. Portugal Fora da NATO, Fora da Somália já!

É urgente defender a retirada de Portugal da NATO e é urgente que os nossos impostos deixem de servir para matar no Iraque, no Afeganistão, na Somália, na Palestina. Os actos de guerra contra as tropas invasoras ou os mercenários ao seu serviço devem ser considerados actos de resistência, de autodefesa.”

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