Em vésperas da reunião da guerrilha institucional chamada NATO, a tertúlia do Chapitô em redor de Fausto fez todo o sentido. Entre a referência ao Fausto dos primórdios e a partilha de experiências artísticas por Maria do Céu Guerra, a autêntica lição de história de Otello Saraiva de Carvalho, a visão jornalística e a universalidade da sua música por Viriato Teles, a conceptualidade e a peculiaridade da sua obra atística por Nuno Pacheco, a reflexão de índole mais filosóica de Amélia Muge, as intervenções do público e, claro, a ponderação sapiente das palavras do próprio Fausto Bordalo Dias, foi bom. Foi muito bom.
Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado
Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada
Canta rouxinol canta
não me dês penas,
cresce girassol cresce
entre açucenas
Afoga-me o corpo todo
se te pertenço,
rasga-me o vento ardendo
em fumos de incenso





Mas o caminho vai-se fazendo:http://estrolabio.blogspot.com/2010/11/lancamento-do-livro-escolha-da-escola_18.html
Não fui mas perante o relato apetece-me perguntar: “foi muito bom” porque todos emitiam variações da mesma opinião?
Foi muito bom porque se falou abertamente da obra de Fausto, extrapolando também para um teor político, sobre a falência do capitalismo selvagem e dos modelos neo-liberais. Só isso (e não é nada pouco)
Mas é proibido falar da obra do Fausto? Desde quando? Quem proibiu? E convidou os colegas e prof’s da Nova? Exercitou o que aprendeu no tal jornalismo de precisão?
Sim, na velha e totalitária tradição portuguesa: não gostamos de debates, gostamos é de quem conforte as nossas ideias!
O que se calhar bosselências não sabem era que o Fausto era o presidente da AEICSPU em 70/71 ou 71/72, muito antes de sequer ser cantor.
É daí que eu me lembro dele, e depois de outras “efemeridades.”
“não gostamos de debates, gostamos é de quem conforte as nossas ideias!” – gosto muito de debates, mas não era necessariamente o que tínhamos ali (embora fosse possível isso acontecer). Era uma tertúlia em redor do Fausto e da sua obra, com liberdade para tomar qualquer direcção possível, em função da vontade das pessoas que assistiram. Qualquer pessoa que quisesse questionar o valor da sua obra (parece-me difícil), poderia fazê-lo. Mas sejamos francos, quem é que se iria deslocar ao Chapitô para uma tertúlia com o Fausto, não gostando do seu trabalho? A arte não tem as exigências de contraditório que tem a política e não era esse o objectivo da iniciativa.
Quanto ao Leo, deixo-o a falar sozinho mais uma vez. Tanta demagogia junta faz-me lembrar um tal de… José Sócrates.
“A arte não tem as exigências de contraditório que tem a política e não era esse o objectivo da iniciativa.” Claro que esse não era o objectivo dessa iniciativa mas a arte tem ainda mais exigências de contraditório.
Porra, mas que raio!! O Otelo? A «filosofia» da Amélia Muge? E o Fausto explicou como se entra na maçonaria ou isso fica entre ele e os comparsas que decidem sobre nós todos os dias?
Sim, acredito que isso tenha tido o seu interesse. Mas vá lá, já cansa ouvir sempre a mesma coisa entre grupos de amigos e uns curiosos.
