Socorro, vêm aí os marcianos!


«Parece que uma guarda avançada já terá chegado cá e creio que, segundo informações que tive, já está referenciada pelas polícias e serviços de informações. Eles tem sempre apoio dos elementos locais, mas eles são muitíssimos mais perigosos que os elementos locais»

José Manuel Anes, Presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT)

Sempre que vejo ou leio as declarações do inefável presidente da OSCOT, digo sempre para mim: “onde é que está a página da gaja boa?”. Os jornais do finado Rossado Pinto, como o do incrível, tinham todos os defeitos, mas tinham, de vez em quando, uma gaja boa para nos ligar ao mundo telúrico. É visível que o senhor não vive neste mundo. Vê em cada esquina uma ameaça potencial, em cada árvore um bin Laden bamboleante, em cada rua um membro façanhudo do black bloc. Parte dos jornalistas delira. Acredita piamente em todos os disparates que o senhor diz, para aparecer nas televisões. Uma jornalista amiga garantiu-me que o senhor lhe tinha confirmado a chegada a Portugal de um milhar desses perigosos meliantes. Uma perguntinha prática, onde é que toda essa gente fica alojada? No Ibis? Participei na organização dos Fóruns Sociais Europeus de Florença, Paris e Atenas e nas manifs contra as cimeiras de Sevilha e Edimburgo, nunca vi anarquistas a nascerem das árvores. Para lá estarem era preciso existirem muitos nesses paises e haverem infra-estruturas de alojamento alternativo, como estádios e outros sítios para albergar esses milhares de pessoas. Se os jornalistas lessem a página pessoal do senhor José Manuel Anes pejadinha de livrinhos escritos por esse autor de referência, onde pululam títulos felpudos e pujantes como : “A Alquimia Breve” e os “Jardins iniciáticos da Quinta da Regaleira”, perceberiam que não basta usar regularmente avental para dizer uma para a caixa.
A minha dúvida prática: quem paga essa OSCOT? Espero que não seja o erário público.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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21 respostas a Socorro, vêm aí os marcianos!

  1. A principal plataforma de observação deste organismo é um mero banco de um dos vários comboios que a CP, esse buraco enorme, utiliza na Linha de Sintra. Aliás, dizem que atribuem 1000€ a quem andar no comboio depois das 18h e não for roubado. 1000€ e férias na Madeira.

    Os 1000€ ainda não foram atribuídos, já agora.

    Uma palavra de apreço ao artista que “desenhou” a estação de Mira Sintra-Meleças. Duas saídas, isto é, perfeito para que grupos enjaulem, literalmente, pessoas que chegam do trabalho, de seguida roubando-as e ameaçando-as. Acontece o mesmo na estação de Rio de Mouro, apesar de a polícia ser, só recentemente, uma presença mais assídua – isto quando está na rua acima a roubar o cidadão em multas.

    Uma aventura na Linha de Sintra, próximo livro da famosa série. Dizem que fim é negro.

    • pvc diz:

      Isso é tanga de quem não usa os comboios. O senhor meditativo tem umas 200 mil pessoas a andar todos os dias entre as 18 e as 02 e pouco da matina nos comboios da linha de Sintra e acaso ouve falar em 200 mil queixas diárias? Vá com alarmismos para outro lado, ya?

  2. A.Silva diz:

    “Com sede social na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, o seu primeiro presidente de Direcção (e co-fundador) foi o actual Ministro da Administração Interna, Mestre Rui Pereira”

  3. Dallas diz:

    A pergunta que o Nuno faz é altamente pertinente: qual o estatuto desta organização.
    Segundo os próprios, constituem um observatório. No entanto, e ao contrário da grande parte deste tipo de organismos, não publicam os relatórios. Se tentarmos aceder a esta parte do site, este diz-nos “parte reservada. faça login”.

    Ontem tive oportunidade de ver a participação de Paulo Pereira de Almeida na sic 10 horas. Aqui reside outras das diferenças. Ao contrário da grande parte dos observatórios universitários, este possui um discurso amplamente militante, não tendo problema, por exemplo, em classificar o black bloc de terrorista urbano. Algo completamente ridículo, tendo em conta que, primeiro, não se trata de um grupo organizado, mas sim de um modo de luta; segundo, toma como alvo propriedade privada, e não pessoas.

    O que me leva a achar que este tipo de organismo se insere numa espécie de frente de estudos e de investigação da polícia e dos serviços secretos.

  4. Tiago Mota Saraiva diz:

    Sim Nuno, e é preciso não esquecer que, em Génova, se provou haver “black block polícias”:
    http://www.sheentv.com/view/3b769xd9a/genova-g8-infiltrati-e-black-bloc/

  5. Essa gentinha é ridícula, espiam através de recortes de jornais e conversas de café e de andarem a vasculhar a i-net, não têm o senso de si próprias, devem achar-se o máximo e depois aboletarem-se à tripa forra.
    Gostava de ver esse pseudo-literato ‘Asnos’ também infiltrado no Black Bloc, talvex assim pudesse responder às questões práticas que o Nuno levanta.
    Mas não, vai continuar a espiar nas recepções a ver se encontra “terroristas” no meio da brigada-da-mão-fria (de segurar o copo de champanhe) e a poluir as livrarias com a dua (dele) literatura de cordel.

    O polícia normal que arrisque o coirito se quiser (estes gajús de preto são duros a valer, e magoam… mais vale bater nos outros) que ele só presta (des)informação estúpida e irrelevante, dá uma trabalheira a inventar.

    🙁

    Agora vem-me cá buscar, Asno.

  6. Leo diz:

    Eles próprios explicam quem são, Nuno:

    “O OSCOT – Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, é uma entidade sem fins lucrativos de carácter associativo, independente do poder político e dos órgãos de soberania. Assume-se, assim, como uma entidade da sociedade civil mas com fins públicos, preocupada com os assuntos da Segurança nas suas várias vertentes, sobretudo com a segurança individual, enquanto valor fundamental associada ao direito à liberdade.”

    Eles próprios de declaram uma espécie de ONG dedicada a uma causa. O que os distingue no fundamental doutras espécies de ONG’s é a “causa”. Como é a “causa” que distingue a AMI da UMAR ou do SOS Racismo, e doutras, por exemplo.

    E são todas elas – como sabemos bem – financiadas por dinheiros públicos nacionais e estrangeiros.

  7. António Figueira diz:

    Bom post.

  8. Gualter diz:

    Talvez podemos escrever ao Reitor da UNL, a perguntar o que faz este observatório na sua (e minha) universidade. E se se revê nas declarações do seu presidente. Duvido que tenhamos resposta, mas se a tivéssemos seria certamente interessante de ler.

  9. Claro que há liberdade de associação, como há liberdade de crítica aos disparates sensacionalistas e de tendência pidesca que certas associações propagam.

  10. Pedro diz:

    Nuno, está a perguntar onde é que ficam alojadas mil pessoas em Lisboa? Em Coimbra, para o concerto dos U2 vieram 40 50 mil em cada um dos dois dias e arranjaram-se. Eu sei que Lisboa não é Coimbra, mas ainda assim… nessa aldeia, há-de haver quem lhes dê alojamento, que diabo, nem que seja no salão paroquial e no salão de festas da sociedade recreativa do lugar.

  11. Pedro,
    Tem imensa graça. Até há mais turistas todos os dias em Lisboa. Mas isso não quer dizer nada. Em nenhuma dessas cimeiras alternativas a maioria dos activistas ficou em hoteis. Usaram uma rede de alojamentos colectivos: escolas, centros sociais, estádios, acampamentos, etc… Não é uma questão de pormenor, é uma questão logística. A preparação deste tipo de acções sítios e espaços ligeiramente diferentes da recepção do Ibis. Mas enfim, quem nunca esteve numa contra-cimeira ou nas manifestações contra o G8, pode pensar que aquilo é um concerto do U2.

  12. Pedro diz:

    Nuno, perguntou onde ficaria alojada essa multidão imensa. Mil pessoas. Em Lisboa. Mas admito perfeitamente que seja uma questão prática inultrapassável, que só não percebe quem nunca esteve numa dessas cimeiras. Não, não é como os U2; é um outro paradigma de logística, que eu não consigo atingir. Se eu um dia decidisse ir a uma dessas cimeiras como manifestante, ficaria completamente perdido. Se calhar, arrisco, teria de distribuir os meus milhões de células por todos os quartos de hotel e quartos de amigos na cidade 😉

  13. Pedro,
    Nem os tipos do Expresso conseguem ser tão imaginativos como você. A ideia de mil pessoas espalhadas por quartos de hotel a fazer armas de manifestantes e coctails molotov no lobie do Ibis não chegou às páginas dos jornais. O que são grupos de 100 manifestantes a treinar no espaço WC do quarto dos hoteis em questão? Num divertido artigo, o Expresso cita fontes que lhe falam de uma fábrica abandonada. Helás, quando a polícia lá foi verificar a animada suspeita, da OSCOT, para aí. Conseguiu encontrar grafitis e uma toalha abandonada. Segundo, o artigo, fica assim confirmada a presença de milhares de membros do black bloc nesse sítio. Creio que o artigo se baseia na alergia dos anarquistas ao banho, e como encontraram uma toalha, o apetrecho burgês dava , pelo menos, para 2500 anarquista (contas da ASCOT, os gajos do observatório usam todos o mesmo avental?).