O João Torgal diz que foi muito bom. Eu digo que podia ter sido muito bom mas não foi. Eu estive lá. Foi morno e podia ter sido muito bom. O que se passou ontem no Bartô foi um terrível paradoxo. O Fausto trouxe um muro de amigos de peso (para não ter de enfrentar o público sozinho) que gastou o tempo e as palavras a celebrá-lo, a dar testemunhos, a falar dos seus olhos redondos. Não se puseram questões, o 25 de abril ali era uma lição de escola dada pelos velhos que acabou no 26 de abril. não se falou do que aconteceu a seguir, e era importante, porque a obra do fausto trata-se precisamente de tudo o que veio a seguir ao 25 de abril (eu a tentei abordar esta questão, mas ele respondeu pouco e foi logo abafado pela parede dos amigos), ou seja, falou-se no capitalismo selvagem mas não se falou nunca a nível concreto, por exemplo, em como a questão da defesa dos direitos de autor é hoje uma forma muito capitalista selvagem de um músico se posicionar. Mas tivemos de ouvir a Maria do Céu Guerra a falar sobre a falta de uma identidade nacional e patriotismo que até metia medo. O Otelo a contar a história que já contou mil vezes em programas de televisão de como se deu o golpe de estado do 25 de abril. O Fausto ontem era um espectador dos amigos, pouco falou. E ninguém lhe fez perguntas. Estava tudo fascinado, hipnotizado. Foi chamada uma menina para dar o testemunho de ter dançado ao som da música do Fausto na abertura do ano lectivo do Chapitô. E o público não conseguiu furar o muro de amigos que o rodeavam. Não chegou a haver discussão de nada. Foi pena. Era uma oportunidade de ouro. Estava ali o paradoxo já conhecido, aquela gente a celebrar uma coisa que morre precisamente porque é celebrada e não discutida.
“falou-se no capitalismo selvagem mas não se falou nunca a nível concreto”. O costume.
Aliás, o Fausto disse, quando lhe perguntei sobre esta viagem desde os anos setenta até hoje, que estamos novamente no momento de voltarmos a fazer uma reflexão política, mas ninguém achou isto um tema interessante para desenvolver, nenhum dos amigos de peso, até tive de ouvir uma boca da Amélia Muge dizendo que política não é só falar de política (claro que não! mas não era essa a questão, e ela achou que era mais importante, mais uma vez, dizer que o Fausto foi sempre subversivo na maneira como fazia música, do que reflectir como se pode hoje (e não ontem) fazer uma reflexão política com a música (que não tem, obviamente, que ser falar de temas políticos). A única coisa que se disse ali sobre HOJE foi da necessidade de uma identidade nacional! Francamente!
Sim, Miguel, tenho de concordar. Eu também achava que podia ser mais interessante, mas não é todo o dia que se celebra e se conversa com o Fausto (ainda para mais dado o seu perfil muito reservado) e foi por isso que fiz o elogio que fiz.
Percebi a sua pergunta no Chapitô (qualquer coisa como as razões que levaram a que a música de intervenção, com grande impacto nos anos 70 e 80, tenha perdido destaque com o tempo), mas foi pouco incisivo e claro. Teria sido um bom ponto de partida para uma discussão mais alargada, partindo do Fausto para a cultura e a intervenção política no pós-25 de Abril e, em particular, na actualidade. Estive para pegar nas suas palavras e dar-lhe uma maior substância, mas tive receio que ficasse desagradado com a minha intervenção e não o fiz.
Sim, João, é verdade, fui pouco incisivo na pergunta que fiz lá. Eu sou um bocado trapalhão a falar. Mais ainda em público. Mas se tivesses pegado, se calhar aquilo ia mais longe.
Abraço
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E, sim, a intervenção do Otelo, à parte a sua importância histórica, foi completamente desligada do Fausto (praticamente não o referiu). Parecia quase que o músico não estava lá.
a “importância histórica do Otelo” foi a sua colaboração na demissão do 25 de Novembro, que ele haveria de ter contado e não contou – lembremo-nos do seu proverbial analfabetismo politico, do “recado” que teria recebido nessa noite do Carlucci e do seu célebre desabafo: “rapaziada aguentem-me lá aí isso que eu vou para casa descansar porque estou estafado”
isso é que seria preciso esclarecer, a razão pq chegámos aqui, e não ouvir debitar patacoadas sobre heroismo militares que lutaram contra o fascismo (uma refinada mentira, pq o golpe de estado teve causas economicistas relacionadas com os salários e comissões de serviço da tropa, nomeadamente por comparação com os jovens oficiais milicianos a que foi preciso recorrer e que por assim dizer vieram “concorrer” com os tipos que toda a vida funcionaram servilmente ao serviço do salazarismo)
“a “importância histórica do Otelo” foi a sua colaboração na demissão do 25 de Novembro, que ele haveria de ter contado e não contou”. Pois………