  14. Pedro diz:

    Nuno, eu não li o Expresso. Limitei-me a comentar o seu post e a seguir os links que aí colocou. Em nenhum lado se fala aí de meterem os mil manifestantes no Ibis ou numa tenda num parque de campismo ou num envelope. Não sei se alguém terá dito isso e onde, se há relatórios policiais reais ou inventados com isso, pelo que continuo sem perceber nada desse tal problema logistico, o que, admito perfeitamente, deve ser problema meu.
    Quanto à perigosidade, ou intentos, dos manifestantes, não faço nenhuma apreciação de valor. Limito-me a constatar que muitos, os mais radicais, acham que as formas de manifestação e intervenção cívicas tradicionais, são uma forma de manifestação burguesa e que não leva a nada. O que faltam é links, com tipos a dizer que a violência da sociedade tem que ser combatido com outro tipo de violência. Whatever, é lá com eles e com quem os atura. Tenho ideia, pelo menos, que Lisboa não é Atenas, que quase todos os dias é uma party nesse aspecto, menos party para a imensa maioria que nada tem a ver com eles, assim como nada tem a ver com os grupúsculos nazis. Nós, não, somos todos gajos conciliadores, porreiros, mas tão porreiros, que nem sequer admitimos que exista um blakcbloc, sem vermos os seus estatutos publicados em Diário da República e registados no tribunal constitucional. Somos mesmo assim, não há remédio. E vindo esses gajos cá, eventualmente, por hipótese remota, seriam logo convencidos a desfilar com malmequeres na mão e a gritar baixinho, para não incomodar os passantes. Estou sinceramente convencido disso.
    Para reforçar que não tenho nada de ingénuo, sei também, sabemos todos, que há infiltração desses grupos pela polícia ou por organizações de sinal contrário, para fazer ainda mais barulho.

  15. Pedro,
    Vamos ficar pelo post. Há vários órgãos de comunicação social a noticiar a eminente chegada do black bloc a Portugal. Eu limito-me a fazer duas constatações:
    1. O Black bloc só apareceu em países com movimento anarquista significativo em que foram montadas estruturas de apoio que exigem uma importante concentração de meios e militância.
    2. Esta tal de OSCOT limita-se a ir à televisão e dar notícias sensacionalistas sobre tudo e sobre nada. Finalmente, lendo o CV e a bibliografia editada pelo seu presidente, eu dava-lhe menos credibilidade que o professor Fofana se ele estivesse a falar de uma eminente invasão de marcianos.
    A capacidade turística de Coimbra, de Lisboa e do Algarve não são para aqui chamadas. Você perceberá que para alojar 1500 pessoas em casas particulares são precisas algumas centenas de casas. Em Portugal não há essas centenas de militantes anarquistas. Limitemo-nos, portanto aos factos e ao domínio do real, e deixemos para a OSCOT o maravilhoso domínio das ameaças no país das fadas.

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  17. Filinto diz:

    O ofício deste senhor é pura e simplesmente meter medo. Embora tenha lido o livro do Renato, não estou muito por dentro das vossas comissões de festas ou das actividades paralelas às cimeiras — preciso de pôr aqui um smile? — , mas tem lido umas coisas sobre a ETA e, sendo uma temática que me interessa, estive atento aquando da detenção em Portugal de dois supostos membros da organização. Ora, nessa altura, o senhor Anes disse, num primeiro momento, em entrevista à RTPN, que não era grande especialista em ETA e, no dia seguinte, disse aos microfones da TSF que o mais provável era a PJ e GNR irem procurar os restantes militantes numa determinada zona do país (Coimbra). Ora, alguém que se preocupa tanto pela segurança dizer em público, para uma rádio, onde as polícias vão procurar os alegados terroristas é, digamos, um burrice de todo o tamanho. Desde então, sigo comunicacionalmente o senhor Anes. Para defender o seu emprego, presumo, o seu ofício é pura e simplesmente meter medo.

  18. Filinto diz:

    Leia-se “tendo lido umas coisas”.

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